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'A minha filha foi o último desejo de um desconhecido antes da morte'

Liat Malka
Shira e a mãe, Liat: Nascimento da menina realizou o último desejo do pai que não conheceu e o sonho de maternidade que a mãe nutria Imagem: Liat Malka

Sarah McDermott - BBC World Service

2019-05-24T15:15:53

24/05/2019 15h15

Liat Malka queria muito ter filhos, mas ainda não havia conhecido a pessoa certa para começar uma família. Foi quando topou com um esquema inusitado: ajudar a realizar o último desejo de um estranho, que havia morrido de câncer. O homem queria ser pai. E as histórias deles acabaram se cruzando.

O ano era 2013, Liat tinha 35 anos, era solteira e trabalhava como professora de jardim de infância. Ela vivia no sul de Israel, quando se deu conta de que a idade, logo, poderia ser um empecilho para que conseguisse engravidar.

"Eu fiquei preocupada com o tempo passando. Temia que estivesse perdendo a chance da maternidade", diz. "Então fui ao médico fazer testes de fertilidade."

Os resultados indicaram que o número de óvulos que restava nela era baixo. O médico alertou que, se ela esperasse a pessoa certa aparecer, poderia nunca se tornar mãe.

"Então, decidi fazer tudo o que pudesse para ter um bebê o mais rápido possível", diz.

Quando chegou em casa, começou a pesquisar, na internet, por opções que teria para fertilização.

"Eu realmente queria que meu filho conhecesse o pai e isso não seria possível com um doador de esperma".

Encontro

No YouTube, ela se deparou com uma reportagem, originalmente transmitida em 2009, que lhe apontou para um possível caminho. Nela, um homem e uma mulher, identificados como Vlad e Julia Pozniansky, explicavam que estavam tentando obter autorização legal para usar o esperma do filho, que havia morrido no ano anterior, para gerar uma criança. Eles já haviam encontrado uma mulher para ser a mãe.

Liat se perguntou se uma solução semelhante poderia ser uma boa opção também para ela: "Porque assim a criança poderia saber quem é o pai, conhecer sua história e ter avós e parentes", diz.

Ela decidiu contatar o advogado do casal para pedir mais detalhes - e ficou surpresa ao saber que, quatro anos depois de a entrevista ser gravada, Vlad e Julia continuavam sem neto e que a mulher escolhida para ser a mãe havia desistido da história.

Liat marcou um encontro com os Poznianski e no dia eles levaram consigo um álbum cheio de fotos do filho, Baruch.

JULIA POZNIANSKY
Baruch Pozniansky tinha 25 anos quando morreu de câncer. Durante o tratamento da doença, ele oficializou que queria ser pai Imagem: JULIA POZNIANSKY

Mais de uma década depois de ele ter morrido, Julia, a mãe, ainda acha difícil falar sobre o filho, descrito por ela como "brilhante e incrível".

Aos 23 anos, enquanto estudava ecologia na Technion, renomada universidade israelense em Haifa, Baruch notou uma ferida na boca que não parava de sangrar. Mais tarde, foi diagnosticada como câncer.

Como a quimioterapia pode retardar ou interromper a produção de espermatozoides, Baruch resolveu congelar amostras do seu sêmen.

Baruch perdeu os cabelos. Os médicos tiveram depois que remover parcialmente sua língua, o deixando impossibilitado de falar. Antes, porém, ele fez um pedido.

"Ele disse que, se morresse, queria que encontrássemos uma mulher apropriada e que usássemos o esperma dele para gerar um filho", diz Julia.

Baruch morreu em 7 de novembro de 2008 aos 25 anos de idade. Ele era solteiro e sem filhos.

Julia começou, então, a buscar os caminhos para satisfazer o seu último desejo.

Antes de morrer, Baruch elaborou um testamento biológico com seu advogado, Irit Rosenblum. Rosenblum foi um dos pioneiros da causa da reprodução póstuma em Israel e o estudante foi a primeira pessoa no mundo a criar tal testamento, dando amparo legal à preservação de seu sêmen para propósitos reprodutivos - ou seja, para ser pai após a morte.

A missão de Julia não era só encontrar uma mulher para ser a mãe da criança, mas também obter permissão de um tribunal israelense para ter acesso ao esperma.

Com a ajuda de Irit Rosenblum, Vlad e Julia finalmente encontraram uma mulher israelense de origem russa que aceitou ser a mãe que precisavam para o neto. Eles conseguiram na Justiça permissão de usar o esperma de Baruch, mas uma ou duas semanas depois a mulher encontrou um novo parceiro e desistiu do acordo.

"Outra jovem veio até nós, uma muito legal", diz Julia. O nome dela foi incluído na sentença do tribunal, no lugar da primeira mulher, e o processo de fertilização in vitro foi então iniciado.

Após sete sessões, entretanto, a mulher não havia conseguido engravidar, deixando o estoque limitado de esperma de Baruch reduzido.

Julia disse ter ficado abalada, a ponto de querer "desistir da vida". "Mas decidi que, se fosse viver, teria que conseguir alguma nova razão de felicidade, e amor", diz ela.

"Eu queria que meu filho ainda estivesse vivo - em algum lugar no fundo do meu coração eu queria tê-lo de volta fisicamente - eu pensava que se talvez nascesse um menino seria parecido com ele."

Julia lembra bem do dia em que ela e o marido conheceram Liat, no início de 2013.

"Era uma jovem linda. Cabelos escuros, casaco vermelho e eu a amei desde o início", diz. "Eu vi que ela era uma boa pessoa".

A mulher mostrou a Liat o álbum de fotos de Baruch. E Liat diz que sentiu uma conexão imediata com ele.

"Só de olhar as fotos eu já sabia exatamente quem era aquela pessoa - com olhos muito bondosos, o maior sorriso que você pode imaginar, rodeado de amigos e muito bonito", diz ela.

JULIA POZNIANSKY
Julia, Vlad e Baruch na Alemanha: Família tinha forte conexão, diz Liat, a partir de fotos que viu Imagem: JULIA POZNIANSKY

"E parecia que ele estava realmente conectado aos pais, porque em todas as fotos eles estão de mãos dadas e se abraçando. Eu conseguia ver o amor e a felicidade nos olhos dele - não tinha dúvida de que ele foi uma ótima pessoa."

Enquanto mostrava as fotos a Liat, Julia falava sobre o quanto Baruch amava a vida, sobre o quanto era inteligente, adorava cozinhar e teve grandes amigos.

Naquele momento, Liat decidiu que queria aquele homem que nunca havia conhecido - e que havia morrido cinco anos antes - como o pai do seu filho.

Ela assinou contratos com Vlad e Julia que lhe deram direito à propriedade do esperma - para que ninguém mais pudesse usar o material posteriormente - e formalizavam meios para que o casal pudesse visitar o futuro neto ou neta.

"Queríamos resguardar nossos direitos de ver a criança", explica Julia. "Estávamos fazendo aquilo não apenas para cumprir a vontade de Baruch, mas também para ter o nosso neto tão amado e querido."

O acordo não envolveu qualquer tipo de pagamento - algo que na visão de Vlad e Julia era importante como forma de evitar "atrair o tipo errado de pessoa", ou seja, alguém que tivesse interesses meramente financeiros na história.

Liat então começou o tratamento de fertilidade, mas sua primeira rodada de fertilização in vitro não foi bem sucedida.

"Havia apenas um óvulo", diz Liat. "Isso foi um choque - eu esperava mais - e depois ele não virou embrião."

Liat se manteve otimista, mas mesmo tomando uma dose maior da medicação que estimula os ovários a produzirem mais óvulos, houve novamente apenas um óvulo na segunda tentativa.

Mas dessa vez, as notícias da clínica foram boas.

O óvulo fertilizado foi transferido para o útero de Liat. Uma semana depois, ela fez um teste de gravidez.

O hospital telefonou, novamente com boas notícias. "Eles ficaram gritando: 'Sim, você está grávida!'", diz Liat.

Liat deu a notícia à irmã e depois à Julia. Mas a ficha, para ela, só caiu nos dias seguintes.

"Eu fiquei em choque - não achava que aquilo iria acontecer", admite. "Então, quando aconteceu, eu simplesmente não conseguia acreditar. Eu nem conhecia Vlad e Julia tanto assim - só tinha encontrado com eles duas ou talvez três vezes."

Liat estava preocupada. Não sabia se sua família se daria bem com a família de Baruch - seus pais haviam se mudado do Marrocos para Israel, enquanto Vlad e Julia vieram da Rússia. "As duas famílias são culturalmente muito diferentes", diz ela.

Até aquele momento, ela nem sequer havia comentado com a mãe sobre o encontro que teve com Vlad e Julia e o plano de se tornar a mãe do neto deles.

"Eu não queria o peso das opiniões dos outros, especialmente da minha mãe, então mantive (essa parte) em segredo", diz ela. "Mas quando liguei para contar a ela que eu estava grávida ela ficou feliz - pelo menos eu iria ter um filho!"

A gravidez de Liat evoluiu, mas suas dúvidas não diminuíram. Ela estava estressada demais e não conseguia lidar com a necessidade de ter que estabelecer um relacionamento com Vlad e Julia, ao mesmo tempo em que tentaria criar um bebê. À noite, sonhava com como seria o seu filho.

Julia também estava preocupada. Ela queria se aproximar mais de Liat, mas tinha que respeitar a vontade da mulher e manter distância.

"Eu conversei com uma mulher da minha família que é muito sábia, e ela disse: 'Deixe ela ter o filho e depois tudo vai ficar bem'", diz Julia.

Quando Liat entrou em trabalho de parto, não se sentiu à vontade para ligar para Julia e pediu à própria mãe que não fosse ao hospital naquela noite, já que o médico avaliou como improvável que o bebê nascesse antes de amanhecer.

"Mas à meia-noite ela (sua mãe) teve um pressentimento, pegou um táxi e chegou ao hospital no último minuto", diz Liat. "Fiquei muito feliz por ela ter vindo. Ela ficou tão emocionada que nem conseguiu falar. Duas das minhas irmãs também estavam comigo, e uma outra que mora nos EUA acompanhou pelo Skype. Foi uma experiência realmente incrível", diz ela.

Shira nasceu em 1º de dezembro de 2015, mais de sete anos depois da morte do pai.

"Ela era exatamente como eu sonhava", diz Liat. "Era inacreditavelmente linda."

Liat ligou para Vlad e Julia para contar a novidade.

"Eu senti que meu coração começou a bater de novo pela primeira vez desde a perda terrível que sofri", diz Julia.

LIAT MALKA
Shira em dezembro de 2018: Menina, segundo a mãe, nasceu com os olhos do pai Imagem: LIAT MALKA

As fotos de Baruch que Julia levou quando encontrou Liat pela primeira vez agora estão no apartamento de Liat e Shira na cidade de Ashkelon, em Israel. Elas costumam olhar as imagens juntas, conversando sobre o homem retratado ali, sorrindo de volta para elas. Liat aponta para os olhos azuis de Baruch, iguais aos de Shira.

"Um dia ela me disse: 'Talvez logo ele bata na porta e venha aqui ver a gente'", lembra Liat. "Então eu respondi que 'não, ele não virá'".

Shira está atualmente com três anos. A mãe diz que às vezes se preocupa com o fato de ela não ter o pai.

"Mas hoje você tem tantos tipos de famílias", diz Liat, "A nossa é apenas mais uma. Shira sabe que não tem pai, mas é muito amada e é muito feliz."

Julia realizou o desejo do seu filho - e tem certeza de que Baruch amaria a filha.

"Ela é linda, inteligente, feliz. Ela é tudo o que você poderia querer de uma criança", diz Julia. "Ela é perfeita, é realmente perfeita."

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