Topo
Notícias

OPINIÃO

Apoiada pelos '4 do Lula', ata endurece e até acena com altas nos juros

do UOL

Colunista do UOL

25/06/2024 15h57

Das 2.300 palavras e dos 22 parágrafos contidos na ata da reunião de junho do Copom (Comitê de Política Monetária), publicada pelo Banco Central nesta terça-feira (25), o que importa mesmo são as menos de 30 palavras da frase final do parágrafo 21.

"O Comitê se manterá vigilante e relembra, como usual, que eventuais ajustes futuros na taxa de juros serão ditados pelo firme compromisso de convergência da inflação à meta." Trecho da ata do Copom de junho de 2024

Traduzida do "coponês" — o idioma peculiar e específico das comunicações do Copom —, a mensagem é a de que a taxa básica de juros (taxa Selic) permanecerá inalterada pelo menos meados de 2025, podendo até mesmo subir no período. A expressão "vigilante", inserida na ata, é usada, na língua dos bancos centrais, para indicar que, se for preciso, a taxa subirá. A taxa Selic foi mantida em 10,5% nominais ao ano, na reunião de junho, interrompendo um ciclo de cortes de de 3,25 pontos percentuais, iniciado em agosto de 2023.

Avaliações unânimes

Essa disposição, unanimemente compartilhada pelos nove diretores do BC integrantes do colegiado que decide o nível dos juros básicos na economia, sinaliza a percepção de que existem motivos para temer pressões altistas na inflação. Tais pressões poderiam ser capazes de fazê-la se distanciar do centro da meta de inflação, fixado em 3% para 2024 e anos seguintes, embora não a ponto de escapar do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, definido em 4,5%.

A unanimidade é outro ponto de destaque da ata. Numa tentativa de recuperar a credibilidade abalada com a divisão de posições no Copom de maio, em junho, todas as avaliações e análises registradas na ata são compartilhadas sem divergências. Trata-se de tentativa de transmitir mensagem de que a substituição na presidência do Banco Central — e do Copom —, em dezembro, o que resultará na formação de uma maioria de diretores indicados pelo presidente Lula, não representaria ruptura na condução da política monetária.

Consenso até em temas polêmicos

Chama a atenção na ata o consenso até mesmo em temas que podem ser considerados polêmicos ou incertos. São o caso, por exemplo, da taxa de juros real neutra e do hiato do produto.

A taxa de juros neutra é aquela que não acelera nem desacelera a inflação, estando em sintonia com o crescimento potencial da economia. O nível dessa taxa de juros não é observável, sendo estimada a partir de premissas estabelecidas por quem a estima. Por isso, é elemento de debates e discordâncias.

O hiato do produto é a diferença entre o PIB (Produto Interno Bruto) observado e o PIB potencial — uma estimativa de quanto a economia poderia avançar, utilizando todos os fatores de produção, em seus pontos máximos, e portanto, sem causar inflação. Como o PIB potencial também não é indicador observável, seu estabelecimento depende dos elementos considerados por quem o estima.

Na ata da reunião de junho, o Copom anuncia ter aumentado sua estimativa de juro neutro de 4,5% para 4,75%, admitindo que a taxa neutra possa se situar, no momento, entre 4,5% e 5%. A elevação é marginal, mas indica que, na avaliação do comitê, o limite para cortar a Selic ficou menor.

Em relação ao hiato do produto, o Copom avalia que depois de um período em terreno negativo — ou seja, a economia real estava abaixo da economia potencial — o hiato agora "está em torno da neutralidade" — ou seja, um crescimento da economia acima do atual embute pressões inflacionárias.

Apesar das broncas do presidente Lula, do PT, de entidades empresariais do setor produtivo e de economistas não vinculados ao mercado financeiro, para os membros do Copom, incluindo os "4 do Lula" (os diretores nomeados a partir de 2023, por indicação do presidente Lula), há razões de sobra para interromper o ciclo de cortes na taxa Selic. Novas elevações nas projeções de inflação, desancoragem nas expectativas de inflação, atividade econômica divergindo da desaceleração prevista e cenário externo adverso formam um quadro que recomenda manter a taxa básica de juros contracionista até que a inflação convirja para o centro da meta.

Notícias