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UE demonstra irritação com visitas de Orban a Moscou e Pequim

10/07/2024 06h16

A recente viagem do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, que o levou à Rússia e China provocou uma profunda irritação nos países e instituições da União Europeia (UE), que destacaram que ele não tinha mandato para falar em nome do bloco.

A irritação foi agravada porque a Hungria assumiu, em 1º de julho, a presidência semestral da UE e pelo sentimento generalizado de que a viagem não foi devidamente apresentada como uma iniciativa estritamente bilateral.

Os ministros das Relações Exteriores da UE têm uma reunião programada esta semana em Bruxelas e vários diplomatas afirmaram que pretendem questionar os húngaros sobre a viagem.

"Orban está 'trolando' e jogando... Queremos mostrar um cartão amarelo para ele e afirmar que vemos através de seus jogos", disse uma fonte diplomática que pediu anonimato.

Outro diplomata europeu disse que "as tensões são muito elevadas" e recordou que, nas reuniões, Orban utilizou o logotipo de seu país como presidente do Conselho da UE, um detalhe que deu um caráter ambíguo aos encontros na China e na Rússia. 

Um diplomata de uma nação influente da UE comentou que "vários países, como Polônia, Alemanha e os países bálticos, querem traçar linhas no chão. Há várias ideias sobre a mesa, mas nada de concreto por enquanto".

Apesar da irritação, as fontes minimizaram os boatos sobre uma possível redução do período da presidência húngara à frente da UE, para que a próxima nação da lista, a Polônia, inicie a sua gestão em setembro.

Um diplomata disse que a possibilidade era apenas uma "especulação". "Nenhum país a mencionou".

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, disse que Orban "tem todo o direito do mundo de fazer as viagens bilaterais que deseja, mas desde que não fale em nome da Europa. Ele não foi a Moscou em nome da Europa".

- "Confusão" -

Para piorar a situação, Orban mencionou as viagens na rede social X como uma "missão de paz", o que levou as instituições europeias a insistir que ele não tem mandato para negociar nada em nome do bloco.

Um porta-voz da Comissão Europeia - o Executivo da UE - disse que Orban não poderia falar em nome da UE e, menos ainda, atuar como mediador entre Ucrânia e Rússia, porque um mandato do tipo deveria ser concedido pelas partes em conflito.

Na terça-feira foi revelado que Orban enviou ao atual presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, uma carta com detalhes dos comentários feitos por Vladimir Putin durante sua reunião em Moscou, a respeito da guerra na Ucrânia. 

Orban garantiu a Michel que em suas conversas com Putin não apresentou "nenhuma proposta nem articulou qualquer opinião em nome do Conselho Europeu ou da União Europeia".

"A proposta de paz China-Brasil está sendo considerada pelo lado russo e estão preparados para trocar opiniões", destacou Orban, que não revelou detalhes do plano.

A primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas - que será a próxima chefe da diplomacia do bloco -, foi enfática ao afirmar que que o premiê húngaro "não representa a UE de nenhuma maneira. Ele explora a presidência da UE para semear confusão".

As viagens de Orban no início da presidência semestral rotativa da UE surpreenderam várias capitais.

Tradicionalmente, quando um país assume a presidência do Conselho da UE, recebe a visita de todos os comissários europeus e dos jornalistas credenciados em Bruxelas.

A Hungria recebeu um grupo de jornalistas na semana passada, mas nenhum comissário visitou Budapeste, já que Orban iniciou a polêmica viagem de maneira quase imediata.

A tradição também determina que o Parlamento Europeu convide o governante do país que exerce a presidência a apresentar as prioridades da sua gestão, mas no caso de Orban o discurso foi adiado para um dia ainda não definido de setembro. 

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© Agence France-Presse

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