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Perigo invisível: caixa d'água esconde ameaças à saúde que você nem imagina

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Imagem: Getty Images
do UOL

Alexandre Raith

Colaboração para VivaBem

09/07/2024 04h07

Qual foi a última vez que você limpou a caixa d'água? Se não se lembra ou já faz mais de seis meses, os moradores da casa correm risco de contrair diversas doenças. A sujeira acumulada no reservatório provoca a proliferação de microrganismos nocivos à saúde.

As companhias de saneamento básico são responsáveis pelo fornecimento de água, coleta e tratamento de esgotos, para garantir a potabilidade do líquido que chega a cada estabelecimento. Mas nada adianta se a caixa estiver contaminada com vírus, bactérias, fungos ou parasitas.

A água infectada, a mesma que você usa para lavar a louça, limpar alimentos, escovar os dentes e tomar banho —há ainda quem a tome diretamente da torneira— pode causar dor de barriga, enjoo e vômito, além de doenças graves.

Algumas delas são transmitidas pela ingestão de água contaminada, como cólera, hepatite A e giardíase.

Outras são contraídas pelo contato da pele ou mucosas, como leptospirose, caso o líquido esteja infectado por fezes ou urina de animais.

Já a falta de vedação do reservatório ajuda na proliferação de ovos do mosquito da dengue.

Por estar geralmente localizada no telhado, os moradores se esquecem de higienizá-la. Mas lembre-se daquilo que todos nós aprendemos ainda pequenos na escola: a água potável é insípida, incolor e inodora, isto é, não tem sabor, cor ou cheiro.

Qualquer alteração das propriedades físico-químicas da água, como presença de coloração e odor, significa que está imprópria para consumo.

Outro alerta é a frequência de casos de viroses entre os moradores da casa. E atenção aos filtros e purificadores. Para barrar os microrganismos que causam doenças, a capacidade de filtração do equipamento deve ser de 0,1 a 0,4 micron.

A reprodução de agentes patogênicos na água da caixa aumenta o risco de transmissão das seguintes doenças:

Cólera

A cólera é uma doença bacteriana infecciosa intestinal aguda, cujo agente causador é a bactéria Vibrio cholerae. Ao afetar o intestino delgado, provoca cãibras, dor abdominal, vômito e diarreia. Como consequência, a desidratação pode se tornar intensa e levar à morte, se não tratada corretamente, devido a complicações da função renal, da circulação e do equilíbrio de água e minerais no corpo. Idosos, diabéticos, desnutridos, gestantes e portadores do vírus HIV e com patologia cardíaca estão entre o grupo de risco.

Hepatite A

A infecção se dá pelo vírus A (HAV) da hepatite, que ataca o fígado e pode ser letal com o avanço da idade. Fadiga, febre, dores musculares, enjoo, vômito, diarreia, urina escura e olhos amarelados são os principais sintomas, que surgem de 15 a 50 dias após a contaminação e permanecem por até dois meses.

Esquistossomose

Caramujo do gênero Biomphalaria, que transmite esquistossomose - Keila Maia/CPqRR/Fiocruz Minas - Keila Maia/CPqRR/Fiocruz Minas
Imagem: Keila Maia/CPqRR/Fiocruz Minas

Conhecida como doença do caramujo, é transmitida pelo parasita Schistosoma mansoni. O período de incubação é de duas a seis semanas, quando o indivíduo contaminado passa a ter diarreia, prisão de ventre, sangue nas fezes, falta de apetite, dor muscular, febre, tonturas, sensação de estômago, coceira anal e perda de peso. A evolução da doença pode ser grave e causar aumento do volume do fígado, baço e abdome, além de hemorragia digestiva e hipertensão pulmonar. Nestes casos, há risco de morte.

Leptospirose

A bactéria Leptospira presente na urina infectada de animais, sobretudo ratos, penetra na pele por lesões, mucosas ou longa exposição. O intervalo entre a transmissão e o início dos sintomas varia entre 7 e 14 dias. Inicialmente, gera febre, dor de cabeça e muscular, falta de apetite, vômito, diarreia e tosse. Em seguida, ocorre aumento do fígado e baço e edema da conjuntiva do olho. Nos quadros graves, podem ser detectados síndrome de Weil e insuficiência renal e pulmonar, com possibilidade de hemorragia. Nestes quadros, a letalidade pode chegar a 40%.

Giardíase

Altamente transmissível por meio das fezes de animais, a infecção ocorre pela ingestão de cistos do protozoário Giardia lamblia. A possibilidade de contrair a doença aumenta em quatro vezes em casos de consumo de água imprópria. Afeta o intestino delgado e causa sintomas como diarreia, fadiga, cólicas abdominais, gases, náusea, vômito, inchaço e desidratação, por até três semanas. Desidratação, má absorção de nutrientes, perda de peso, anemia e comprometimento cognitivo estão entre as consequências mais graves.

Amebíase

A infecção parasitária é transmitida pela ameba Entamoeba histolytica, cujos cistos se alojam no cólon e produzem inflamação no intestino. As manifestações aparecem de uma a três semanas após a ingestão do protozoário. As principais são febre, diarreia, dor de estômago, fezes com sangue, cólicas abdominais e perda de apetite. Na fase avançada, pode atingir outros órgãos e tecidos via circulação sanguínea e causar abscessos no fígado, pulmões ou cérebro. A falta de tratamento pode ser fatal.

Dengue

Mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. - Brasil Escola - Brasil Escola
Imagem: Brasil Escola

Neste caso, o perigo não advém do consumo ou ingestão de água contaminada, mas da falta de vedação e limpeza do reservatório. A fêmea do mosquito Aedes aegypti —vetor da dengue, chikungunya e zika— usa a água para procriar. Portanto, a caixa destampada facilita o depósito de ovos e a disseminação da doença. Além de febre alta, provoca dores de cabeça, musculares, articulares e atrás dos olhos, além de hemorragia em caso de piora do quadro. Gestantes, crianças de até 2 anos e idosos correm mais riscos.

Como limpar a caixa d'água?

A higienização do reservatório de água deve respeitar um procedimento específico, para garantir a eliminação da sujeira e dos microrganismos.

Por exemplo, escova de aço, sabão e detergente estão vetados. Um ponto importante é manter a caixa sempre tampada, para impedir a entrada de ratos, urina de animais, insetos ou mesmo de sujeira. Outra dica é anotar a data da próxima limpeza, que deve ser feita a cada seis meses. E lembre-se de cuidar das instalações hidráulicas, a fim de evitar contaminação no caminho do líquido até a torneira.

Confira o passo a passo de como limpar corretamente:

  1. Feche o registro de entrada da água ou amarre a boia da caixa d'água.
  2. Limpe a tampa da caixa d'água e a remova.
  3. O registro de entrada da água poderá ser fechado um dia antes da limpeza, para você utilizar toda a água armazenada e evitar o desperdício.
  4. Mantenha um palmo de água no fundo da caixa e tampe a saída. Essa medida evitará que a sujeira escoe pelo ralo.
  5. Utilize um pano úmido para lavar o interior da caixa. Caso ela seja de fibrocimento, substitua o pano por uma escova de fibra vegetal ou de cerdas de plástico macias. Não use escova de aço, vassoura, sabão, detergente ou outros produtos químicos.
  6. Retire a água da limpeza e a sujeira utilizando uma pá de plástico, balde e panos. Seque o fundo com um pano limpo e evite passá-lo nas paredes.
  7. Quando a caixa estiver seca e com a saída ainda fechada, deixe entrar um palmo de água e adicione 2 litros de água sanitária (proporção para caixa d'água de mil litros).
  8. Deixe a solução desinfetante repousar por duas horas. Com a ajuda de um balde, utilize essa mesma solução para molhar as paredes internas e da tampa. Verifique a cada 30 minutos se as paredes secaram. Em caso positivo, aplique a mistura quantas vezes forem necessárias, até completar duas horas.
  9. Passado esse período, ainda com a boia amarrada ou com o registro fechado, abra a saída da caixa e a esvazie. Abra todas as torneiras e acione as descargas para desinfetar as tubulações da casa.
  10. Abra o registro ou desamarre a boia e deixe a caixa d'água encher.
  11. Tampe bem a caixa para que não entrem insetos, sujeiras ou animais. Isso evita a transmissão de doenças.
  12. Abra a entrada de água da casa e deixe a caixa encher. A água já pode ser usada. (Fonte: Sabesp).

Fontes: Haydee Marina do Valle Pereira, infectologista da Santa Casa de Campo Grande (MS); Alessandro Henrique Tavares de Farias, infectologista do Hospital Português (BA); Vanessa Infante, infectologista do Hospital Santa Catarina - Paulista (SP); Sabesp e Ministério da Saúde.

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