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Documentário acompanha cientistas brasileiros perseguidos e analisa consequências do negacionismo

09/07/2024 15h36

O embate entre o negacionismo vigente e a tentativa de sobrevivência de cientistas brasileiros é o assunto do documentário "Ciência na Mira", do diretor Rafael Figueiredo, que esteve em Paris para estudar o assunto. Em entrevista à RFI Brasil, ele fala sobre os riscos do complotismo e da negação de fatos científicos para o avanço das pesquisas em diversos setores, como saúde, agricultura e educação. 

O embate entre o negacionismo vigente e a tentativa de sobrevivência de cientistas brasileiros é o assunto do documentário "Ciência na Mira", do diretor Rafael Figueiredo, que esteve em Paris para estudar o assunto. Em entrevista à RFI Brasil, ele fala sobre os riscos do complotismo e da negação de fatos científicos para o avanço das pesquisas em diversos setores, como saúde, agricultura e educação. 

Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

O longa-metragem de 80 minutos propõe um mergulho em temas científicos controversos da atualidade e na trajetória de quatro cientistas brasileiros que, como o filme retrata, colocam suas vidas em risco e para defender o seu trabalho.

"Existem pesquisadores cientistas brasileiros que, em função do seu ofício, do seu trabalho e dedicação de uma vida inteira em benefício da sociedade brasileira, acabam sendo atacados ou têm suas pesquisas contestadas", explica o diretor. "Eles são política ou economicamente sufocados, para que não sigam à frente e, muitas vezes, a ponto de sofrerem ameaças, constrangimento, de terem que andar com escolta policial e, em casos mais extremos, como os da Larissa Bombardi e da Débora Diniz, serem obrigados a sair do país", explica.

Rafael destaca que questionar alguma coisa é muito diferente de negar uma verdade comprovada. O filme mostra a trajetória de quatro personagens com histórias bastante diversas: "a geógrafa Larissa Lombardi tem uma pesquisa extensiva sobre o uso de agrotóxicos no Brasil, enquanto Débora Diniz se notabilizou como uma defensora dos direitos reprodutivos das mulheres e, principalmente, por um discurso em favor do aborto, o que despertou o ódio de certos setores brasileiros", cita. "Marcos Lacerda é um pesquisador da Fundação de Medicina Tropical em Manaus e que liderou uma das maiores pesquisas mundiais sobre o uso da cloroquina, logo no início da pandemia de Covid-19, agregando mais de 120 pesquisadores. E ele conseguiu mostrar que a cloroquina não tinha eficácia alguma", lembra. 

O quarto pesquisador retratado no documentário é Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que coordenou um estudo sobre o desmatamento. "Ricardo usou métodos rigorosíssimos, observando a situação das queimadas ano a ano, e foi contestado publicamente pelo então presidente Bolsonaro", aponta Figueiredo. "Ele foi demitido quase ao vivo e com aquelas acusações conhecidas de ter ligações com ONGs, de estar a serviço de uma certa conspiração internacional", aponta.

"O meu lado é o da ciência"

O filme alerta para os riscos de "equiparação do discurso" quando se trata de contestação da ciência. "De repente, um pesquisador que há 30 anos estuda determinado assunto acaba tendo o mesmo peso do que um ativista de YouTube e de redes sociais que vai dizer: como assim uma vacina leva só dois anos vai ficar pronta? Isso nunca foi assim", exemplifica, citando a descrença inicial sobre a eficácia da vacina contra a Covid-19.

O documentário "Ciência na Mira" analisa as consequências do negacionismo vigente para a sociedade brasileira. "A gente já está vendo algumas consequências, já que a opinião passou a vigorar muito no discurso social", observa. "Não se trata de opiniões, apenas. Pois as pessoas podem ter a opinião que quiserem, mas não podem ter os fatos que quiserem", explica.

Figueiredo tem expectativa de que o filme possa ter um impacto sobre essa crise de valores. "Eu gostaria que o meu filme fosse visto além de um certo nicho. Eu quero que ele passe na academia, nas universidades, que tenha uma boa trajetória em festivais. Mas eu desejo mesmo, francamente, que ele seja visto nas escolas, que ele seja debatido por um público amplo", espera o diretor. 

Figueiredo explica como escolheu esses quatro personagens e como foi o trabalho de acompanhá-los para a realização do roteiro. "As histórias são bastante conhecidas de boa parte do público, mas a gente entendeu que eram histórias representativas e bastante simbólicas", explica. "E como não existia nenhum documentário similar a este, achamos que não tinha porque sair atrás de casos desconhecidos", continua. "Resolvemos agrupar essas histórias já conhecidas, pois juntas elas podem ter um impacto maior", acredita. "Usamos um conjunto de dispositivos, como entrevistas e imagens, para tentar passar um pouco dessa sensação do que é viver sob risco, do que é viver sob perigo", completa.

O filme mostra um Brasil muito polarizado. "Eu tenho um lado nessa história, que é o lado da ciência. Não se trata aqui de uma ideologia política", posiciona-se o diretor. "Eu não vou dar voz para essas pessoas [negacionistas]. Elas não merecem voz", acrescenta. "Talvez dois anos atrás, a gente achasse que com a mudança de governo todos os nossos problemas estariam resolvidos. Mas o governo é só uma parte, né? O governo é só uma parte da sociedade, e esta é mais ampla do que o governo", conclui.

(Para ver a entrevista na íntegra, clique na foto principal)

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