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Presidente do Senado defende boicote a eventual primeiro-ministro de esquerda na França

11/07/2024 13h18

O presidente do Senado francês, Gérard Larcher, da direita republicana, disse nesta quinta-feira (11) que se opõe categoricamente à nomeação de um primeiro-ministro da Nova Frente Popular (NFP) de esquerda, vencedora do segundo turno das legislativas, mas sem ter conquistado a maioria absoluta na Assembleia dos Deputados. "Se o presidente da República fizer esta escolha, vou defender que este governo seja derrubado", anunciou Larcher, em entrevista ao canal BFMTV. 

Um primeiro-ministro indicado pela aliança de esquerda, formada por socialistas, ecologistas, comunistas e membros da França Insubmissa (LFI), sigla de esquerda radical, "não corresponde ao desejo profundo dos franceses", argumentou Larcher. O presidente do Senado considera que a NFP chegou em primeiro lugar nas eleições "em um contexto de bloqueio à extrema direita", representada pelo partido Reunião Nacional (RN), de Marine Le Pen, e aliados. Ele justificou sua posição pelo "ódio da França Insubmissa aos policiais franceses" e a proposta de retorno da idade mínima da aposentadoria para 60 anos, contra os 64 anos aprovados na última reforma da Previdência.

O senador, que se recusa a ser primeiro-ministro, mas criticou Emmanuel Macron pela dissolução da Assembleia Nacional, defendeu "mais tempo" para as articulações políticas e a manutenção de Gabriel Attal na chefia do governo por dois meses. "Passemos pelo importante período em que acolhemos o mundo nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos e então, no início de setembro, damos início à fase de estabelecer as consequências destas eleições", ponderou Larcher.

Depois de se reunir na terça-feira com Macron e comunicar ao presidente seu posicionamento, o presidente do Senado ainda disse que é a favor de uma "linha independente" para o seu partido, que já foi rebatizado na Assembleia de 'A Direita Republicana', após o racha que levou parte dos deputados conservadores a aderir ao programa da extrema direita no segundo turno. "Esta linha independente nos dá a possibilidade de propor, votar, apoiar ou censurar, e esse é o papel do Parlamento", afirmou Larcher na entrevista.

O secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, denunciou imediatamente o "sectarismo e cinismo" do presidente do Senado, "contrário à volta da esquerda ao poder".

Na quarta-feira (10), Macron atiçou ainda mais os ânimos ao publicar uma carta aos franceses, na qual afirmou que "ninguém ganhou" as legislativas. No texto, ele acrescenta que só "decidirá sobre a nomeação do primeiro-ministro" quando as forças políticas tiverem "construído compromissos", (...) "o que pode levar tempo". 

Negar que a esquerda venceu o segundo turno foi a gota d'água para a líder da bancada da França Insubmissa na Assembleia, Mathilde Panot, declarar que Macron "dá um golpe de força" contra a democracia.

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Rachas e paralisia

Quatro dias depois do anúncio dos resultados das eleições, o cenário político francês continua parasitado por disputas e rachas internos entre as forças republicanas. A esquerda e o bloco macronista afastaram a extrema direita do governo, mas com bancadas muito aquém da maioria de 289 deputados exigida na Assembleia, ambos ficam em situação de vulnerabilidade para governar.

Deputados da França Insubmissa já anunciaram que tentam formar um grupo independente na Assembleia, por discordar da estratégia do líder Jean-Luc Mélenchon, que fez uma série de expurgos na campanha e não abre mão de emplacar um primeiro-ministro do seu círculo. Entre os macronistas, a maioria defende um acordo com a direita republicana, mas um grupo de deputados da legenda presidencial ameaça debandar para o Partido Socialista, caso o presidente prefira nomear um chefe de governo de direita. 

Os dois campos permanecem irredutíveis na negociação de um programa mínimo de governo, principalmente na área econômica. Constitucionalistas e cientistas políticos têm alertado que qualquer governo minoritário, seja de esquerda ou de centro-direita, ficará sujeito a sucessivas moções de censura.

Por outro lado, conforme a Constituição francesa, o chefe de Estado não tem prazo para nomear um primeiro-ministro. No caso de fracasso na construção de uma coalizão parlamentar, ainda sobra para Macron a cartada de nomear um governo técnico até junho do ano que vem, quando terá os poderes renovados para fazer uma nova dissolução e reconvocar eleições. 

Desde o início dessa crise desastrosa para a França, Macron excluiu uma coalizão parlamentar que considerasse a extrema direita e a esquerda radical. Assessores palacianos lançaram a proposta de um arco-íris parlamentar que fosse de comunistas, socialistas, verdes, passando pelos centristas, a centro-direita até a direita conservadora, mas em um país sem a menor tradição de compromisso, como existe em outros países da Europa. Uma parte dos franceses se entusiasma com essa ideia, mas, na prática, a postura de luta ideológica entre correntes políticas prevalece.

Diante do impasse, a Confederação Geral do Trabalho convocou uma manifestação para 18 de julho, em frente à Assembleia Nacional e sedes administrativas do Estado, "para exigir que os resultados eleitorais sejam respeitados".

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