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SC: Idosa usa kit covid e é internada após 10 dias; 'sem efeito', diz filha

Lisseu Martins tenta ver sogra internada por covid através de pequena janela do Hospital Regional do Oeste, em Chapecó (SC) - Hygino Vasconcellos/UOL
Lisseu Martins tenta ver sogra internada por covid através de pequena janela do Hospital Regional do Oeste, em Chapecó (SC) Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL
do UOL

Hygino Vasconcellos

Colaboração para o UOL, em Chapecó (SC)

05/03/2021 04h00

De uma pequena janela, um grupo de pessoas se espreme para tentar conversar com parentes internados por covid no Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó. A cidade no oeste catarinense enfrenta a falta de leitos e na última terça-feira (2) passou a mandar pacientes para o Espírito Santo. "Como ela está?", questiona Edite Gonçalves, 56, sobre sua mãe, Anita Ramos, 72. "Está sendo analisada", grita um funcionário da unidade.

Há dez dias, a idosa começou a apresentar os sintomas do coronavírus e procurou um dos ambulatórios de campanha montado na cidade. Foi diagnosticada, recebeu o chamado kit covid e mandada de volta para casa. No pacote havia cloroquina e ivermectina, remédios sem eficácia comprovada para o tratamento da doença, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Na noite de quarta-feira (3), Anita começou a apresentar falta de ar e reclamava de dores no peito e nas costas. Os outros três filhos da idosa tentavam tranquilizar a irmã, que mora a 91 km de distância. Preocupada, Edite foi às pressas para Chapecó e chegou na manhã de ontem.

Quando eu cheguei, me assustei com o que eu vi. Não imaginava que ela estava tão ruim. Praticamente sem efeito o kit covid"
Edite Gonçalves, sobre o estado de saúde de sua mês, Anita Ramos

Na manhã de hoje, a idosa foi levada primeiro para uma clínica particular por ela e pelo cunhado, Lisseu Martins, 56 anos. Ao chegar lá, a família foi orientada a procurar o hospital. Por sorte, a idosa conseguiu dar entrada na casa de saúde pouco tempo depois.

Anita foi acomodada no PS (Pronto Socorro), quase todo reservado a pacientes com coronavírus. A unidade fica no mesmo nível da calçada e as janelas são mantidas abertas, com os pacientes a poucos metros de quem está do lado de fora. A reportagem permaneceu poucos minutos no local e, junto com a família, foi retirada de próximo das janelas.

Edite contou que estranhou não poder ter contato com a mãe. "Eu não posso entrar lá?" perguntou para o cunhado, sentado em um banco. Após a negativa dele, Edite não escondeu a surpresa: "não acredito que não posso vê-la". Foi quando se afastou da entrada principal e caminhou em direção às janelas. "Será que não dá para ver daqui?". Mal terminou a frase e já encontrou a mãe no fundo de uma sala.

Procurada pela reportagem, a assessoria da prefeitura confirmou que o kit covid é distribuído em algumas unidades. Porém, o médico tem direito de escolha para prescrevê-lo ou não, assim como o paciente, que pode optar pelo uso ou recusar os fármacos.

Jovem procurou atendimento 4 vezes até ser internado

Do lado de fora do hospital, uma outra família esperava a chegada da ambulância que trazia o jovem Henrique Gonçalves, 31 anos. Ele estava internado na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) e, por orientação médica, precisou ser transferido para o HRO. Mas antes disso, ele praticamente fez uma peregrinação por atendimento, indo quatro vezes na UPA até ser internado.

A mãe dele, Belenice Fátima de Santos, 53, diz que ele começou a apresentar sintomas em 20 de fevereiro e foi até uma UPA, mas não conseguiu atendimento. Dali, foi em uma farmácia, fez o exame e recebeu teste positivo para a doença. Três dias depois a esposa dele e o filho de sete anos também foram diagnosticados com a doença.

No meio da semana, o jovem voltou na UPA e recebeu antibiótico e bombinha de ar antes de ser liberado. Em 27 de fevereiro ele voltou na unidade, recebeu soro e novamente foi mandado de volta para casa. Nesse dia ele já estava havia 36 horas sem conseguir se alimentar direito, segundo a mãe dele.

No domingo (28), Gonçalves começou a passar mal no banho, com muita falta de ar. Foi levado para a UPA às pressas onde conseguiu atendimento. Porém, na unidade a família descobriu que ele estava com pneumonia e tinha ainda contraído uma bactéria. Por decisão médica, o rapaz foi encaminhado para o hospital.

A nossa esperança era que a cada minuto ele fosse ficar bem. A gente não tinha a sensação de que ele fosse piorar tanto"
Belenice de Santos, sobre a situação do filho Henrique Gonçalves

O marido dela, Eraldo de Carvalho Pedro, 56, diz que a situação é delicada. "O estado dele é gravíssimo."

Paciente é transferido da UPA para hospital regional de Chapecó - Hygino Vasconcellos/UOL - Hygino Vasconcellos/UOL
Paciente é transferido da UPA para hospital regional de Chapecó
Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL

Cidade tem 314 pessoas internadas por covid

Em Chapecó, 314 pessoas estão internadas por covid —124 em leitos de UTI (a taxa da ocupação nas UTIs da cidade é de 96%). Só no hospital regional há 145 pessoas internadas pela doença. Do total, 82 estão em leitos de UTI, 27 na enfermaria e outros 36 em outros leitos.

O município, que tem 224 mil habitantes e fica a 558 km de Florianópolis, já registrou 321 óbitos e 27.364 casos confirmados para a doença. Atualmente há 5.555 casos ativos para a covid, que seguem sendo monitorados.

Já em Santa Catarina ocorreram 7.709 óbitos — só ontem foram 91 mortes registradas. O estado já registrou até agora 694.274 casos confirmados. Segundo o governo estadual, 280 pacientes com covid aguardam leito de UTI.

Dos 1.599 leitos de UTI existentes pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em Santa Catarina, há 1.537 ocupados, sendo 863 por pacientes com confirmação ou suspeita de infecção por coronavírus. A ocupação é de 96% e há 62 leitos vagos atualmente.

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