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Impeachment de Trump: por que depoimento de embaixador é o mais comprometedor até agora

"Havia uma orientação expressa do presidente", disse Sondland diante do Congresso - Reuters
'Havia uma orientação expressa do presidente', disse Sondland diante do Congresso Imagem: Reuters

Mariana Sanches - @mariana_sanches - Da BBC News Brasil em Washington

20/11/2019 17h43

Gordon Sondland implicou Trump e o alto escalão do governo na suspeita de corrupção com a Ucrânia, mas ao longo do depoimento foi suavizando as próprias palavras e diminuiu o potencial de estragos.

No mais comprometedor depoimento dado em público no processo de impeachment contra o presidente americano Donald Trump, o embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland, afirmou na quarta-feira (20/11) aos parlamentares que pressionou a Ucrânia por investigações contra o democrata Joe Biden e seu filho Hunter, por ordem do presidente.

"Havia uma orientação expressa do presidente", disse Sondland, para que ele trabalhasse junto ao advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, e seguisse as ordens de Giuliani na empreitada.

Ainda de acordo com Sondland, Giuliani determinou que, em troca de auxílio militar, os ucranianos deveriam anunciar uma investigação contra opositores de Trump. "O senhor Giuliani estava expressando os desejos do presidente dos Estados Unidos", disse o embaixador.

Sondland disse ainda que tanto o vice-presidente, Mike Pence, quanto o secretário de Estado, Mike Pompeo, estavam cientes de que a liberação de uma ajuda militar ao país estaria condicionada à atuação da Ucrânia contra Biden e a uma investigação sobre possível auxílio de agentes ucranianos aos democratas na eleição de 2016.

É a primeira vez que essas figuras de alto escalão da gestão republicana são implicadas diretamente no escândalo. "Todo mundo estava no circuito. Não era segredo para ninguém", disse Sondland, que também afirmou que foi cumprimentado por Pompeo pelo "grande trabalho" que vinha fazendo na relação com a Ucrânia.

O embaixador admitiu que havia "um claro quid pro quo" em marcha. Ou seja, Trump condicionava uma visita do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, à Casa Branca ao anúncio público pelos ucranianos da investigação contra Biden.

Sondland, no entanto, disse não se lembrar de ter ouvido diretamente de Trump que o auxílio militar estaria conectado ao anúncio público de investigações, mas afirmou que presumiu ser esse o caso e agiu a partir dessa presunção, sem encontrar qualquer objeção das demais autoridades americanas.

Ao dizer que respondia às ordens de Trump por meio de Giuliani, Sondland enfraquece a tese republicana de que o advogado do presidente agia por conta própria, como um "freelancer", e não como um operador da política externa dos Estados Unidos.

O que democratas e republicanos fizeram com as palavras de Sondland?

Além de seu conteúdo, que coloca o presidente Trump e seus auxiliares como artífices de uma troca de dinheiro do contribuinte americano por uma investigação que beneficiaria pessoalmente o republicano, o testemunho de Sondland é poderoso por duas razões: primeiro, porque ele seria uma testemunha qualificada, uma fonte primária dos acontecimentos, diferentemente de outras testemunhas já ouvidas, como a embaixadora Marie Yovanovitch, que serviu na Ucrânia e foi retirada do posto por Trump antes que a negociação com os ucranianos acontecesse.

Segundo, porque ele é historicamente ligado aos republicanos, doou US$1 milhão para a festa de posse de Trump e, empresário do ramo de hotelaria no Estado do Oregon, acabou agraciado pelo presidente com o posto de embaixador, o qual ele afirma sempre ter desejado.

Diante da admissão de um quid pro quo por Sondland, os democratas tentaram fazê-lo qualificar a conduta do presidente como corrupta, algo que o embaixador se recusou a fazer dizendo não ser "advogado para caracterizar condutas".

Desde que os testemunhos públicos começaram, na última semana, opositores de Trump têm tentado mudar o léxico do escândalo, caracterizando como "corrupção", "propina" e "extorsão" a conduta do governo Trump em relação aos ucranianos.

A estratégia é dupla: tornar as denúncias contra o presidente mais compreensíveis ao grande público, que pode estar diante da TV assistindo ao vivo aos depoimentos, e classificar as ações de Trump dentro do escopo dos crimes de responsabilidade previstos pela Constituição americana para cassar um mandato presidencial.

Os republicanos questionaram a veracidade das palavras de Sondland e argumentaram que ele presumiu erradamente ter recebido ordens que jamais foram dadas.

"Ninguém na face da Terra te falou que o presidente condicionava o auxílio militar à investigação, falou?", questionou o deputado republicano Mike Turner, ao que Sondland assentiu. Aliados de Trump desqualificaram a falta de confiabilidade do embaixador, que não dispunha de notas sobre seu próprio trabalho e disse várias vezes não se lembrar direito das circunstâncias de suas ações.

Lembraram ainda que a ajuda militar acabou liberada sem que o governo da Ucrânia fizesse qualquer anúncio de investigação contra Biden, o que derrubaria a narrativa de um quid pro quo. E rememoraram uma troca de mensagens entre Sondland e Trump, na qual o mandatário afirmou que "não queria nada da Ucrânia, nenhum quid pro quo".

Qual o impacto do depoimento de Sondland no processo?

Embora tenha começado sua fala de maneira bombástica, o embaixador foi moderando o discurso ao longo das horas de depoimento e retirando o peso de suas próprias palavras.

"Sondland se tornou um saco de pancadas para democratas e republicanos. Seu testemunho foi exagerado e, nesse contexto, é um revés para os democratas", afirma Michael Cornfield, cientista-político da George Washington University.

De acordo com um membro da equipe de comunicação do Partido Republicano, os democratas tentaram converter as palavras de Sondland em um "momento ahá!", uma janela de oportunidade capaz de retirar sustentação política de Trump.

"Mas não foi exatamente isso o que vimos. Eu ainda não acho que exista muita gente prestando muita atenção nisso, para além da elite política de Washington D.C., e por enquanto não está claro quem ganha com a opinião pública", afirma o assessor.

Ao abraçar os testemunhos públicos sobre o caso da Ucrânia, democratas têm tentando convencer a opinião pública de que, se não deve ser apeado do cargo, Trump ao menos não merece ser reconduzido pelo voto na eleição de 2020. O possível julgamento de um impeachment seria feito pelo Senado, casa em que Trump conta com a maioria dos votos. Por isso, é improvável que ele caia.

"O efeito potencial em atrapalhar a candidatura republicana pode ser o resultado mais significativo do esforço do impedimento", afirma o cientista político de Princeton Keith Whittington.

"É até possível que esses testemunhos convençam eleitores republicanos e levem senadores do partido a apoiar o impeachment contra seu próprio presidente, mas isso é ainda muito improvável", diz Whittington.

Diferentemente do que ocorreu com os presidentes Richard Nixon e Bill Clinton, que também enfrentaram processos de impeachment, especialistas em comportamento eleitoral afirmam que há muito menos volatilidade entre os eleitores hoje, o que implica que, por mais poderosas que possam ter sido as palavras de Sondland, o poder de convencimento delas sobre os eleitores é limitado.

Pesquisas de opinião mostram que enquanto quase 70% dos eleitores democratas apoiam o impeachment de Trump, apenas 6% dos republicanos desejam o mesmo.

"Ainda é muito cedo para avaliar o impacto desse depoimento, mas a maioria dos eleitores já se decidiu definitivamente sobre o que vai fazer. Temos uma sociedade muito mais polarizada do que tínhamos nos anos 1970 ou 1990 e isso impede que as pessoas mudem de ideia. Acredito que o processo pode desencorajar pessoas que votaram antes em Trump de ir novamente votar, mas não acredito que vá mudar preferências", afirma Cornfield.


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