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"Balé e ópera com distanciamento social é impossível"

Yuri Resheto (av)

30/05/2020 15h03

"Balé e ópera com distanciamento social é impossível" - Diretor do tradicional Teatro Bolshoi de Moscou, Vladimir Urin, fala à DW sobre os efeitos da pandemia: da sobrevivência financeira à carga psicológica para os artistas e uma nova política de cachês e ingressos.Vladimir Georgievich Urin conta entre as figuras mais influentes da cena cultural russa. Ele assumiu a direção do Teatro Bolshoi de Moscou em 2013, após uma série de escândalos dentro da renomada instituição, próxima ao Kremlin não só no sentido geográfico.

Em entrevista à DW, o veterano teatral de 73 anos fala dos desafios inéditos – financeiros, psicológicos, artísticos – que a pandemia de covid-19 atualmente apresenta à casa de ópera e balé e seu diretor-geral. E sobre o futuro do Bolshoi após o retorno à normalidade, possivelmente com uma nova política de cachês e preços de ingresso: "Nossos espectadores vão sentir uma barreira psicológica, o medo de se contagiar, e sua situação econômica pessoal vai ter mudado. Se não levarmos isso em consideração, vamos sair perdendo."



DW: Começando pela segurança: quando o Teatro Bolshoi reabrir um dia, como pretende garantir, na plateia e no palco, os dois metros de distância interpessoal exigidos na Rússia?

Vladimir Urin: Vamos começar por aqueles sem os quais nossos espectadores sequer irão ao teatro: os artistas. Como diretor teatral, é neles em que eu penso, em primeiro lugar. Enquanto numa apresentação teatral há de 10 a 12 atores no palco, numa casa de ópera e balé só no fosso de orquestra já são pelo menos 80 pessoas. Elas não têm como guardar distância, é claro; infelizmente isso é totalmente impossível num teatro musical, com seus "coletivos de massa", como orquestra, coro, figurantes. No máximo se pode medir a temperatura dos funcionários. No entanto é impensável um corista de máscara – da mesma forma que um instrumentista de sopro. Também os bailarinos têm que se tocar mutuamente no palco, não há como deixar de ser.

Com todas as letras: um teatro de música e dança só pode reabrir quando todas essas medidas de precaução tiverem sido suspensas, pelo menos em relação aos artistas. Quando isso acontecer, não vamos mais ter que manter a distância de segurança entre nossos espectadores na plateia, ou deixar sempre um assento livre.

Alguns colegas seus sugerem arranjar as peças musicais de forma a serem menos "contagiosas". Talvez se possa, por exemplo, substituir os instrumentos de sopro, que produzem grandes nuvens de aerossol, por outros, menos perigosos?

Isso são fantasias, é claro, que não têm a menor relação com a nossa realidade. Por isso resolvi dar férias a todos, a partir de já. Para os artistas, são 56 dias corridos, o coletivo só volta ao trabalho no fim de julho. Espero ardentemente que a situação se esclareça melhor nesses dois meses e meio. Só aí podemos pensar em começar os ensaios. Pois sem ensaios, nada anda no teatro.



De quanto tempo precisam para voltar à forma os seus bailarinos, por exemplo?

Se pensarmos nessa longa pausa desde março, precisam de muito tempo. Mesmo considerando que nossos dançarinos continuaram treinando em casa por todo esse período, eles vão precisar de no mínimo quatro semanas até poder voltar a dançar o repertório do Bolshoi. Então estamos pensando em meados de setembro, não antes.

Como dançarinos de balé mantêm a forma?

Eles treinam na barra todo dia. Estou informado, porque eles postam seus vídeos, também mantemos contato. Mais ainda: entregamos pisos de linóleo na casa de cada bailarino, para substituir o chão da sala de ensaios. Músicos de orquestra, solistas e cantores do coro precisam de um pouco menos tempo.

Para seus colegas poderem continuar trabalhando, eles precisam de dinheiro. Só que as casas de ópera são a forma de arte mais cara que existe. Não estão sendo vendidos ingressos, não há faturamento, como sobrevivem?

Mais de 60% do orçamento do Bolshoi são subvenções estatais, o resto vem de nossas vendas e de doações. Até agora foram mantidas todas as doações e subvenções, apesar de não estarmos trabalhando. Além disso, há pouco o governo liberou verbas adicionais para apoiar o Bolshoi e o [museu de arte] Eremitage de São Petersburgo, já que as duas casas dispõem de uma parte exclusiva do orçamento do Estado, a fim de podermos pagar integralmente o salário dos nossos funcionários, com cortes realmente mínimos.



O senhor está considerando reduzir os cachês das estrelas?

Está se referindo, seguramente, aos astros internacionais. Esse tema ocupa atualmente não só a mim, mas também os diretores das grandes casas de todo o mundo. Estou quase cem por cento seguro de que a situação econômica vai resultar na redução desses cachês. Sem dúvida alguma.

Aí talvez os ingressos fiquem mais baratos?

Também nesse ponto tenho certeza que isso vai vir. Primeiramente, porque os nossos espectadores vão sentir uma barreira psicológica, vão ter medo de se contagiar no teatro, na sala de concertos ou no cinema. Em segundo lugar, sua situação econômica pessoal também vai ter mudado. Se não levarmos isso em consideração, enquanto diretores de teatro, vamos sair perdendo.

Falemos de novo dos artistas: eles são acostumados a ficar como em família no teatro, e lá passar muito tempo juntos. Quão dura é essa pausa forçada para a psique deles?

Todos sonham em voltar para o teatro. Eu compreendo isso bem, pois a vida de palco de um artista é breve – para os bailarinos, até muito breve.

Aposentadoria aos 35 anos?

Para os solistas, sim, talvez aos 37. Os do corpo de baile se aposentam aos 40. Quer dizer: apenas 20 anos de palco, esse é o destino dos dançarinos. E aí, meio ano simplesmente cancelado é mesmo um tempo enorme.

O Bolshoi é uma casa de renome internacional, solistas e diretores de todo o mundo são contratados para as suas produções. Como está seu planejamento?

Planejamos com três a quatro anos de antecedência. Agora, é claro, todas as programações vão ter que ser corrigidas, pois não pudemos realizar toda uma série de produções, muitas das quais com participação de artistas estrangeiros. Portanto vamos reformular nossos planos, para colocar em cena sobretudo as estreias com artistas russos.

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Autor: Yuri Resheto (av)

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