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Ditadura militar ou civil-militar? Locais de tortura geram debate sobre o nome

O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto (de óculos) é mencionado como um nome civil que impulsionou o golpe militar; na foto, ele aparece na festa de retorno das tropas  a Juiz de Fora (MG) após o golpe militar - Arquivo Fotográfico/Museu Mariano Procópio
O governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto (de óculos) é mencionado como um nome civil que impulsionou o golpe militar; na foto, ele aparece na festa de retorno das tropas a Juiz de Fora (MG) após o golpe militar Imagem: Arquivo Fotográfico/Museu Mariano Procópio

02/04/2024 04h00

A escolha de palavras para contar a história do Golpe Militar de 1964 pode revelar repúdio ao autoritarismo, apontar corresponsáveis pela manutenção do regime ou defender seus crimes contra os direitos humanos.

Para entender essas escolhas, a Agência Brasil conversou com especialistas sobre o uso de termos-chaves relacionados ao período de exceção, que durou 21 anos. Professores especializados no assunto trataram de conceitos como "ditadura militar", "ditadura civil-militar", "golpe", "revolução", "presidente" e "ditador". Além disso, um ponto que une civis ao golpe militar é a cessão de imóveis privados para as torturas e execuções promovidas pela ditadura.

Ditadura civil-militar

O professor titular de história contemporânea da UFF (Universidade Federal Fluminense), Daniel Aarão Reis, atribui para si a implementação do termo civil-militar. Essa qualificação da ditadura começou a ser escrita por ele no livro Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedade, publicado no ano 2000.

O historiador ressalta que os civis tiveram participação decisiva no golpe militar. Na perspectiva dele, o uso do termo não significa uma proposta para conceituar de outra maneira o regime de exceção, mas sim uma forma de recuperar um ponto obscurecido: "a participação ativa, consciente e fundamental dos civis desde a instauração da ditadura, em 1964."

"A ditadura deve ser chamada conceitualmente de ditadura militar porque as corporações militares eram, efetivamente, as que mandavam no país, governavam o país. Então é razoável manter esse nome conceitualmente", explica.

Ele cita exemplos de engajamento civil que deram impulso ao surgimento do regime ditatorial. Um deles foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março de 1964, movimento popular religioso e conservador. Outro foi o comportamento do então governador mineiro Magalhães Pinto, que criou um governo de unidade nacional e deu ordens para tropas golpistas se movimentarem.

"Tem um quadro de participação decisiva de civis no golpe. Pode-se corretamente dizer que o golpe foi civil-militar", ressalta Aarão Reis. "Quando lancei essa expressão, foi nesse sentido, para chamar a atenção, porque a expressão ditadura militar, a partir de certo momento, passou a ocultar a participação de civis".

O professor conta que essa participação foi exercida por veículos de imprensa, acadêmicos, e ministros com grande influência, como Delfim Netto, "um czar da economia". "Foi para desvelar esse ocultamento que foi proposta a questão da ditadura civil-militar".

Imóveis de civis eram usados por militares

Outro ponto que une civis ao golpe militar é a cessão de imóveis privados para as torturas e execuções promovidas pela ditadura. Apesar de conhecidos, o caráter completamente não oficial desses imóveis em relação a estruturas públicas deixou poucas evidências para que seja possível saber exatamente quantos eram e o que se passou neles.

Um desses locais seria a Fazenda 31 de Março, em Marsilac, extremo sul da capital paulista. Nela, teriam sido mortos em 1973 os militantes da ALN Sônia Angel Jones e Antônio Carlos Bicalho Lana.

Em uma CPI aberta pela Câmara de São Paulo em 1990, o ex-deputado Afonso Celso, único sobrevivente conhecido do sítio, contou sobre o que passou lá. Apesar de vendado, ele se lembrava que atravessou uma linha férrea para chegar ao local.

"Fui conduzido para um subterrâneo, ou uma sala subterrânea ou coisa assim, porque existiam quatro degraus. Quatro degraus, não, quatro lances de escada, e lá imediatamente me despiram e passaram a me torturar", relatou aos vereadores.

Outros lugares só foram conhecidos por revelações dos próprios agentes da repressão, como Marival Chaves Dias do Canto, ex-sargento que atuou no DOI-Codi. Mesmo estando dentro de um dos maiores centros de tortura da ditadura, ele negou ter participado desse tipo de violência e fez revelações em diversos depoimentos. Foi o ex-agente da repressão que identificou a Boate Querosene, em Itapevi, e o Sítio em Araçariguama como locais usados para tortura e execução de opositores ao regime.

E por que usar apenas "ditadura militar"?

Autor do livro Passados Presentes: o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar, o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que não há dúvida de que o golpe e a ditadura só existiram devido ao apoio civil, principalmente das classes médias e altas, "embora em certos momentos a ditadura conseguiu empolgar alguns grupos populares".

Por outro lado, ele não acha necessário o uso do termo civil para indicar que a ditadura teve apoio fora das Forças Armadas. Ele lista entre os principais apoiadores civis, empresários urbanos e rurais, lideranças religiosas, parlamentares e elites burocráticas, principalmente no Judiciário.

"Nenhuma ditadura dura mais que um par de anos sem apoio de civis. Além disso, os adjetivos utilizados para indicar isso, como empresarial, midiática, civil, burocrática, eclesiástica, geram outros problemas ou inadequações. (...) A expressão ditadura civil-militar pode levar à ideia de que todos os civis apoiaram, o que não é verdade", pondera.

A expressão ditadura militar, na visão de Sá Motta, é mais apropriada porque as forças armadas apoiaram o regime em bloco, ainda mais depois que opositores foram expurgados das fileiras, e as novas gerações de militares "foram socializadas de acordo com os valores da ditadura".

Ele acredita que o uso do termo civil-militar pode servir ao propósito dos golpistas, quando afirmam que a ruptura não foi golpe e, sim, revolução, porque teria tido muito apoio social.

"Há riscos políticos envolvidos no uso tanto da expressão ditadura militar (apagar o apoio civil) como ditadura civil-militar (exagerar o apoio civil). De toda forma, eu prefiro usar apenas ditadura militar porque é mais preciso e adequado para expressar o que foi o regime político vigente no Brasil entre 1964 e 1985, quando fomos governados por ditadores militares, de triste memória", contextualiza.

Retirada de culpa

Aarão Reis, da UFF, pontua que outro elemento que justifica o uso da designação civil-militar é evitar que civis que tenham apoiado o regime sejam vistos como responsáveis pelo processo de redemocratização. Ele cita o nome do ex-presidente José Sarney (1985-1990), primeiro civil a suceder a sequência de cinco generais na presidência da República, sem eleição direta.

"José Sarney foi um homem da ditadura o tempo todo, foi um líder do partido Arena [Aliança Renovadora Nacional], criado em 1965 e que deu sustentação à ditadura durante todo o tempo que ela durou. Fazer do José Sarney a inauguração de um novo tempo me parece problemático", afirma.

Golpe

Na batalha da historiografia do período, outro termo que já foi alvo de controvérsias é revolução, para se referir à ruptura institucional de 1964. Sá Motta enxerga no uso da palavra revolução uma tentativa de impor uma visão mais simpática ao regime militar.

"Os defensores de 1964 rejeitam o termo 'golpe' por implicar sentido negativo, enquanto 'revolução' e 'movimento' têm conotações mais simpáticas, sugerindo a imagem de que teria sido um período de mudanças positivas".

Ele observa que há um paradoxo, pelo fato de a palavra revolução ser - em termos históricos - mais comumente utilizada por correntes de esquerda. "Ao ponto de alguns líderes da ditadura afirmarem que 1964 teve perfil mais próximo de uma contrarrevolução".

"Apesar das polêmicas com a terminologia, a ditadura manteve 'revolução' como sua designação oficial, em grande parte por razões de propaganda e de estratégia de legitimação", explica o professor.

Nos anos 60, em todo o mundo, a palavra revolução ganhou um grande prestígio, complementa Aarão Reis. Ele atribui essa valorização a feitos como as revoluções Chinesa (1949), Cubana (concluída em 1959) e Argelina (1962).

"Então você tem um quadro de revoluções que tornaram muito popular a palavra. Nesse sentido, os golpistas de 64, que estavam empreendendo um golpe do estado e iriam liderar mais tarde um processo de modernização conservadora, se permitiram se apropriar dessa palavra e batizaram o golpe e a ditadura como uma revolução".

Ditadores

Os pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil identificam que a narrativa sobre o regime militar passa a ideia de que o país teve uma ditadura sem ditadores, em que os generais que ocuparam o Palácio do Planalto eram sempre aludidos como presidentes, em vez de ditadores.

"Mas eram presidentes ditadores, pois chegaram ao poder não devido a eleições populares, mas à escolha da elite militar, que após decidir quem seria o presidente enviava os nomes para serem chancelados por um colégio eleitoral, como determinava a Constituição autoritária de 1967. Eles eram as duas coisas, portanto, presidentes e ditadores, e, naturalmente, preferiam o primeiro título e recusavam o segundo, que tem sentido negativo", complementa.

Os ocupantes da presidência durante o regime militar foram os generais Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), Arthur da Costa e Silva (1967-1969), Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Baptista de Oliveira Figueiredo (1979-1985).

"Esse tique de chamar os ditadores de presidente é uma expressão do conservadorismo no Brasil e uma expressão também da falta de reflexão da sociedade brasileira sobre a ditadura", avalia o professor Aarão Reis.

O professor chama atenção também para o "número extraordinário" de logradouros públicos e escolas que conservam nomes dos ditadores. Um exemplo é a Ponte Rio-Niterói, batizada de Presidente Costa e Silva. O professor da UFF, que diz haver falhas também na rememorização da ditadura do Estado Novo de Vargas, aponta que a não reflexão adequada sobre desvios do passado pode acabar resultando em atalhos para novos erros.

"Você não está imune à repetição dos erros, mas quando você não reflete, é praticamente certo que vai haver uma tendência muito forte a repeti-los".

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