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Coronavírus: qual o impacto do isolamento nas sociedades mais 'abertas' do mundo

"Indivíduos de sociedades de alta mobilidade relacional estão precisando ajustar a vida cotidiana mais do que sociedades de baixa mobilidade relacional. Eles podem se sentir "encurralados"". Acima, av Paulista praticamente vazia - ROBERTO PARIZOTTI/FOTOS PUBLICAS
"Indivíduos de sociedades de alta mobilidade relacional estão precisando ajustar a vida cotidiana mais do que sociedades de baixa mobilidade relacional. Eles podem se sentir 'encurralados''. Acima, av Paulista praticamente vazia Imagem: ROBERTO PARIZOTTI/FOTOS PUBLICAS

Juliana Sayuri - De Toyohashi (Japão) para a BBC News Brasil

28/03/2020 16h07

Como estudos de psicologia social ajudam a compreender tendências de comportamento nas atuais restrições de movimento e nas ações de controle do coronavírus.

Quarentena imposta, autoisolamento e outras restrições de movimento se tornaram comuns em diversos países diante da pandemia do novo coronavírus. Estima-se que haja ao menos 2,8 bilhões de pessoas vivendo sob algum tipo de restrição de movimento ou acesso a serviços.

Entretanto, o impacto do isolamento social é diferente de país para país, agora e a longo prazo. Acredita-se que sociedades mais "abertas", como o Brasil, lidem com a condição de isolamento sob mais estresse e tensões, do que sociedades mais "fechadas", como o Japão.

"Indivíduos de sociedades de alta mobilidade relacional estão precisando ajustar a vida cotidiana mais do que sociedades de baixa mobilidade relacional. Eles podem se sentir 'encurralados' sem a liberdade de sair e se relacionar com os outros, o que eleva o estresse", diz a psicóloga social Mie Kito, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Meiji Gakuin, de Tóquio.

"Interações físicas como beijos, abraços e apertos de mão são importantes para formar e fortalecer relacionamentos. A disseminação do vírus restringe esses comportamentos", acrescenta o psicólogo social Junko Yamada, do Departamento de Ciência Comportamental da Universidade de Hokkaido.

"Além disso, diante do medo do contágio, tende-se a evitar estranhos - e, nos últimos dias, diversos países impuseram restrições a estrangeiros. Essas restrições de movimento também podem diminuir a mobilidade relacional".

Mobilidade relacional ("relational mobility", na expressão original, em inglês) é a palavra-chave de uma área de estudos interdisciplinares (da biologia à sociologia) que analisa tendências de comportamento das sociedades sobre relacionamentos amorosos e amizades, por exemplo.

É uma "variável socioecológica", que representa o grau de liberdade e de oportunidade que as pessoas têm para escolher, iniciar e romper seus relacionamentos interpessoais, a partir de suas preferências pessoais. Em termos simples, uma sociedade de alta mobilidade relacional é mais aberta, passional e sociável, com relações sociais mais fluidas e íntimas; uma sociedade de baixa mobilidade relacional, por sua vez, é mais fria, fechada e reservada, de relações mais engessadas e distantes.

A ideia também tem a ver com solidão. "Em sociedades de alta mobilidade relacional, as pessoas se esforçam mais para fortalecer relações consideradas mais importantes, reduzindo o sentimento de solidão. Também dissolvem relacionamentos ruins mais facilmente, pois há muitas oportunidades de encontrar alternativas atraentes", diz Yamada.

Sociedades abertas e fechadas

Sociedades norte e latino-americanas são mais abertas, enquanto sociedades asiáticas e norte-africanas são mais fechadas, indica o estudo internacional "The Relational Mobility", realizado por 27 pesquisadores de 19 universidades e publicado na revista científica da National Academy of Sciences, dos Estados Unidos, em 2018.

"A mobilidade relacional estabelece as 'regras do jogo' das relações sociais", diz o artigo acadêmico, que analisou dados de 39 países. Foram tabulados mais de 16 mil questionários de 12 perguntas, em 23 idiomas, que incluíram pontos como: no seu círculo social, é comum ver pessoas conversando com alguém que nunca viram antes?, é fácil conhecer pessoas novas?, é possível escolher com quem interagir no dia a dia?

O Japão é o país mais fechado; o México é o mais aberto, seguido por Porto Rico e Brasil, constatou o projeto. Malásia, Hong Kong, Hungria e Alemanha também são exemplos de países de baixa mobilidade relacional. Austrália, França e Estados Unidos, de alta. De acordo com o estudo, o histórico de ameaças, traumas do passado como guerras e doenças, é um dos fatores determinantes do nível de mobilidade relacional.

Segundo Kito e Yamada, diante da pandemia de covid-19, a mobilidade deve diminuir no mundo todo. "Se o surto não for controlado logo, muitas sociedades podem enfrentar esse declínio. Uma das razões é a desconfiança, suspeitando que todos ao redor podem estar infectados, o que reprime motivações para conversar com os outros e formar novos laços", diz Kito, uma das autoras do estudo internacional.

Não há modelo ideal. Uma sociedade de alta mobilidade relacional pode ter efeitos negativos (rompem-se relações mais facilmente) e positivos (tende-se a ter mais apoio social e confiança nos outros). Já uma sociedade de baixa mobilidade relacional é mais propensa a ter relações mais duradouras e flexibilidade de atitudes individuais em prol do grupo (efeitos positivos), mas também menos confiança diante de desconhecidos e intimidade junto a amigos e namorados (efeitos negativos).

"São os dois lados da moeda", definem Kito e Yamada.

Se as sociedades estão se fechando mais na atual pandemia, portanto, há consequências negativas e positivas possíveis: de um lado, mais desconfiança, como as demonstrações de preconceito contra a China, primeiro epicentro de Sars-Cov-2; de outro, mais de flexibilidade de atitudes individuais em prol do grupo, como a campanha digital #FicaEmCasa, incentivando a autoquarentena para frear infecções no Brasil.

Dilema social

Nos últimos dias, iniciativas solidárias durante o isolamento dominaram as redes sociais mundo afora: ajuda para vizinhos em Brasília e Berlim, brincadeiras nas varandas na Espanha, "kits anticoronavirus" na Escócia e música nas janelas em Turim e Wuhan, reportou a BBC News Brasil. Na província de Yamanashi, no centro do Japão, uma estudante de 13 anos costurou máscaras para doar a asilos e orfanatos, mostra outra reportagem.

"É importante lembrar que nós somos uma espécie social. Temos agora muitas possibilidades de contato online, por mensagens de voz e de vídeo. Em muitos países, não está tendo tanta distância social, mas distância física", pondera o psicólogo pernambucano Taciano Milfont, diretor do Centre for Applied Cross-Cultural Research da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia.

Mas ficar isolado num país "aberto" como o Brasil ou num país "fechado" como o Japão é diferente. "Todo mundo é impactado, mas de maneiras diferentes. O Brasil é um território imenso, onde as relações tendem a ser muito mais próximas, conforme indicam os dados. Nós, brasileiros, temos o costume de abraçar, dar as mãos, tocar nos outros e ficar sem isso pode ser difícil", analisa o acadêmico, único brasileiro entre os autores do estudo, radicado há 16 anos na Nova Zelândia.

"Já o Japão é um conjunto de ilhas e, como outras culturas insulares, como a neozelandesa, tende a ser mais fechado ao de fora. Aí não é comum o contato direto, físico, como cumprimentar com beijos, e parte da sociedade já vive só", comenta o autor, que ja passou temporadas de pesquisa no arquipélago asiático.

Segundo dados do Censo, o número de japoneses que vivem sozinhos subiu de 25%, em 1995, para 35% em 2015. "Normas sociais influenciam muito como japoneses agem, se comunicam e se movimentam. 'Nem todo mundo consegue dividir a casa com alguém. É o momento de relaxar, tirar a máscara social e ficar de pijama', brincam amigos acadêmicos japoneses", exemplifica.

Além da mobilidade relacional, os autores consideram uma variável cultural no estudo: o perfil "tight" (rigoroso) e o "loose" (solto), termos teorizados pela psicóloga cultural Michele Gelfand, professora da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Isto é, há culturas mais rígidas e disciplinadas, não gostam de incertezas e tendem a seguir mais as regras; e outras mais maleáveis, menos amarradas às regras.

"Japão e Alemanha, por exemplo, são 'tight'. Se uma situação como o atual surto exige medidas e mudanças drásticas, tende-se a respeitar as regras. Se a liderança diz 'isso é sério' [palavras da chanceler alemã Angela Merkel, que anunciou restrições recentemente], é provável que se siga. Se não dá diretriz, abre-se margem para flexibilizar e não cumprir à risca [como vem sendo criticado o premiê japonês Shinzo Abe, diante das aglomerações recentes nas cidades japonesas, onde não foi imposta quarentena]."

Embora estudos de psicologia possam ajudar a compreender tendências de comportamento nas atuais restrições de movimento e nas ações de controle do coronavírus, há questões abertas e outros fatores (como os critérios e o número de testes realizados, além do estágio da pandemia de país a país), logo não é possível prever o impacto na disseminação da doença. Até 27 de março, segundo relatório da OMS, a Alemanha registrou 42,288 casos confirmados e 253 mortes, o Japão, 1.387 casos e 46 mortes.

A pandemia também traz um "dilema social", um conceito da psicologia para as situações em que o interesse individual está em conflito com a comunidade. "É o impasse entre priorizar o foco egoísta ou se adaptar a uma perspectiva mais altruísta, pensando nos outros. Implica escolhas entre estocar itens do mercado ou não, liberar funcionários ou não, ficar isolado ou não. Isso diz muito sobre quem somos como sociedade", diz Milfont.

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