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Proposta de Doria, "ração humana" é condenada pelo Conselho Regional de Nutrição

Anunciado por João Doria na última semana, alimento ultraprocessado que será distribuído para população carente está sendo chamado de "ração humana" e é alvo de críticas de especialistas - Reprodução/Youtube
Anunciado por João Doria na última semana, alimento ultraprocessado que será distribuído para população carente está sendo chamado de "ração humana" e é alvo de críticas de especialistas Imagem: Reprodução/Youtube

do BOL, em São Paulo

16/10/2017 12h21

Após o prefeito de São Paulo, João Doria, causar polêmica na última semana ao lançar o programa Alimento para Todos, que prevê a distribuição de um composto chamado de "ração humana" para a população carente e rebater as críticas dizendo que o produto "tem todo o respaldo de cientistas", o Conselho Regional de Nutrição se posicionou contra a iniciativa.

Na última sexta-feira (13), a entidade publicou nota afirmando que a ação fere os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e vai contra os avanços em políticas públicas de combate à fome e à desnutrição.

"O Conselho Regional de Nutrição se manifesta contrário à proposta, pois contraria os princípios do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), bem como do Guia alimentar para a população brasileira, em total desrespeito aos avanços obtidos nas últimas décadas no campo da segurança alimentar e no que tange as políticas públicas sobre as ações de combate à fome e desnutrição", diz o texto.
 
Ração humana
 
O composto anunciado por Doria é feito com base em alimentos que não teriam mais condições de serem vendidos e passou a ser chamado de "ração humana" e "granulado" nas redes sociais.

"Aqui você tem alimentos que seriam jogados no lixo e que são reaproveitados, com toda a segurança alimentar. São liofilizados [desidratados a baixa temperatura para conservação] e transformados em um alimento completo: em proteínas, vitaminas e sais minerais. A partir do mês de outubro, começa a sua distribuição gradual, por várias entidades do terceiro setor. Igrejas, templos, a sociedade civil organizada, além da Prefeitura de São Paulo, para oferecer às pessoas que têm fome", disse o prefeito em um vídeo postado em suas redes sociais. "Em São Paulo inicialmente, e depois em todo o Brasil."

 

Em Milão, o prefeito rebateu as críticas. Disse que elas eram fruto de "total falta de conhecimento". "O Brasil tem de colocar ideologia e partidarismo nas coisas. Aquilo foi desenvolvido por cientistas. É um trabalho de anos. Foi submetido à prefeitura com todo o respaldo de cientistas. O alimento liofilizado dura anos. É o mesmo que os astronautas consomem em missões espaciais. É bom. Eu experimentei. Tem vários sabores", afirmou.

De acordo com o Estadão Conteúdo, o Alimento para Todos é resultado de um projeto de lei do vereador Gilberto Natalini (PV), que foi secretário do Verde de Doria, mas saiu após desentendimentos com a gestão do tucano. O vereador defendeu o programa, mas não a apresentação do granulado. "O programa é sério, existe há anos, eu acompanho o desenvolvimento há dez anos. A ideia é reaproveitar alimentos para a produção de uma farinata. É essa farinata que, depois de embalada, dura até um ano. Da farinata se fazem bolos, massas para macarrão e biscoitos, com a adição de sabores", disse o vereador. "O prefeito foi deselegante em lançar o programa, que nasceu de um projeto de lei, sem citar o autor do projeto."

A Secretaria Executiva de Comunicação da Prefeitura disse que os alimentos usados não estariam perto da data do vencimento. Afirmou se tratar de comida "de boa qualidade, mas que seria dispensada por mercados, sacolões e indústria".

"Não é um alimento para ser consumido sozinho, mas um reforço nutricional. Não há definição de como será distribuído", diz o texto. A prefeitura disse que ainda não há definição sobre como será feita a distribuição do alimento. "Este programa está vinculado à Política Municipal de Erradicação da Fome e de Promoção da Função Social dos Alimentos, que ainda está sendo elaborada", completa a nota.

Alimento ultraprocessado "é um retrocesso"

Em entrevista à Radioagência Nacional, a nutricionista e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Renata Levy afirmou que a proposta do prefeito João Doria é um retrocesso.
 
"Acho uma coisa inaceitável. A cidade mais rica do país, onde tem o guia alimentar da população reconhecido pelo mundo inteiro e que preconiza o consumo de alimentos, alimentos mesmo, in natura, lançar um programa onde pretende disponibilizar para a população mais pobre do país um alimento que não tem a menor qualidade, ultraprocessado, ou seja, a população vai tá consumindo uma coisa que ela não tem ideia do que contém. Eu acho assustador", afirmou em entrevista à Radioagência Nacional.
 
Renata Levy integrou a equipe que elaborou o Guia Alimentar para a população brasileira, documento de referência do Ministério da Saúde sobre alimentação, que destaca que a alimentação saudável é justamente a que prioriza o consumo de alimentos in natura e evita os ultraprocessados.
 
(Com informações de Estadão Conteúdo e Radioagência Nacional)

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