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Detenções israelenses assustam jornalistas palestinos na Cisjordânia

Soldados israelenses em operação no campo de refugiados de Tulkarem, na Cisjordânia. - Forças de Defesa de Israel
Soldados israelenses em operação no campo de refugiados de Tulkarem, na Cisjordânia. Imagem: Forças de Defesa de Israel

10/07/2024 04h22

Após o ataque do Hamas em 7 de outubro, o repórter fotográfico palestino Moath Amarneh foi detido pelas forças israelenses na Cisjordânia ocupada e levado para a prisão. Ele passou quase nove meses preso e foi libertado na terça-feira (9), sem ter sido acusado ou processado.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) documentou 51 profissionais palestinos da imprensa, incluindo Amarneh, detidos por Israel em Gaza e na Cisjordânia desde o início da guerra.

O jornalista independente de 37 anos foi colocado em "detenção administrativa", uma figura jurídica que permite que suspeitos sejam detidos sem acusação formal por períodos renováveis de até seis meses.

Seu período inicial foi reduzido a cinco meses, mas depois renovado em março por quatro meses.

Mohammed Laham, da União de Jornalistas Palestinos, afirmou que "90% dos jornalistas detidos estão em detenção administrativa", incluindo cinco mulheres.

Após sua libertação, Amarneh foi transferido para um hospital por sua condição de saúde, segundo sua família.

Amarneh foi detido em sua casa no campo de refugiados de Dheisheh, em Belém, afirmaram parentes.

Em 2019, ele foi ferido por uma bala de borracha disparada pelas forças israelenses quando cobria um protesto contra o confisco de terras e, desde então, utiliza uma prótese ocular.

Mas ele não estava com a prótese na prisão e sua família não foi autorizada a visitá-lo, afirmou sua esposa Walaa Amarneh à AFP, antes da libertação.

Ela disse que a família foi autorizada apenas a enviar 500 shekels israelenses (135 dólares, 730 reais) a Amarneh para ele comprasse óculos depois o dele "quebrou devido ao assédio dos soldados israelenses".

O Serviço Israelense Penitenciário não comentou o caso de Amarneh após um pedido da AFP.

O conflito mais perigoso

Com a guerra em Gaza, a violência e a tensão aumentaram na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967.

O ataque de 7 de outubro que iniciou a guerra matou 1.195 pessoas, a maioria civis, segundo um levantamento da AFP com base em dados oficiais israelenses.

Os combatentes do Hamas também sequestraram 251 reféns. O Exército israelense calcula que 116 pessoas permanecem em cativeiro em Gaza, incluindo 42 que estariam mortas.

A ofensiva israelense em represália matou pelo menos 38.243 pessoas em Gaza, também em sua maioria civis, segundo o Ministério da Saúde do território palestino, governado pelo Hamas.

Jornalistas palestinos na Faixa de Gaza arriscam suas vidas para informar o mundo sobre a morte e a destruição no conflito, ao mesmo tempo que tentam proporcionar segurança a seus entes queridos.

A guerra entre Israel e o Hamas virou o conflito mais perigoso para os jornalistas, segundo o CPJ, que até 8 de julho registrou 108 profissionais da imprensa mortos e 32 feridos, a maioria palestinos em Gaza.

Mas os jornalistas na Cisjordânia também enfrentam o risco de cobrir as incursões israelenses cada vez mais frequentes nas comunidades palestinas, que muitas vezes resultam em confrontos mortais.

Segundo as autoridades palestinas, ao menos 572 palestinos na Cisjordânia morreram desde 7 de outubro em ações de soldados ou colonos israelenses.

A ONG Clube de Prisioneiros Palestinos afirmou que Israel também anunciou a detenção de jornalistas "por suposta provocação na imprensa (...) e nas redes sociais".

"As ferramentas da liberdade de opinião e expressão viraram ferramentas para atacar jornalistas e palestinos em geral", afirmou a organização.

"Pensamos duas vezes"

Em novembro, outra jornalista independente da Cisjordânia, Somaya Jawabreh, foi detida por suposta incitação à violência em uma série de publicações no Facebook.

A AFP não conseguiu verificar as mensagens porque o perfil da jornalista no Facebook foi apagado, mas o seu marido, o jornalista Tariq Youssef, afirmou que o tribunal criticou sua menção ao ataque de 7 de outubro.

A jornalista foi liberada após uma semana porque estava grávida de sete meses e ficou em prisão domiciliar.

Também teve que pagar uma fiança de 50 mil shekels, foi proibida de falar com a imprensa, assim como de utilizar um telefone celular e a internet.

"Ela perdeu o emprego devido às condições", disse Youssef. "O futuro profissional dela acabou".

Moussab Shawar, um repórter fotográfico que colabora com a AFP, foi detido em novembro ao lado de dois colegas no sul da Cisjordânia por encontros com prisioneiros palestinos liberados por Israel durante uma trégua em Gaza.

Em um posto de controle israelense, "o veículo foi apreendido e revistado, os documentos de identidade foram verificados, os telefones foram confiscados", recorda Shawar, de 33 anos.

O jornalista conta que o grupo foi algemado, teve os olhos vendados e só foi liberado após sete horas.

"Com a guerra, agora tudo dá medo", declarou.

"Pensamos duas vezes antes de decidir a nossa cobertura".

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