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Metodologia leva das ruas à moradia própria

Lisa Hänel (ca)

08/12/2019 09h02

Quase 680 mil pessoas não possuem moradia na Alemanha. Elas dormem na rua ou em abrigos. Muitos sonham com um teto sobre suas cabeças. Metodologia americana de "Housing First" procura tornar isso possível.André Kurkowiak diz estar particularmente orgulhoso de seu banheiro. Ducha, rádio integrado, lavatório espaçoso: um mobiliário que parecia inacessível apenas cinco anos atrás. Dependente de heroína, ele ocupava na época uma pequena cela na penitenciária. No total, ele passou dez anos nas ruas, em abrigos e na prisão.

Nos últimos três anos, ele tem chamado de seus os 34 metros quadrados de seu apartamento. Sem janelas gradeadas, mas com contrato de aluguel e chave própria. Isso foi possibilitado pela organização fiftyfifty de Düsseldorf. Há cerca de quatro anos, ela vem adotando uma metodologia de assistência aos sem-teto que se autodenomina "Housing first" (habitação em primeiro lugar).

A ideia é simples: os sem-teto recebem suas próprias quatro paredes sem pré-requisitos – mesmo que sejam viciados em drogas ou doentes mentais. A intenção por trás disso: num ambiente estável, problemas, como um vício, são mais fáceis de resolver. Além disso: após a mudança, os novos inquilinos não são forçados a participar de ofertas adicionais de ajuda. Tudo acontece de forma voluntária, incluindo a assistência posterior.

"Também defendemos uma mudança de paradigma na assistência habitacional", diz Julia von Lindern, assistente social e responsável por "Housing First" na organização fiftyfifty. "É uma questão de atitude, se assumimos que alguém deve primeiro estar capacitado a habitar uma residência antes de poder se mudar. Pensamos que se aprende melhor a conduzir um domicílio, conduzindo um domicílio".

Os números apoiam a abordagem: em vários estudos, registrou-se uma alta quota de êxito do programa, ou seja, de retenção dos participantes em seus domicílios, com porcentagens entre 75% e 90%. Isso também é confirmado na organização fiftyfifty: das 62 pessoas que se beneficiaram do programa até agora, apenas quatro retornaram às ruas.

Confiança como base

Em Düsseldorf, uma equipe de seis funcionários cuida dos desabrigados desde o primeiro contato até a mudança. "Acompanhamos as pessoas do saco de dormir até o domicílio próprio", diz Von Lindern. Isso cria confiança. E é essencial para a metodologia "Housing First", explica Nora Sellner, pesquisadora do Departamento de Bem-Estar Social da Universidade Católica da Renânia do Norte-Vestfália.

Segundo Sellner, a metodologia prevê que "equipes multiprofissionais vão até as pessoas e lhes ofereçam um mínimo de assistência". Essa equipe multiprofissional pode incluir uma assistente social, um psiquiatra e um médico.

Apesar de seu próprio apartamento, André Kurkowiak vai todos os dias ao café comunitário da fiftyfifty. Ele ganhou confiança, conhece os funcionários e outros ex-moradores de rua: "Estou muito feliz no meu apartamento, mas às vezes me sinto sozinho".

Segundo Julia von Lindern, a depressão é de fato um problema que pode ocorrer no domicílio próprio. Nem todos os problemas são resolvidos somente porque as pessoas têm seu próprio apartamento, diz Von Lindern, apontando que alguns continuam viciados em drogas ou alcoólatras.

Devido ao seu vício, também André Kurkowiak vai ao médico todos os dias para tomar metadona, produto substituto da heroína. Ele também diz beber álcool regularmente. Kurkowiak explica que não deve se livrar disso nessa vida. "É por isso que as pessoas não perdem o apartamento", diz Von Lindern. "Se eles nos falam modestamente que voltaram a beber, dizemos: isso acontece. E como vamos resolver isso?"

Da origem à estratégia nacional

Originalmente, a metodologia foi desenvolvida em Nova York e tinha um grupo-alvo claro: pessoas que já estavam nas ruas há muito tempo, com doenças mentais e problemas de dependência. Atualmente, a abordagem não só foi seguida de forma modificada nos EUA, mas também se estabeleceu em vários países europeus. A Finlândia chegou a declará-la estratégia nacional – e foi o único país-membro da União Europeia a reduzir o número de pessoas sem-teto.

Se isso se deve unicamente ao "Housing First", não se pode dizer claramente, aponta Nora Sellner. "Mas o que se pode dizer é que a Finlândia tem uma estratégia clara que está sendo e deverá ser implementada em todo o país. Eles assumem essa atitude da metodologia 'Housing First', de que todo ser humano tem direito a uma moradia, e isso também chegou à política. Trata-se de algo que ainda precisamos alcançar aqui na Alemanha."

Mercado imobiliário competitivo

Na Alemanha, a abordagem "Housing First" é adotada apenas timidamente na assistência aos sem-teto. Düsseldorf e Berlim avançam com seus próprios projetos. Mas também cidades como Colônia, Bremen e Hannover estão seguindo o exemplo. O maior obstáculo é sempre o mercado imobiliário competitivo, especialmente nas metrópoles.

Pois, segundo a metodologia "Housing First", os sem-teto devem morar em seus próprios apartamentos como inquilinos independentes. Isso também significa que é preciso encontrar proprietários dispostos a alugar moradias para ex-moradores de rua.

Em Düsseldorf, a associação fiftyfifty age de forma diferente. Com a ajuda de doações e a venda de obras de arte, a organização compra os próprios apartamentos. Eles se tornam proprietários e assim também senhorios.

A maioria dos apartamentos comprados pela organização fiftyfifty estão localizados fora dos centros urbanos. "Assumimos o compromisso de não gastar mais que 3 mil euros por metro quadrado", diz Julia von Lindern. "Assim se torna muito difícil comprar algo no centro da cidade."

Em média, a organização gasta entre 70 mil e 90 mil euros na compra de um apartamento. Isso é muito, diz Julia von Lindern, mas no geral sai ainda mais barato que a ajuda habitacional clássica, no qual 18 meses de moradia assistida pode custar por pessoa cerca de 250 mil euros.

André Kurkowiak teve sorte: seu apartamento está localizado no centro da cidade de Düsseldorf, a menos de 15 minutos da estação ferroviária central. "Posso fazer o que quiser. Posso ir a qualquer lugar de bonde, há supermercados na esquina. E desde que moro aqui, sinto realmente que estou vivendo", diz Kurkowiak, ressaltando que nos três anos que mora ali, ele nunca pensou em voltar para as ruas.

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Autor: Lisa Hänel (ca)

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