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Criptomoedas, a nova fonte de financiamento do Hamas

24/10/2023 10h23

Nos últimos meses, o Hamas e outros extremistas islâmicos receberam milhões de dólares em moeda virtual. Um novo desafio para os governos do mundo todo.

 

De acordo com o Wall Street Journal, entre agosto de 2021 e junho de 2023, o Hamas recebeu US$ 41 milhões por meio de criptomoedas. Para a chamada Jihad islâmica [guerra religiosa destinada a "combater os inimigos do Islã"], essas somas chegaram a US$ 93 milhões.

A investigação do jornal norte-americano baseia-se em documentos do governo israelense e em dados de duas empresas especializadas em moedas digitais, uma delas a BitOk, com sede em Tel Aviv, e a outra a Elliptic, com sede no Reino Unido.

Não há evidências que sugiram que esses fundos financiaram os ataques de 7 de outubro - que mataram cerca de 1.400 israelenses e levaram o exército israelense a reagir, causando mais de 5.000 mortes, de acordo com o último relatório do Hamas - mas nas semanas seguintes, dezenas de carteiras de criptomoedas ligadas a essas organizações foram congeladas pela polícia israelense na Binance, a principal plataforma de troca de criptomoedas.

Em 18 de outubro, os Estados Unidos sancionaram a BuyCash, uma empresa sediada em Gaza acusada de facilitar as transferências de moeda virtual para essas organizações, que são classificadas como terroristas por Bruxelas e Washington.

Hamas pede doações em criptomoedas

As criptomoedas "correm o risco de se tornar um porto seguro para transações financeiras de criminosos e terroristas", escreveu a Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF) no início deste ano. Hoje, qualquer pessoa pode criar uma carteira de endereços de criptomoedas para enviar dinheiro, sem precisar revelar sua identidade.

Em 2019, o Hamas convidou seus apoiadores a doar moeda virtual. "Pedimos a todos os apoiadores da resistência que apoiem financeiramente a resistência por meio da moeda Bitcoin", escreveu Abu Obeida, porta-voz das Brigadas al-Qassam, o braço armado do Hamas, em seu canal no Telegram.

As criptomoedas possibilitam a realização de financiamento desmaterializado de computador para computador sem passar pela rede bancária global Swift", explica Jérôme Mathis, professor de economia da Universidade Paris Dauphine. Essas organizações são muito engenhosas, inovando constantemente para estabelecer novos canais. O que é preocupante em relação às criptomoedas é que elas permitem que a prática seja "instrumentalizada" porque é muito rápida e incentiva a coleta de pequenas doações de apoiadores em todo o mundo."

0,2% das criptomoedas envolvem transações ilícitas

"Embora os fundos tenham sido de fato enviados por meio de criptomoedas para carteiras ligadas a organizações terroristas, os valores são infinitamente modestos em comparação com outras fontes de financiamento", observa Gregory Raymond, cofundador do meio de comunicação The Big Whale.

A plataforma Chainalysis, por exemplo, estima que as transações ilícitas representam 0,2% de todo o comércio de criptomoedas em todo o mundo. Uma gota no oceano, mas que representa US$ 20 bilhões por ano.

"Os governos estão ficando para trás"

De Cingapura a Hong Kong, apesar desses territórios estarem na vanguarda da regulamentação, há dúvidas sobre uma supervisão mais rigorosa das criptomoedas. Nos Estados Unidos, cerca de cem senadores, liderados por Elizabeth Warren, escreveram para Joe Biden pedindo medidas urgentes.

A senadora francesa Nathalie Goulet (UDI), que pede a criação de uma comissão de inquérito para combater o financiamento do terrorismo na França e na Europa, observa que "a rastreabilidade não foi comprovada". As criptomoedas são ferramentas que estão fora do sistema bancário", ressalta ela. Temos todo um sistema paralelo que precisaremos regular melhor".

Em setembro, o G20 solicitou a regulamentação global das criptomoedas, mas é difícil harmonizar as políticas sobre o assunto. "Esse trabalho precisa ser realizado em nível de cada país", observa o professor de economia Jérôme Mathis. E, nesse ponto, os governos estão muito atrasados."

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