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Medo do coronavírus toma conta da Itália

Bernd Riegert (de Milão)

26/02/2020 16h16

Medo do coronavírus toma conta da Itália - Casos crescentes de Covid-19 fazem Milão amanhecer vazia. Medidas drásticas tomadas pelas autoridades italianas para conter o surto já afetam metade da população do país. Mas para alguns moradores, reação é exagerada.As medidas drásticas tomadas pelas autoridades italianas para restringir o movimento e as viagens no norte da Itália estão afetando quase 30 milhões de pessoas – metade de toda a população do país.

Não apenas nas "zonas vermelhas", áreas colocadas em quarentena nas regiões da Lombardia e do Vêneto, mas em todo o norte italiano 5.500 escolas foram fechadas por uma semana. As universidades também suspenderam suas atividades.

Repartições públicas, algumas fábricas, bares e restaurantes deram folga forçada a seus funcionários. Competições esportivas e festejos do Carnaval foram cancelados. O tráfego ferroviário entre Milão e Placência foi suspenso temporariamente.

Também em Milão, a segunda maior cidade e centro econômico do país, muitas pessoas preocupadas estão atendendo ao chamado do governo para, se possível, ficar em casa. O centro da cidade está muito mais vazio do que o normal. O metrô e os ônibus levam poucos passageiros. Há vagas nos estacionamentos – uma raridade. Na praça em frente à Catedral de Milão, que continua fechada para turistas, estima-se que haja mais pombos do que visitantes.

"Em tempos normais, isto aqui está cheio de gente", conta Sergio, um estudante de Milão que está de férias forçadas. Usando uma máscara de proteção, ele tira selfies em frente à famosa catedral gótica. "São para os meus amigos."

Para poder falar melhor, Sergio puxa a máscara para cima, afirmando que ela também coça. Um pouco preocupado com o coronavírus, ele diz ter ouvido falar que a máscara oferece proteção.



Aumento exponencial de casos

Sergio disse estar surpreso principalmente com a rapidez com que o número de infecções pelo novo coronavírus aumentou. Nesta quarta-feira (26/02), já eram 400 em todo o país, 100 a mais do que no dia anterior.

O chefe da Defesa Civil italiana, Angelo Borrelli, afirmou em entrevista coletiva que, dados os números, não se pode realmente falar de uma epidemia. Ele advertiu contra a disseminação de pânico, mas recomendou cautela.

Segundo Borrelli, as cifras relativamente altas também se devem a melhores métodos de teste. As autoridades estariam com a situação sob controle, prometeu Borrelli na TV.

Briga entre norte e sul

Nesse meio-tempo, soube-se do primeiro caso de Covid-19 no sul da Itália. Em Palermo, foi identificado um paciente que havia viajado da Lombardia para a Sicília. Os governos regionais do sul criticam essa disseminação do vírus e exigem restrições de viagem para os italianos do norte.

A região sul de Basilicata, por exemplo, pretende colocar em quarentena todos os estudantes do norte da Itália que estudam ali. A ilha de Ischia vetou temporariamente o acesso para turistas da Lombardia e do Vêneto, regiões onde foi registrada a maior parte das infecções por coronavírus.

Muitas administrações regionais acusam o governo central do primeiro-ministro Giuseppe Conte de fazer muito pouco e causar caos. Conte rebateu as acusações e alertou para uma divisão no país entre o norte contaminado e o sul limpo.

Até agora, o primeiro-ministro também se recusou a fechar as fronteiras para França ou Áustria, algo que os populistas de direita haviam pedido.

Ameaça de recessão?

As medidas para conter as infecções podem ainda continuar por semanas, prenunciaram representantes do governo central em Roma. Isso seria um duro fardo para a economia italiana, diz o economista Lorenzo Codogno na metrópole econômica de Milão.

As estimativas iniciais sugerem que o rendimento econômico pode diminuir de 0,5% a 1% nos primeiros quatro meses do ano. A Itália pode entrar em recessão e ter que contrair mais dívidas.

A associação hoteleira do Vêneto já está advertindo que muitos viajantes da Ásia deverão cancelar suas reservas. Mas muitos outros países emitiram advertências de viagem para o norte da Itália. "Isso é um desastre, especialmente para Veneza. Primeiro a enchente em dezembro e agora o coronavírus", disse um porta-voz da associação de hotéis.



"Nós não temos medo"

Essas más notícias irritam a italiana Annalisa e seu parceiro Rino. Eles vieram à Catedral de Milão para dar uma olhada na praça raramente vazia de sua cidade natal. "É tudo tão desnecessário!", reclama a milanesa. "Não temos medo. Covid-19 não é pior que a gripe normal. E milhares morrem dela", diz a professora, que está de licença até a próxima semana devido ao fechamento de sua escola.

Rino, um ex-policial, sorri e diz à reportagem da DW: "Isso é puro alarmismo, especialmente por parte do governo e da mídia, incluindo vocês." Se isso continuar, a economia sofrerá muito, suspeita Annalisa, que junto a seu parceiro faz desafiadoramente o "sinal de vitória".

A professora acha muito estranho ver algumas pessoas usando máscara de proteção na praça. "Há talvez dez pacientes com Covid-19 em toda Milão. Como vou encontrá-los aqui na praça?", indaga. "Nós não vamos deixar isso nos abalar!"

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Autor: Bernd Riegert (de Milão)

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