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Meta de inflação pode aumentar desigualdade social, dizem economistas

Com o aumento da desigualdade social no pais, familias entram no mapa da fome e dependem de doação para se alimentar. - Ricardo Borges/UO
Com o aumento da desigualdade social no pais, familias entram no mapa da fome e dependem de doação para se alimentar. Imagem: Ricardo Borges/UO
do UOL

do UOL, em São Paulo

09/07/2024 04h00

A meta de inflação é uma política que entrou em vigor no país em 1994 e que tem como objetivo manter a inflação dentro de um patamar desejado. Recentemente, ela passou por uma mudança e deverá ser contínua, ou seja, cumprida todos os meses e não só ao final do ano. No entanto, economistas ouvidos pela reportagem de UOL Economia destacam que esse dispositivo pode ajudar a aprofundar desigualdades sociais no país.

O que aconteceu

A inflação se refere à capacidade de compra de uma moeda. Por exemplo, se antes com R$ 100 você poderia comprar quatro produtos e agora consegue comprar apenas três, significa que essa moeda perdeu poder de compra.

Em último levantamento, a inflação subiu 0,46%. No ano, a inflação acumulada é de 2,27% e, nos últimos 12 meses, de 3,93%, ou seja, dentro da meta do governo de 3% - definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) - com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Mesmo dentro da meta, contudo, economistas acreditam que a inflação será de 4% em 2024.

Para controlar, então, essa perda de valor da moeda, o Banco Central costuma aumentar os juros. Essa política, contudo, não é a única capaz de conter a inflação de um país.

O Copom (Comitê de Política Monetária) definiu que a taxa Selic permaneceria em 10,5% ao ano. A decisão foi justificada como forma de conter o aumento da projeção da inflação.

A taxa Selic não é apenas um indicador econômico abstrato; ela afeta diretamente o bolso dos brasileiros, influenciando o custo do crédito e moldando as decisões financeiras individuais.
Hamilton Ribas, CEO da empresa de crédito Limite na Hora

Quem sofre com aumento de juros?

Quando o juros aumenta, fica mais difícil comprar à prestação, fazer um financiamento de uma casa ou de um carro, ou pedir um empréstimo. Um dos objetivos é justamente coibir gastos e, assim, diminuir a inflação. Mas, nesses casos, segundo a economista Regiane Vieira Wochler, os mais atingidos são as pessoas com menor renda.

O desemprego é outra consequência que, segundo a economista, afeta pessoas de baixa renda em um cenário de aumento de juros. "Ao aumentar os juros, o BC pode reduzir a demanda, pois consumidores e empresas terão menos incentivo para gastar e investir. Isso pode levar a um aumento do desemprego, já que a atividade econômica diminui", completa Felipe Nascimento, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

No entanto, para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o pleno emprego é algo que pode fazer com que a inflação aumente. Isso porque as pessoas passariam a consumir mais, pressionando o preço de bens e serviços.

Quando os juros aumentam, há uma entrada de capital estrangeiro, o que reduz a pressão inflacionária ao tornar as importações mais baratas e diminuir os incentivos para exportar. Isso aumenta a oferta de produtos no mercado interno.
Felipe Nascimento, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas)

O aumento de um ponto percentual na taxa Selic aumenta o desemprego de homens negros em 1,22 pontos percentuais em relação a homens brancos. Isso é o que mostra uma pesquisa divulgada em 2023 pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP.

A alta da taxa de juros pode ser uma das principais vilãs desta desigualdade racial também. De acordo com a pesquisadora que fez parte do estudo, Clara Brenk, a questão da vulnerabilidade no nível de ocupação pode justificar esse impacto maior em homens negros.

Diminui consumo para mais pobres, aumenta rendimento de investidores

Entre os objetivos do aumento da taxa básica de juros está a redução do consumo. Esse revés também, segundo os especialistas ouvidos, atinge mais as famílias mais pobres uma vez que elas precisam gastar mais para pagar dívidas.

A queda no consumo também pode prejudicar negócios menores. Localizados em bairros ao invés dos grandes centros, esses negócios dependem de clientes de baixa renda, o que impacta negativamente a economia local e o emprego.

Por outro lado, investidores mais ricos podem ver um aumento em seus rendimentos. Eles costumam ter uma quantidade significativa de dinheiro aplicada em instrumentos de renda fixa, como títulos do governo, CDBs e fundos de renda fixa, que tendem a oferecer retornos maiores quando a taxa Selic aumenta.

Proprietários de imóveis alugados também podem se beneficiar. Isso porque pode ocorrer um aumento na demanda por aluguel à medida que o financiamento imobiliário se torna mais caro e menos pessoas compram imóveis.

Quem sofre com o aumento da inflação

Por outro lado, uma inflação alta e descontrolada também aumenta desigualdades de renda. Conforme explica a economista e professora do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), Juliana Inhasz, todo mundo perde poder de compra quando há um processo inflacionário.

No entanto, os mais pobres sofrem mais. Pessoas que têm renda mais baixa, ou seja, as que acabam gastando tudo que ganham para sobreviver - com aluguel, transporte, alimentação, saúde e educação - vão sofrer mais.

Aquele salário que elas ganham já não vai ser suficiente para comprar aquilo que é essencial, diferente do cenário de uma parte da sociedade que consegue guardar dinheiro, que não gasta tudo o que ganha sua subsistência, porque essas pessoas têm algum tipo de reserva, provavelmente continuarão consumindo o que já consumiam.
Juliana Inhasz, economista e professora no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)

A inflação descontrolada também gera desigualdades. "Quando você tem uma inflação sob controle, ainda que o crédito esteja mais caro, as pessoas conseguem bancar sua subsistência. É uma situação diferente daquela em que a inflação fica desenfreada e as pessoas de renda mais baixa perdem a possibilidade de adquirir", diz a economista.

Meta de inflação: para que serve?

A meta de inflação faz parte do tripé macroeconômico que orienta a política econômica do Brasil. "Ele consiste em metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Esse tripé é utilizado para garantir estabilidade e credibilidade ao setor privado, incentivando investimentos tanto a curto quanto a longo prazo", explica o economista e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) Giliad de Souza Silva.

Essa política foi encabeçada pelo economista Armínio Fraga, que havia sido nomeado presidente do Banco Central em 1999. Ela, no entanto, não é a única capaz de ter as consequências de confiança do investidor e estabilidade econômica desejada.

Definimos um regime de metas de inflação que, acho, vem sendo útil ao país, e espero que seja preservado.
Pedro Malan ex-ministro da Fazenda e presidente do Banco Central no período de implantação do Plano Real em entrevista à Folha de S.Paulo.

Boa parte dos países, sim, adotam a meta de inflação, que faz parte do tripé, como política de controle de inflação, mas nem todos a usam ou a usam explicitamente.

A China, por exemplo, está mais preocupada com seu crescimento. "A China foca mais em metas de crescimento econômico, o que não significa que haja desequilíbrios inflacionários no país", diz Giliad de Souza. Além do país asiático, Suíça, Estados Unidos e Singapura são outros exemplos de países que não adotam essa medida de forma explícita dando maior importância para outros indicadores como taxa de câmbio, por exemplo.

As políticas não são perfeitas, existem sempre custos para se fazer políticas assim, mas eu acho que de todos os custos certamente os que saem da meta de inflação são os menores.
Juliana Inhasz, economista e professora no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa)

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