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Lula não expulsou jornalista americano, mas pedido chegou a ser feito

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Imagem: Arte/UOL
do UOL

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

16/08/2019 04h01Atualizada em 16/08/2019 11h48

Uma corrente que circula pelas redes sociais e aplicativos de mensagem acusa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ter expulsado um jornalista norte-americano durante seu governo, em 2004.

"Jornalista deportado do Brasil por Lula. Esse é o jornalista americano Larry Rohter. Ele foi expulso do Brasil em 2004 pelo então presidente Lula. O motivo?? Ele escreveu um artigo sobre o apreço de Lula por bebidas alcoólicas. Só isso!", revela o texto, acompanhado de uma foto de um homem com a bandeira dos Estados Unidos.

A mensagem com conteúdo antigo voltou a circular com mais força entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, quando ele sugeriu que o jornalista norte-americano Glenn Greenwald poderia ser preso.

FALSO: Lula não expulsou jornalista, mas pedido chegou a ser feito

A corrente usa um acontecimento verdadeiro parar divulgar uma informação falsa. De fato, houve um pedido de cassação do visto de Rohter, homem da foto, jornalista do "NYT" por parte do governo brasileiro, mas este foi revogado e ele não foi deportado.

A confusão começou no dia 9 de maio de 2004, quando Rohter, correspondente do jornal nova-iorquino no país, publicou a matéria "Hábito de bebericar do líder brasileiro se torna preocupação nacional" (em tradução livre).

No texto, o norte-americano cita especulações sobre a suposta ligação entre Lula, a bebida e gafes internacionais. Rohter cita ainda falas de Leonel Brizola, ex-vice na chapa de Lula, e o colunista Diogo Mainardi, então na revista "Veja".

Por meio de assessoria, o Planalto declarou na época que o texto "não é jornalístico" e que tratava-se de "calúnia, difamação e preconceito". Segundo a revista "Época", quando leu a matéria, o ex-presidente deu um murro na mesa e disse diversos palavrões.

O Planalto decidiu, então, cancelar o visto de permanência do norte-americano no Brasil, o que faria com que Rohter fosse expulso, no dia seguinte, 10 de maio. Três dias depois (13), o então ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Francisco Peçanha Martins deu um salvo-conduto para que o jornalista permanecesse no país.

O caso só se pacificou no dia 14 de maio, cinco após a publicação, quando três advogados do jornal norte-americano apresentaram uma carta ao Planalto pedindo a reconsideração do visto.

Na mensagem, Rohter afirmava que "jamais ter tido a intenção de ofender a honra do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, a quem já pôde até mesmo entrevistar em algumas ocasiões, e reafirma seu grande afeto pelo Brasil e seu profundo respeito às instituições democráticas brasileiras, incluindo a Presidência da República".

O então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, afirmou à imprensa à época que "juridicamente a retratação é consistente e, por isso, o governo decidiu revigorar o visto".

O "NYT", por sua vez, celebrou a decisão do governo brasileiro, mas afirmou que em nenhum momento se retratou ou pediu desculpas.

Ao UOL, a assessoria do ex-presidente não quis comentar este assunto em específico, mas declarou que "houve plena liberdade de imprensa durante os dois mandatos de Lula e que nenhum jornalista estrangeiro foi expulso do país ou preso no período".

FALSO: Caso repercutiu e governo foi criticado

Grande parte das pessoas que divulgam a corrente questionaram sobre como as instituições e a imprensa trataram o caso. "Quando Lula expulsou um jornalista estrangeiro, a imprensa e os jornalistas não falaram nada!", comentou uma usuária do Twitter. Conteúdos semelhantes foram compartilhados em aplicativos de mensagem.

A percepção, no entanto, é falha. Em 2004, o caso repercutiu internacionalmente, com críticas nos Estados Unidos e diversos países da Europa. À "BBC Brasil", o secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas, Aidan White, afirmou que foi uma "atitude injustificável".

Como esta reportagem mostrou, o caso foi também amplamente noticiado pela imprensa por aqui. Além disso, instituições como OAB (Ordem de advogados do Brasil) e a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) se posicionaram criticamente sobre o assunto.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no oitavo parágrafo, Francisco Peçanha Martins foi ministro STJ (Superior Tribunal de Justiça), e não do STF (Supremo Tribunal Federal). O texto foi corrigido.

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