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Igreja na Polônia encara a tragédia dos abusos sexuais

08/07/2020 09h43

Varsóvia, 8 Jul 2020 (AFP) - A história dos abusos sexuais sofridos por Jakub Pankowiak por um padre local tem abalado a hierarquia católica polonesa e dado força aos pedidos de transparência na poderosa Igreja deste país.

Filho de um organista, Pankowiak lembra que, quando chegou à pequena cidade de Pleszew (oeste), o padre Arkadiusz Hajdasz parecia "gentil, aberto, sorridente".

"Tudo começou com chá e biscoitos (...) até o dia em que ele se sentou ao meu lado e começou a me beijar e acariciar", disse à AFP este músico e professor universitário de 35 anos.

"Isso me deixou sem palavras a ponto de não conseguir reagir. Estava esperando o fim", contou Pankowiak durante uma entrevista por telefone.

O padre abusou centenas de vezes dele, assim como de seu irmão mais novo, Bartlomiej, e de muitos outros.

Os dois irmãos contam sua história em um documentário chamado "Zabawa w chowanego", de Marek e Tomasz Sekielski, visto sete milhões de vezes no YouTube desde seu lançamento em maio.

O assunto continua sendo tabu neste país com fortes raízes católicas, mas, segundo Pankowiak, o vento está mudando e pode abalar a Igreja, como já aconteceu na Irlanda e nos Estados Unidos.

- Vestígios da era comunista -Segundo o documentário, o padre Hajdasz foi transferido de uma paróquia para outra e cometeu atos de pedofilia por 25 anos, presumivelmente tirando proveito da proteção tácita da hierarquia, incluindo do bispo Edward Janiak.

Desde o lançamento do filme, o Vaticano ordenou uma investigação sobre o bispo Janiak e tomou a rara decisão de nomear um administrador para sua diocese.

Mas os defensores das vítimas querem que a Igreja vá mais longe.

Na semana passada, um grupo de católicos poloneses publicou uma carta pessoal ao papa Francisco no jornal italiano La Repubblica, alegando que os bispos poloneses "protegem casos de pedofilia".

"Repare nossa Igreja! Nós imploramos!", pediram na mensagem. O porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que o papa foi informado e rezará pelos autores da mensagem.

"Toda a Igreja deve fazer o possível para garantir que as normas canônicas sejam aplicadas, que casos de abuso sejam divulgados e que os responsáveis por esses crimes graves sejam punidos", disse o porta-voz.

Justyna Zorn, uma das idealizadoras da carta, agradeceu essa resposta rápida.

O grupo de fiéis já havia tentado, em vão, chamar a atenção da Igreja para essa questão através de protestos, petições, cartas particulares ao papa e uma reunião com o embaixador papal.

"Lamentei que a hierarquia não tenha feito nada a respeito. Os bispos pareciam mais preocupados com a boa imagem de sua instituição do que em oferecer apoio às vítimas", disse Zorn à AFP.

Segundo ela, esse estado de espírito é um resquício da era comunista, em que a Igreja Católica era atacada e vigiada pela polícia secreta.

"Os bispos, os padres e até os leigos aprenderam a nunca revelar os assuntos internos da Igreja, a fechar fileiras para que o que acontece na igreja permanecesse dentro. Esse modo de pensar persiste até hoje", disse.

- Mal tolerado -A Igreja Católica polonesa começa gradualmente a admitir seus erros e a tomar as medidas esperadas.

O arcebispo Wojciech Polak, nomeado representante da proteção infantil no ano passado, pediu uma investigação sobre o bispo Janiak.

Em uma rara demonstração das divisões internas na hierarquia católica, o arcebispo Janiak reagiu em uma carta aos bispos, revelada à mídia polonesa, na qual acusou o arcebispo Polak de "prejudicar a imagem da Igreja".

Segundo o padre Piotr Studnicki, do Departamento de Proteção à Criança, "pelo menos dez outros bispos poloneses foram denunciados por negligência".

No ano passado, a Igreja polonesa admitiu que quase 400 clérigos haviam abusado sexualmente de crianças nas últimas três décadas.

Após o trabalho de Sekielski, muitas outras vítimas se apresentaram, admitiu o padre Studnicki à AFP, dizendo que o número de padres acusados "pelo menos dobrou" desde então.

"Ou adotamos uma abordagem honesta (...) ou simplesmente nos destruirá", alertou, "não porque o problema é apresentado publicamente, mas porque o mal é tolerado em nossa comunidade".

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