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Luiz Gomes: 'Craque ou celebridade?'

05/03/2019 08h55

Neymar - um campeão de polêmicas e alvo preferencial dos facestupidos e dos instadesocupados - voltou a ser triturado nas redes sociais este fim de semana, depois de ser flagrado num camarote do Carnaval de Salvador. A imagem do camisa 10 e capitão de Tite agachando até o chão na passagem de um dos blocos do circuito baiano viralizou pelo mundo e despertou uma nova enxurrada de críticas e, acima de tudo, dúvidas e questionamentos sobre a dimensão da contusão no pé direito e sobre a recuperação do jogador.

Neymar esteve no Brasil autorizado pelo PSG. Todos os dias exercitou-se na sua academia particular, na casa de praia de Mangaratiba, cumprindo à risca o cronograma estabelecido por médicos, fisioterapeutas e preparadores do clube francês. No meio da semana passada, postou fotos em que definitivamente abandonava as muletas que, em alguns momentos, ainda o acompanhavam para evitar a sobrecarga do osso fraturado. Nesta quarta, deve estar nas tribunas do Parc des Princes para a partida em que os parisienses jogam seu futuro na Champions League contra o Manchester United, depois de vencerem por 2 a 0 na Inglaterra. Sem ele em campo.

Para um jogador que sonha em se tornar o melhor do mundo - e que no ano passado foi excluído de todas as listas de premiações e das seleções dos melhores da Europa -, é duro, pela segunda temporada seguida, ficar de fora do momento mais importante da temporada de seu time no mais importante torneio de futebol interclubes do planeta. Não há como não acreditar que seu esforço para recuperar a forma e voltar logo aos campos não seja real. Tão pouco que o choro ao receber o diagnóstico dos médicos, há 40 dias, não tenha sido sincero, como alguns chegam a questionar nas baboseiras que se repetem na internet.

Mas sinceridade não basta.

O que pauta o mundo hoje em dia - lamentavelmente, inclusive parte da imprensa, da mídia tradicional - são as redes sociais. Este é o espaço onde a dor de um avô que perdeu o neto vira chacota ou motivo de comemoração para alguns e em que alguém é capaz de inventar um falso bloco carnavalesco infantil e levar 3 mil crianças a amanhecer num domingo de Carnaval no Ibirapuera talvez apenas pelo prazer de se divertir com o choro e a frustração dos pequeninos. Este é o espaço, enfim, para construir e destruir reputações à sombra do anonimato e protegidos pela tela e o teclado.

Como agir diante de um mundo como esse? Para nós, reles mortais, já é uma tarefa difícil. Para quem leva nas costas o peso da fama, como Neymar, todo cuidado é pouco.

Neymar tem todo o direito de passar o Carnaval onde bem entender - desde que de acordo com quem lhe paga o farto salário. Não é consistente achar que um movimento ou outro como a agachadura carnavalesca baiana vá comprometer seu tratamento ou adiar sua volta aos gramados. Isso são os fatos. Mas as versões vão muito além disso.

Neymar não pode, definitivamente, ser considerado uma vítima inocente das redes sociais. Desde os tempos do Santos ele próprio alimenta seus canais digitais com bate-bocas, ostentação, uma exposição desmedida de sua vida privada. Tem um séquito de "parças" sempre prontos a sair em sua defesa. Como diz o velho ditado, quem com ferro fere, com ferro será ferido. E uma evidência disso é que o apelo de Neymar pai, que no domingo pediu que deixassem o filho em paz ao menos no Carnaval, só contribuiu para aumentar a ira dos comentários contra ele.

O bombardeio provocado pela cena de Salvador não será certamente o último. Mas já passou da hora de Neymar decidir como quer ser visto, como quer passar à história do futebol. Mais do que as pernas das entradas duras dos adversários em campo o que ele precisa proteger, mais do que nunca, é a sua imagem. Isso, se realmente estiver disposto a ser reconhecido pelo mundo como o craque que é e não, simplesmente, pela celebridade cibernética que insiste ser.

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