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Locais com mais queimadas também tiveram mais desmatamento, diz estudo

André Shalders - @andreshalders - Da BBC News Brasil em São Paulo

22/08/2019 22h20

Instituto de pesquisa cruzou dados do Imazon e da Nasa e concluiu que os dez municípios amazônicos com mais desmatamento também são os dez com mais focos. Dados contrariam tese de incêndios naturais.

Uma nota técnica de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e da Universidade Federal do Acre mostra que o recente aumento no número de queimadas na Amazônia está diretamente relacionado ao desmatamento. Os dez municípios da região com mais alertas de desmatamento são também os que mais registraram focos de incêndio neste ano.

A correlação entre desmatamento e queimadas contraria o argumento de que os focos de incêndio deste ano seriam algo natural - decorrente apenas do período de estiagem no Norte do país.

A nota técnica também afirma que não é possível atribuir o aumento no número de focos de incêndio ao período seco: na verdade, a estiagem deste ano está mais branda na região do que em anos anteriores, quando o número de focos de incêndio foi menor.

"Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento. Estes municípios são responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho. Esta concentração de incêndios florestais em áreas recém-desmatadas e com estiagem branda representa um forte indicativo do caráter intencional dos incêndios: limpeza de áreas recém-desmatadas", diz o texto.

Os municípios listados pelos pesquisadores, por ordem dos focos de incêndio, são: Apuí (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO), Caracaraí (RR), São Félix do Xingu (PA), Novo Progresso (PA), Lábrea (AM), Colniza (MT), Novo Aripuanã (AM) e Itaituba (PA).

O Ipam é uma organização não governamental (ONG), baseada em Brasília. Os autores do estudo são os pesquisadores Divino Silvério, Ane Alencar e Paulo Moutinho (Ipam) e Sonaira Silva (Universidade Federal do Acre).

Os pesquisadores se basearam em três fontes de dados independentes.

As informações sobre desmatamento são do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD), do instituto Imazon; os dados sobre queimadas (ou "focos de calor", no jargão técnico) são do satélite AQUA (um equipamento da Angência Espacial Norte-Americana, a Nasa, que é considerado o satélite de referência pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe); e o número de dias consecutivos sem chuva é da base de dados CHIRPS, desenvolvida por cientistas do Serviço Geológico dos EUA (USGS) e da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

O levantamento considerou os dados de desmatamento entre janeiro e julho de 2019 e os focos de incêndio registrados desde o começo do ano até o dia 14 de agosto. Em alguns municípios do Pará que estão na lista, como Novo Progresso, agricultores teriam realizado no dia 10 deste mês, de acordo com a imprensa local, um "dia do fogo", como forma de protesto e para limpar áreas de pastagem.

"A Amazônia está queimando mais em 2019, e o período seco, por si só, não explica este aumento. O número de focos de incêndios, para a maioria dos Estados da região, já é o maior dos últimos quatro anos. É um índice impressionante, pois a estiagem deste ano está mais branda do que aquelas observada nos anos anteriores. Até 14 de agosto, eram 32.728 focos registrados, número cerca de 60% superior à média dos três anos anteriores para o mesmo período", diz o estudo.

Em sua tradicional transmissão ao vivo no Facebook, no começo da noite desta quinta-feira (22), Bolsonaro reconheceu que o desmatamento na Amazônia está aumentando e disse que está trabalhando para conter "este crime que estão cometendo com a nossa Amazônia, as queimadas". O presidente, no entanto, insistiu que incêndios florestais são comuns no mundo.

"Pega-se fogo. É comum. Na Califórnia. Acontece, e daí. Aqui (no Brasil) tem o viés criminoso? Tem. Sei que tem. Quem é que pratica isso? Não sei. Os próprios fazendeiros, ONGs, seja lá o que for, índios. Então existe esse interesse (de outros países) de dizer que nós não somos responsáveis, e quem sabe, mais cedo ou mais tarde alguém decrete uma intervenção na região amazônica", disse.

Ontem, pelo Twitter, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atribuiu o aumento dos incêndios ao clima. "Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o país", disse.

https://twitter.com/rsallesmma/status/1163990341361553415

Segundo o pesquisador Luís Fernando Guedes Pinto, do instituto Imaflora, as informações já existentes sobre as queimadas mostram que elas fazem parte de um processo de disputa das terras da região amazônica.

"Esse fogo é parte de uma questão de disputa de terras. É um movimento para limpar e ocupar as áreas, e não para aumentar a produção. O objetivo é ocupar, na expectativa de que as terras serão regularizadas depois", diz ele.

Luís Fernando diz que declarações anteriores de governantes - como o próprio Jair Bolsonaro e o governador do Acre, Gladson Cameli (PP) - podem ter sinalizado para agricultores e grileiros uma diminuição nas punições para quem destrói. Para ele, as duas coisas estão relacionadas.

"Esses incêndios foram construídos num ambiente no qual o governo federal e governantes estaduais disseram que não haveria fiscalização e nem punição", diz.

Correlação era esperada, diz climatologista

Segundo o climatologista Carlos Nobre, a correlação entre desmatamento e queimadas já era esperada: geralmente, quem quer "limpar" um trecho de floresta costuma primeiro derrubar a mata e, após alguns meses, atear fogo ao local.

"A dinâmica é a seguinte: derrubar a floresta, esperar alguns meses para ela secar, e aí atear fogo. Se você tentar botar fogo no dia seguinte, não vai queimar, pois a vegetação estará molhada", diz. "Espera-se uns dois meses, e aí põe fogo. E sempre, em todos os anos, agosto e setembro são os meses com o maior número de queimadas", diz ele à BBC News Brasil.

"Como nesse ano todos os indicadores, do SAD (do Imazon), do Deter (de alertas de desmatamento) do Inpe, foram de aumento do desmatamento, era de se esperar o aumento da queimada", afirma ele, que concluiu o doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês).

Nobre ressalta que o dado final sobre desmatamento é o obtido por meio do sistema Prodes, do Inpe, que só deve ser divulgado em outubro. Mas as bases de dados usadas pela nota técnica do Ipam "estão entre os melhores do mundo" no que se propõe a medir - queimadas e alertas de desmatamento -, diz o climatologista.

Nobre diz ainda que colunas de fumaça do tamanho das observadas nos últimos dias não podem ser resultado do fogo em pastos, por exemplo - a quantidade maior de biomassa num trecho de floresta derrubada é o que explica o fenômeno.

"As plumas de fumaça que tá todo mundo vendo, na verdade são as matas (que foram derrubadas meses atrás) queimando. A matéria orgânica queima, e isso gera as imensas nuvens de fumaça", diz.

"O pasto, por exemplo, tem 6 toneladas de matéria vegetal seca por hectare. A floresta derrubada na amazônia tem entre 200 e 250 toneladas de matéria vegetal seca por hectare. É uma quantidade muito maior. E aí você imagina a quantidade de fumaça", diz ele.


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