Carnaval 2018

Carnaval 2018

Sambistas paulistanos conquistam espaço nas escolas de samba cariocas

Leo Cordeio/Divulgação
Casal da Portela é formado pela carioca Lucinha Nobre e o paulistano Marlon Lamar Imagem: Leo Cordeio/Divulgação

Anderson Baltar

Colaboração para o UOL, no Rio

24/01/2018 04h00

Já estão longe os tempos em que Vinicius de Moraes, com uma dose de malícia, afirmava que São Paulo era o túmulo do samba. Com um desfile que cresceu em importância, profissionalismo e visibilidade da mídia, os bambas da “Terra da Garoa” não estão mais satisfeitos em brilhar somente no Anhembi. Neste Carnaval, pela primeira vez, postos estratégicos em grandes escolas de samba cariocas são ocupados por profissionais que fizeram do desfile paulistano sua base. Enquanto a dupla Grazzi Brasil e Celsinho Mody cantam o samba do Paraíso do Tuiuti, a Portela tem sua bandeira zelada pelo mestre-sala Marlon Lamar, a Mocidade Independente tem como rainha Camila Silva e a São Clemente aposta no talento do carnavalesco Jorge Silveira, nascido em Niterói, mas de carreira sólida no Carnaval de São Paulo.

Este fenômeno contraria a ordem natural do fluxo na ponte aérea. Desde os anos 70, quando o lendário mestre-sala Delegado, da Mangueira, desfilou na Camisa Verde e Branco, os profissionais cariocas acostumaram-se a reforçar as escolas paulistanas. O que teria acontecido para que as escolas cariocas finalmente tenham se rendido aos profissionais de São Paulo? 

“O Rio é a grande referência de Carnaval, mas acho que estamos mostrando que os paulistas têm samba no pé. Acho que os cariocas estão vendo que não só eles têm qualidade. O pessoal de São Paulo está se aprimorando mais e os cariocas estão percebendo”, acredita Camila Silva, pelo segundo ano seguido rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Há nove anos no mesmo cargo no Vai-Vai, a musa aportou no Rio de Janeiro em 2013 para seu primeiro reinado em frente aos ritmistas da verde e branca. E sofreu: “Rolou preconceito. Muita gente questionava o que uma paulista fazia ali, já que tinha tantas meninas da comunidade sonhando com o posto. Com o tempo, essa visão mudou e hoje me sinto inteiramente abraçada pela comunidade da Mocidade”, afirma.

Aos 31 anos, a passista que começou ainda criança na Combinados do Sapopemba, escola do Grupo de Acesso paulistano, hoje sente-se orgulhosa de ser um espelho para várias crianças que desfilam nas escolas de São Paulo. “As meninas agora acreditam que é possível. Eu me vejo nelas porque fui assim também e hoje elas acreditam que podem ser rainhas de bateria onde quiserem. É muito recompensador”, derrete-se a rainha.

Ewerton Pereira/Divulgação
Celsinho Mody passou por escolas como Camisa Verde e Branco, Mancha Verde e Nenê de Vila Matilde Imagem: Ewerton Pereira/Divulgação

“Sonho de criança”

No Paraíso do Tuiuti, uma dupla de cantores paulistanos dividirá o microfone principal da escola com o intérprete Nino do Milênio. Celsinho Mody, campeão de 2017 com a Acadêmicos do Tatuapé, estará nesta missão juntamente com Grazzi Brasil. A cantora da Vai-Vai chega ao Carnaval carioca após seu desfile de estreia no Anhembi. “As coisas aconteceram rápido demais na minha vida. Logo depois do Carnaval, fui chamada para cantar alguns sambas concorrentes aqui no Rio, em escolas como Salgueiro, Beija-Flor e São Clemente. Em seguida, surgiu o convite”, explica Grazzi, que, aos 30 anos, tem uma carreira consolidada de cantora de samba pela noite paulistana e participou da última edição do programa "The Voice", da TV Globo.

Nascido em uma família de sambistas, Celsinho Mody passou por escolas como Camisa Verde e Branco, Mancha Verde e Nenê de Vila Matilde. O campeonato pela Tatuapé serviu de trampolim para o Carnaval carioca. Ao chegar ao Rio para receber uma premiação, chamou a atenção do presidente do Tuiuti, Renato Thor. “Estou realizando um sonho de menino. Cantar no Rio é algo que todo garoto que gosta de samba sonha, mas a vida nos mostra que o caminho é muito difícil. Quando desencanei, o convite veio e agora vou agarrar essa oportunidade com muito amor”, relata Celsinho.

PC Souza/Divulgação
Grazzi Brasil chegou a participar do reality show "The Voice" Imagem: PC Souza/Divulgação

Envolvidos na dupla jornada, Celsinho e Grazzi afirmam que estão se preparando adequadamente para cantar, em noites praticamente seguidas, nos dois Carnavais. E que as diretorias das escolas os apoiaram na decisão de cantar no Rio. “Meu presidente, Eduardo dos Santos, ficou muito feliz e está me ajudando muito com a agenda de compromissos. Inclusive, virá desfilar com a gente no Tuiuti”, explica Celsinho. Grazzi acrescenta mais um ingrediente desta empreitada: o cansaço: “O mais difícil é conciliar os ensaios. Viajo de São Paulo para o Rio toda semana. Já faz mais de um mês que não sei o que é folga, mas o esforço vale a pena”.

Um paulistano com o símbolo máximo da Portela

Se Celsinho Mody e Grazzi Brasil vivem a rotina do bate e volta entre as duas capitais, o mestre-sala Marlon Lamar fixou-se no Rio de Janeiro há um ano e meio em busca do sonho de brilhar na Sapucaí. E já colhe os frutos: ao lado da porta-bandeira Lucinha Nobre, forma o primeiro casal da campeã Portela. “Tudo foi muito rápido. A Lucinha foi a São Paulo dar um curso e me viu dançando na quadra do Império de Casa Verde. Fizemos amizade e, pouco depois do Carnaval 2016, ela me chamou para dançar com ela na Unidos do Porto da Pedra. Larguei tudo e vim para o Rio correndo”, relata Marlon.

Depois de dançar no Grupo de Acesso no ano passado, o mestre-sala de 23 anos recebeu o convite de ir para a Portela. Algo impensável para quem, há dois Carnavais, conquistava o título paulistano em seu quarto desfile pela Casa Verde. Na tradicional agremiação, de 22 títulos do Carnaval carioca, sente-se em casa. “Vim sozinho para cá porque ainda sou novo e posso tentar batalhar pelo meu sonho. E encontrei uma família aqui na Portela. Todos cuidam de mim com muito carinho”, conta o jovem, formado em Biomedicina, mas que aposta todas as fichas no sonho de vencer no Carnaval carioca.

Aplicando lições de São Paulo no Carnaval do Rio

Após perder a carnavalesca Rosa Magalhães para a Portela, a São Clemente apostou em um estreante no Grupo Especial. Jorge Silveira tinha feito apenas um desfile no Rio: o da Viradouro, em 2017. Toda sua base profissional foi formada no Carnaval de São Paulo, especialmente nos três anos em que integrou a Comissão de Carnaval da Dragões da Real, vice-campeã do ano passado.

Apesar de ser niteroiense, Jorge carrega a imagem de ser um profissional paulistano. E não se incomoda com o rótulo. “Lógico que sofri preconceito, mas eu teria um tremendo orgulho de ser paulistano porque o Carnaval de lá é maravilhoso, com uma ótima estrutura e que me fez crescer muito como profissional”, afirma o carnavalesco.

Facebook/Divulgação
Apesar se ser de Niterói, Jorge Silveira tem carreira sólida em SP Imagem: Facebook/Divulgação

Logo após se formar em Belas Artes na UFRJ, Jorge criou um blog com seus desenhos e, a partir da página, foi convidado a trabalhar em São Paulo. Além da Dragões, ele auxiliou em projetos na X-9 Paulistana, Gaviões da Fiel e Independente. Em paralelo, também desenhava para algumas escolas cariocas, como Vila Isabel e Imperatriz. A rotina era puxada: “Eu geralmente ia para São Paulo e ficava lá uns dois ou três dias. Depois voltava pro Rio e ficava mais dez. Praticamente morei no Terminal Tietê (risos). Muitas coisas resolvíamos por Skype e WhatsApp. Mas foi uma experiência fantástica e que muito me ensinou”, relata.

Questionado sobre as diferenças entre as duas folias, Jorge destaca que o Carnaval do Rio é muito mais caro, mas o de São Paulo, por conta da arquitetura do Sambódromo do Anhembi, permite carros alegóricos mais altos e que interagem mais com a plateia. “Os carros da Dragões, no ano passado, tinham uma capacidade de comunicação com o público muito imediata. Isso trouxe a arquibancada para dentro do desfile e farei o mesmo na São Clemente. Meu estilo é mais de interatividade e movimento, que é uma coisa que eu estou trazendo do Carnaval de São Paulo”, assegura o carnavalesco.

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