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Hiroshima: sobreviventes temem novas tensões no mundo; chefe da ONU diz que humanidade "brinca com arma carregada"

06/08/2022 11h56

A humanidade está "brincando com uma arma carregada" no contexto da atual crise com conotações nucleares, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em Hiroshima. O Japão lembra neste sábado (6) o 77º aniversário do bombardeio atômico americano. Sobreviventes da tragédia temem diante das tensões no mundo.

A humanidade está "brincando com uma arma carregada" no contexto da atual crise com conotações nucleares, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em Hiroshima. O Japão lembra neste sábado (6) o 77º aniversário do bombardeio atômico americano. Sobreviventes da tragédia temem diante das tensões no mundo.

Por Alexis Bregere, Yuko Sano e Ryusuke Murata, da France 24

Em uma cerimônia anual realizada na cidade japonesa para homenagear as vítimas do bombardeio de 1945, António Guterres fez um forte apelo aos líderes mundiais para que retirem as armas nucleares de seus arsenais. Há 77 anos, "dezenas de milhares de pessoas foram subitamente mortas nesta cidade. Mulheres, crianças e homens foram cremados em um incêndio infernal", lembrou ele.

"Prédios viraram pó. Os sobreviventes foram amaldiçoados com um legado radioativo" de câncer e outras doenças, acrescentou Guterres. "Temos que nos perguntar: o que aprendemos com a nuvem de cogumelo que se inflou sobre esta cidade?"

Hoje, "crises com forte conotação nuclear estão se espalhando rapidamente, do Oriente Médio à península coreana e à invasão russa da Ucrânia. A humanidade está brincando com uma arma carregada", alertou António Guterres, reiterando as advertências que fez esta semana em uma conferência dos países que assinaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) em Nova York.

Os "hibakushas"

Enquanto o país lembra este triste aniversário, os japoneses também se engajam em manter viva a memória desse trágico evento do conflito mundial. Uma necessidade ainda maior, de acordo com os "hibakushas", os sobreviventes da bomba, em um momento em que o risco nuclear assombra a mente das pessoas desde que a Rússia invadiu a Ucrânia.

Aos 84 anos, Reiko Yamada é uma destas sobreviventes e integra a Associação Toyukai, que cuida de outras pessoas como ela: "Sem essa associação, nossa história não poderia ser transmitida. São pessoas que não viveram a catástrofe que se dedicam. Para manter a memória 77 anos depois da destruição de Hiroshima".

Reiko Yamada tinha apenas 11 anos e sua escola ficava a 2,5 km do epicentro do bombardeio. Ela se lembra de ter visto um avião, uma forte luminosidade e de mais nada. Ela chegou a ficar trancada debaixo de um tronco de árvore, mas, depois, conseguiu escapar e reencontrar sua família.

"Nós não víamos os rostos dos cadáveres porque evitávamos olhar. Mas dois dias depois uma pessoa chamou minha irmã, nós olhamos e então vimos um rosto completamente queimado. Nós não conseguíamos distinguir os olhos e a boca. Nós estávamos tão assustadas que fugimos."

Medo de ter filhos

Quase todos os sobreviventes da tragédia têm mais de 80 anos hoje e a associação recebe 12 mil pedidos de ajuda todos os anos. "A maior parte são pessoas solitárias, que ou não são casadas ou são casadas mas não têm filhos que possam ajudá-las, porque tinham medo de transmitir sua doença [aos filhos]", conta Michiko Murata, responsável da Associação Toyukai.

Depois da guerra, muitos "hibakushas" se isolaram da sociedade por medo da radiação. Alguns guardam segredo com seus companheiros e muitos escondem suas cicatrizes.

Reiko, por exemplo, acha que teve sorte, pois não tem marcas sobre sua pele, mas, mesmo assim, testemunha para todos o que se passou com ela. Em sua opinião, os "hibakushas" recebem cada vez menos atenção no Japão. A exemplo de um monumento em homenagem às vítimas que foi retirado da parte central de uma praça pública.

"O Japão deve continuar a promover a paz, principalmente com as tensões atuais no mundo. Eu tenho medo do que possa acontecer", declara Reiko. Com quase 90 anos, ela é um dos últimos elos entre 6 de agosto de 1945 e as novas gerações. "Nós deveríamos todos serrar os dentes durante uma guerra. Então, quando eu vejo o sorriso das crianças, eu me digo que isso é precioso e é preciso protegê-lo", ela conclui.

Nos últimos dois anos, as comemorações do bombardeio de Hiroshima - com a presença de sobreviventes, familiares, autoridades japonesas e alguns líderes estrangeiros - ocorreram de forma restrita devido à Covid-19. Mas a cerimônia deste sábado teve menos restrições e contou com um número maior de participantes. Uma oração silenciosa foi realizada às 8h15 (horário local), momento em que a bomba americana devastou a cidade no final da Segunda Guerra Mundial.

Risco nuclear

O risco nuclear assombra a mente das pessoas desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro. O embaixador da Rússia no Japão não foi convidado para a cerimônia deste sábado, mas viajou para Hiroshima na quinta-feira (4) para depositar uma coroa de flores em homenagem às vítimas.

Cerca de 140 mil pessoas morreram como consequência do bombardeio de Hiroshima em 6 de agosto de 1945, um número que inclui aqueles que sobreviveram à explosão, mas morreram mais tarde devido à radiação.

Três dias depois, os Estados Unidos lançaram outra bomba nuclear na cidade portuária japonesa de Nagasaki, matando cerca de 74 mil pessoas e encerrando a Segunda Guerra Mundial.

(Com informações da AFP)

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