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Advogadas acreditam em lucro de 30% com energia solar e perdem R$ 35 mil

Inauguração de suposta usina em Manga (MG) - Reprodução/Facebook.
Inauguração de suposta usina em Manga (MG) Imagem: Reprodução/Facebook.
do UOL

Lucas Gabriel Marins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

04/05/2020 04h00

As advogadas gêmeas Andressa Vecina Oliveira e Alessandra Vecina Oliveira Baptista, 33, queriam investir em algum negócio ligado à sustentabilidade, uma bandeira em que ambas acreditam. Em setembro, depois de extensa pesquisa e da indicação de uma amiga próxima, conheceram a Econ Energia Solar Compartilhada, que recentemente trocou de nome para Econ Global.

A empresa, com sede em São Paulo, afirma vender cotas em usinas de geração de energia solar e promete lucro de até 30% ao mês sobre o capital investido. Esse lucro tão alto, que consta como "garantido" no contrato, seria fruto da venda da energia produzida em quatro usinas que a companhia afirma ter no Piauí e em Minas Gerais.

"Como nós duas somos advogadas, averiguamos tudo sobre a Econ Global. Não havia reclamações no Reclame Aqui ou pendências em órgãos públicos. Estava tudo certo na Junta Comercial, e não encontramos denúncias. Chegamos a visitar a sede da companhia, e tudo parecia bastante confiável. Mas, pelo jeito, não era", disse Andressa.

Juntas, as irmãs investiram R$ 35 mil no negócio em setembro. Recuperaram até o momento R$ 800.

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Fachada da sede da Econ Global (antiga Econ Energia Solar Compartilhada) no bairro Pacaembu, em São Paulo
Imagem: Filipe Andretta/UOL

O UOL contatou a Econ Global por meio da página da empresa no Facebook e enviou um email pedindo entrevista. A companhia não disponibiliza número de telefone. A reportagem também esteve na sede da empresa, em São Paulo, onde foi recebida por um funcionário que não quis se identificar nem responder a perguntas, mas que afirmou que a empresa responderia por email. Até a publicação desta reportagem, no entanto, não houve resposta.

Depois dos questionamentos do UOL e da visita à sede da empresa, a Econ Global tirou o site do ar.

Econ Global não paga desde outubro

Desde outubro, um mês depois que as irmãs fizeram o investimento, a Econ Global deixou de pagar os clientes. No site Reclame Aqui, há mais de 400 reclamações contra o negócio.

"Aportei nessa arapuca R$ 5.000 há cinco meses. Agora está tudo zerado. Sumiram com meu dinheiro, eu quero meu dinheiro de volta", escreveu no site uma pessoa que afirma ser cliente da empresa.

Não há números exatos de possíveis lesados, mas, na Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Consumidor de Goiás, há um boletim de ocorrência coletivo assinado por quase 1.000 pessoas.

O Ministério Público do Estado de São Paulo recebeu denúncia contra o negócio no dia 12 de março.

O que a empresa promete

A empresa oferece "pacotes de investimentos" que vão de R$ 1.000 a R$ 50 mil. Se uma pessoa investe R$ 35 mil, como as irmãs fizeram, por exemplo, o rendimento prometido é de cerca de R$ 10,5 mil por mês.

Além dos planos com promessa de lucro fixo, a empresa também afirmava pagar bônus de comissão de 10% aos clientes que indicassem outros membros para participar do negócio.

CMV vê indícios de fraude, segundo comunicado

A Econ Global não tem autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para operar no mercado financeiro. No final do ano passado, a autarquia abriu um processo para averiguar se a companhia é uma fraude.

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Sala de reunião na sede da Econ Global tem fotos de painéis de energia solar
Imagem: Filipe Andretta/UOL

O processo não está aberto ao público, mas o UOL teve acesso a um comunicado enviado pela CVM a um dos investidores lesados pela Econ Global, que entrou em contato com o órgão para denunciar a empresa.

Segundo o documento, a CVM entende que "não existem indícios suficientes que justifiquem um aprofundamento investigativo sobre possível oferta irregular de valor mobiliário (por parte da Econ Global), havendo por outro lado a presença de fortes indícios da ocorrência de esquema fraudulento".

Características da empresa que, segundo a CVM, indicariam possível fraude são "divulgação (ofertas) de oportunidades de investimentos ou operações com promessa de alta lucratividade", "promessa de alta liquidez" e "falhas em demonstrar claramente a viabilidade econômica do investimento", entre outras.

Explicações para os atrasos

Desde o início dos atrasos, segundo relatos dos investidores, a empresa vem dando desculpas, como falhas no sistema e problemas para liberar os saques. A última foi dada no final de janeiro pelo CEO da Econ Global, Samir Gabriel da Silva.

Ele falou que transformaria as cotas dos investidores em supostas debêntures, que são títulos de dívidas. "Todo o agente cotista terá o seu saldo a receber emitido em debêntures", falou o empresário, em um áudio ouvido pela reportagem.

Para uma debênture "verdadeira" ser lançada, no entanto, é preciso ter uma instituição financeira que dê garantia para tal emissão. A Econ Global, segundo clientes, afirmou que a empresa garantidora seria o Banco do Brasil.

Contatado pela reportagem, o Banco do Brasil informou que não há nenhum registro de debênture em nome da Econ Global.

Investidor foi ao banco checar debênture

O físico Sandro Cardoso, 45, um dos clientes do negócio, percebeu que a tal debênture não era verdadeira. "Fui até o banco, passei o número do título e fui informado que ele não existia. Foi aí que percebi que o negócio era golpe mesmo", disse.

Cardoso disse que investiu na Econ Global porque achou interessante o modelo de negócio. Nas quatro supostas usinas do grupo, por exemplo, haveria pouco mais de 1 milhão de placas solares.

"Fiz umas contas e cheguei à conclusão de que conseguiria pagar o tal lucro prometido. Por causa disso, resolvi investir", disse.

O problema é que ele não atentou para a possibilidade de essas usinas não existirem.

Onde estão as usinas?

No site que foi retirado do ar, a Econ Global não divulgava os endereços das quatro usinas que afirma ter no Piauí e em Minas Gerais. Informava, no entanto, que duas delas estariam localizadas nos municípios mineiros de Paracatu e Manga.

Em consulta ao site da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), a reportagem não encontrou em Paracatu e Manga nenhuma usina de grande porte ou unidade pequena de geração registrada em nome da Econ Global, Econ Energia Compartilhada (nome antigo da empresa) ou do proprietário do negócio, Samir Gabriel da Silva.

Qualquer empreendimento de geração de energia solar fotovoltaica, seja um projeto de usina de grande porte ou uma pequena unidade produtora de energia, precisa estar registrado no banco de dados da Aneel.

A prefeitura de Paracatu, por meio de sua secretária da fazenda, informou que a Econ Global não tem nenhum cadastro como contribuinte, o que seria necessário, visto que qualquer imóvel precisaria pagar IPTU e outros impostos.

Em Manga, a Econ Global chegou a fazer um evento de inauguração da suposta usina em dezembro. Até o prefeito da cidade, Joaquim de Oliveira Sá Filho, participou do evento.

De acordo com a prefeitura, no entanto, desde a data da inauguração, a Econ Global não forneceu nenhuma documentação ao município. O órgão também informou que o governo e o prefeito "não tinham conhecimento das reais intenções da empresa" e que "em vista da exposição pública e do induzimento ao erro do prefeito, medidas judiciais cabíveis serão tomadas".

Cuidado com propostas fora da realidade

Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), disse que é preciso ter cautela com promessas que fogem muito da realidade do mercado.

Até o final do ano passado, a Econ Global utilizava o nome da Absolar em suas propagandas. Por causa disso, a associação soltou, na época, uma nota afirmando que não havia autorizado a empresa a "fazer o uso da marca e do nome da associação" e que "não possui nenhum tipo de vínculo ou relação" com ela.

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