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Um latino para comandar imigração e outras escolhas de destaque de Joe Biden para sua equipe

Presidente eleito nos Estados Unidos começou a escolher os nomes que irão compor sua gestão - Getty Images
Presidente eleito nos Estados Unidos começou a escolher os nomes que irão compor sua gestão Imagem: Getty Images

Gerardo Lissardy

Da BBC News Mundo, em Nova York

24/11/2020 21h14

Um latino no comando da política de imigração dos Estados Unidos. Uma mulher na direção dos serviços de inteligência. E um ex-secretário de Estado encarregado de ações de combate ao aquecimento global.

Assim é parte da equipe escolhida pelo presidente eleito dos EUA, Joe Biden. Ele começou a definir os integrantes de seu governo com várias nomeações para cargos de segurança nacional, confirmadas na segunda-feira (23/11) por seu escritório de transição.

Os anúncios incluem a nomeação de Alejandro Mayorkas, um imigrante cubano, como secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, e Antony Blinken, um defensor do multilateralismo, como secretário de Estado.

Biden também escolheu John Kerry, ex-secretário de Estado de Obama, como enviado especial para o clima e Avril Haines como diretora de inteligência nacional dos Estados Unidos.

As escolhas de Biden para cargos importantes em seu gabinete antecipam uma reviravolta em relação às políticas mais polêmicas do atual presidente dos EUA, Donald Trump, em áreas como a imigração e as relações internacionais, apontam especialistas.

Antony Blinken (segundo à esquerda) e John Kerry (à direita) figuram entre os nomes anunciados para participar da equipe do governo Biden - Reuters - Reuters
Antony Blinken (segundo à esquerda) e John Kerry (à direita) figuram entre os nomes anunciados para participar da equipe do governo Biden
Imagem: Reuters

E também mostram o interesse de Biden em aumentar a diversidade racial e de gênero no governo, assim como em usar altos funcionários do governo Barack Obama para dar força à sua gestão.

As mudanças

As nomeações de Biden foram anunciadas antes que o governo Trump concordasse, na segunda-feira, em iniciar formalmente a transição do comando, após semanas de atrasos. Trump, porém, ainda afirma que não reconhece a vitória do adversário.

Nas últimas semanas, o atual presidente dos EUA sofreu várias derrotas em suas ações legais e políticas para tentar reverter o resultado da eleição de 3 de novembro, incluindo a certificação da vitória de Biden no Estado de Michigan na segunda-feira. Nesta terça, foi a vez de o governador da Pensilvânia, Tom Wolf, anunciar que certificou a vitória do democrata ali. Acredita-se que Biden terá 306 votos no colégio eleitoral americano (o mínimo necessário para ser eleito é de 270 votos).

Apesar de assumir o cargo somente em 20 de janeiro, Biden frisou que "não há tempo a perder quando se trata da nossa segurança nacional e a política exterior".

"Necessito de uma equipe pronta desde o primeiro dia para me ajudar a recuperar o lugar dos Estados Unidos na cabeceira da mesa, unir o mundo para enfrentar os maiores desafios e promover a nossa segurança, prosperidade e valores", declarou Biden na segunda-feira em um comunicado.

Um reflexo claro da intenção dele em mudar as diretrizes do governo dos Estados Unidos é a nomeação de Mayorkas, o primeiro latino eleito para chefiar o Departamento de Segurança Interna, que Trump usou em sua luta agressiva contra a imigração.

"Está claro que a política de imigração de Biden será muito diferente da de Trump", diz William Galston, especialista em política doméstica da Instituição Brookings, que assessorou o ex-presidente democrata Bill Clinton. "Essa nomeação (de Mayorkas) tem a intenção de ressaltar essa mudança", declara em entrevista à BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Mayorkas chegou nos Estados Unidos ainda bebê, como um refugiado político junto com sua família, após a revolução cubana. Ele cresceu em Miami e Los Angeles, estudou Direito, atuou como promotor federal e trabalhou no governo Obama como chefe dos Serviços de Cidadania e Imigração e como secretário-adjunto de Segurança Interna.

Na gestão Obama, Mayorkas promoveu o programa social conhecido como Daca e destinado a imigrantes não-documentados que chegaram aos EUA ainda na infância. O programa concedeu autorizações de trabalho e proteção contra a deportação de mais de 700 mil jovens durante o governo democrata.

O governo Trump, que endureceu as políticas migratórias (incluindo a separação das crianças de seus pais na fronteira), tentou encerrar o Daca, mas encontrou obstáculos judiciais que o impediram.

Nascido em Cuba, Alejandro Mayorkas se mudou com a família para os Estados Unidos após a revolução cubana - Getty Images - Getty Images
Nascido em Cuba, Alejandro Mayorkas se mudou com a família para os Estados Unidos após a revolução cubana
Imagem: Getty Images

Se Mayorkas for confirmado no cargo pelo Senado, ele vai supervisionar uma política migratória que, segundo antecipou Biden na campanha, buscará reverter ações de Trump, oferecer um caminho para a cidadania a cerca de 11 milhões de imigrantes sem documentos, suspender as deportações e aumentar o limite de admissão de refugiados.

"Quando eu era muito jovem, os Estados Unidos forneceram um local de refúgio para a minha família e para mim. Agora, fui indicado para ser o secretário do DHS (Departamento de Segurança Interna, na sigla em inglês) e supervisionar a proteção de todos os americanos e aqueles que fogem da perseguição em busca de uma vida melhor para eles e seus entes queridos", tuitou Mayorkas na segunda-feira.

"Alter ego de Biden"

Outro anúncio que indica uma mudança substancial na política dos EUA é a nomeação de Blinken como secretário de Estado.

Considerado um promotor de alianças multilaterais e contrário à política "América em primeiro lugar", de Trump, Blinken foi secretário-adjunto de Estado na administração Obama e serviu por quase duas décadas como conselheiro de Biden, tanto na vice-presidência como no Senado.

"(Blinken) compreende totalmente o pensamento do presidente que está chegando e foi descrito em muitos setores como o alter ego de Biden", observa Galston. "Acredito que a sua nomeação visa sinalizar que (...) o secretário de Estado será um importante assessor do presidente, além de um dos principais motores de sua política externa."

Jake Sullivan, Linda Thomas-Greenfield e Antony Blinken figuram entre nomes da equipe de Biden. - Getty Images/Reuters - Getty Images/Reuters
Jake Sullivan, Linda Thomas-Greenfield e Antony Blinken figuram entre nomes da equipe de Biden
Imagem: Getty Images/Reuters

As metas estabelecidas por Biden na campanha incluem restaurar antigas alianças dos EUA que foram relegadas por Trump, como a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), voltar à Organização Mundial de Saúde (OMS), o acordo nuclear com o Irã e o acordo de Paris sobre as mudanças climáticas.

A nomeação de Blinken também precisa ser confirmada pelo Senado, onde a maioria partidária será definida por dois assentos que cabem à Geórgia - eles serão definidos em um segundo turno das eleições naquele Estado em 5 de janeiro.

A escolha de Kerry como o "czar do clima", responsável por liderar ações sobre o tema, também depende da confirmação do Senado.

A nomeação de um ex-secretário de Estado para esse cargo, com assento no conselho de segurança nacional da Casa Branca, é vista como um sinal da importância que Biden pretende atribuir ao combate às mudanças climáticas.

"Você não escolhe alguém como John Kerry se quiser deixar esse problema em segundo plano', explica Galston.

Outra escolha de Biden foi a do assessor de Segurança Nacional, função que caberá a Jake Sullivan, um dos negociadores do acordo nuclear com o Irã em 2015 e que, como Blinken, atuou na vice-presidência de Biden e no Departamento de Estado de Obama.

Outra novidade foi a nomeação de Avril Haines, ex-diretora da Agência Central de Inteligência, a CIA. No passado, ela assessorou Biden na direção da inteligência nacional dos EUA. Se confirmada, ela se tornará a primeira mulher a exercer tal função.

Biden escolheu outra mulher: a afro-americana Linda Thomas-Greenfield, que tem 35 anos de experiência em política externa, foi chamada pelo presidente eleito para ser embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, função que deve ganhar mais destaque no próximo governo.

Uma das expectativas é de que Janet Yellen, ex-presidente do Fed, seja escolhida por Biden para comandar a economia dos EUA - Reuters - Reuters
Uma das expectativas é de que Janet Yellen, ex-presidente do Fed, seja escolhida por Biden para comandar a economia dos EUA
Imagem: Reuters

Já a ex-presidente do Banco Central americano (Fed), Janet Yellen, deverá ser nomeada como secretária do Tesouro, mas a informação ainda não foi confirmada pelo gabinete de Biden.

Caso seja nomeada no cargo e confirmada pelo Senado, ela será a primeira mulher a liderar o Tesouro. Uma de suas principais funções logo no início será enfrentar a crise econômica dos Estados Unidos em meio à pandemia do coronavírus.

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