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Para Campos, corte na educação é vergonhoso e MEC vive caos fora do normal

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João campos, filho e herdeiro político de Eduardo Campos Imagem: André Nery/JC Imagem
do UOL

Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo

2019-05-26T04:00:00

2019-05-26T08:16:57

26/05/2019 04h00Atualizada em 26/05/2019 08h16

Em meio a uma aversão à política e uma onda retórica de renovação, um dos mais jovens deputados na Câmara Federal defende o respeito à tradição.

Não à toa: o sobrenome de João Campos (PSB-PE), 25, fez dele o deputado mais votado da história de seu estado, Pernambuco. Bisneto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos, ele se elegeu para a Câmara Federal com 460 mil votos, o que corresponde a 10,63% dos votos válidos.

O resultado o fez superar o recorde antes alcançado por sua avó, Ana Arraes. Em números absolutos, ele foi o quinto deputado mais votado do Brasil, sendo que os quatro primeiros eram candidatos de São Paulo, maior colégio eleitoral do país.

Eu acho que a renovação na política é como um rio quando enche. Não vai cheio só de água limpa. Enche com água suja, limpa, misturada. Teve muita gente que saiu do Congresso Nacional que valeria muito a pena estar aqui. E teve muita gente entrou que não vale a pena.

Campos critica a negação à política ("é mentir para o povo") e não vê como um problema a pouca experiência - sua e de novos colegas parlamentares. Antes de lançar sua candidatura, ele ocupou apenas um cargo público: o de chefe de gabinete de Paulo Câmara, que cumpre agora seu segundo mandato como governador de Pernambuco.

"Esse não é um argumento que se sustenta. Se for por esse caminho, você nunca vai dar oportunidade a um jovem", diz. "Política você não aprende nos livros, você tem que aprender conhecendo, tendo jeito. Eu nasci nisso, me criei nisso. A vida inteira eu convivi com a política."

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26.out.14 - Eduardo e Renata Campos com os filhos posam em frente ao retrato de Miguel Arraes Imagem: Folhapress

Na Câmara, João H. Campos adotou o H. para se diferenciar do deputado homônimo - e ideologicamente divergente - do PRB-GO.

O filho de Eduardo Campos se diz contrário à proposta do governo para a Previdência, mas aceita discutir uma reforma.

Se adaptou às práticas políticas de sua geração. Fez, por exemplo, um processo seletivo para selecionar 30% dos funcionários de seu gabinete -- o que se tornou praxe nos novos mandatos.

O pernambucano tem atuado, no geral, em parceria com outros jovens deputados do Congresso. Assinou dois projetos de lei ao lado do correligionário Felipe Rigoni (ES), e tornou-se vice-presidente de uma comissão especial, criada por Tabata Amaral, para fiscalizar o MEC (Ministério da Educação).

Acho que a juventude tem responsabilidade muito grande com o país. Os riscos que a gente tá correndo são enormes.

A educação e o dólar

No dia em que Campos falou com a reportagem, por telefone, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, era questionado pelos deputados federais durante uma audiência na Câmara que durou seis horas. Ao mesmo tempo, milhares de estudantes, pais e professores saíram às ruas de cidades por todo o país para se manifestarem contra os cortes na educação.

"O que está acontecendo com a educação agora é um absurdo. É vergonhoso você defender esses cortes... Não tem argumento", diz ele, que é formado em engenharia civil pela Universidade Federal de Pernambuco e foi bolsista CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) durante um ano.

O ministro da Casa Civil disse que os cortes vão acontecer para o dólar não passar de R$ 4. Então quer dizer que a educação brasileira vai ser pautada pela cotação do dólar? Pela especulação da bolsa de valores? Isso é um absurdo.

Na última semana, Campos tornou-se titular da Comissão de Educação e diz pretender reproduzir, em nível nacional, os bons resultados educacionais alcançados por Pernambuco na última década - hoje, é um dos estados com os melhores índices no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

Além disso, tornou-se vice-presidente da Comissão Externa do Ministério da Educação, criada em abril com o objetivo de monitorar a pasta - um dos maiores pontos de tensão do governo de Jair Bolsonaro.

Reprodução
Tabata Amaral e João Campos presidente comissão para monitorar o MEC Imagem: Reprodução

O que está acontecendo no MEC não é normal. É algo que gente mais experiente nunca viu. É uma guerra ideológica, um despreparo técnico, um desrespeito do que já construímos na educação brasileira. Então pelo fato atípico que tá se passando, se justifica criar uma comissão externa só para acompanhar o ministério.

Brigas de família e Lava Jato

A candidatura de João Campos em 2018 foi resultado de articulações feitas pelo governador Paulo Câmara e pelo prefeito de Recife, Geraldo Júlio, que causaram certo mal-estar no interior do partido, e também na família.

O nome do segundo filho de Eduardo começou a ser cobiçado como herdeiro político nas eleições de 2014, quando seu pai lançava candidatura à Presidência - e já naquela época provocou discórdias. A prima de Eduardo, Marília Arraes, acusou a cúpula do partido de impor a candidatura de João -- que não se concretizou. Marília acabou rompendo com o PSB e ano passado foi a segunda deputada mais votada do estado, atrás do primo - mas pelo PT.

"Eu não voltei atrás, porque eu não lancei candidatura nenhuma. Você só volta atrás quando decide", responde, sobre não ter saído candidato em 2014. "Eu podia ter disputado, teria votos para isso, mas naquele momento eu não cogitei disputar porque tínhamos um projeto muito claro, que era o projeto da Presidência do Brasil."

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12.abr.18 - A deputada federal Marília Arraes (PT-PE), segunda mais votada em Pernambuco Imagem: Avener Prado/Folhapress

As eleições daquele ano seguiram com um desenrolar inesperado, quando o avião que levava seu pai, Eduardo Campos, caiu em Santos, matando o candidato e as demais pessoas a bordo. Dilma Rousseff (PT) foi eleita meses mais tarde poucos pontos à frente de Aécio Neves (PSDB) no que, à época, foi considerada a eleição mais polarizada do país.

Na última sexta (24), o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) determinou o bloqueio de R$ 259 milhões do espólio de Eduardo Campos, no âmbito da operação Lava Jato. Segundo as investigações, sua campanha para o governo estadual em 2010 teria pedido R$ 20 milhões em propinas.

Sobre o episódio, Campos afirmou ao UOL que "a trajetória de luta e de entregas [de Eduardo Campos] em todos os cargos que ocupou fala por si só. Confiamos que a condução isenta e equilibrada resultará no pleno esclarecimento dos fatos e, em função disso, temos a absoluta convicção de que a justiça será feita, mesmo considerando a acusação descabida contra alguém que sequer está aqui para se defender".

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