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Afastado do ex-aliado, Juan Manuel Santos admite conversa pendente com Uribe

16/09/2021 04h50

Madri, 15 set (EFE).- Chamado de "traidor" e "comunista", Juan Manuel Santos dinamitou parte considerável do seu reduto político após o Acordo de Paz com as Farc, e passou de ser um grande aliado do ex-presidente Álvaro Uribe a ver a relação com ele se tronar completamente degrada.

Agora, três anos depois de ter deixado a presidência da Colômbia, Santos, que esteve no poder de 2010 a 2018, concedeu entrevista à Agência Efe no Palace Hotel em Madri e se refere a Uribe: "Tenho uma conversa pendente com ele".

O entrevistado, vencedor Prêmio Nobel da Paz em 2016 e agora longe da política, garante não ter problema algum em se aproximar do atual chefe de governo colombiano, Iván Duque, bastante criticado durante as manifestações de abril e maio na Colômbia. Ele inclusive diz ter tentado uma aproximação algumas vezes, mas revela nunca ter recebido uma resposta. "É melhor deixar este mundo com o menor número possível de inimigos", afirma.

Santos está em Madri com a política Ingrid Betancourt apresentando o último livro em que está envolvido, intitulado "Una conversación pendiente" ("Uma conversa pendente", em livre tradução). Um trabalho que reúne mais de 40 horas de diálogo ao longo de 15 meses com a mulher que ele ajudou a libertar do sequestro pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2008, através da chamada Operação Jaque, quando ele ainda era Ministro da Defesa no governo de Uribe.

"Ingrid foi sequestrada e torturada por seis anos e apoiou entusiasticamente o Acordo de Paz (2016). É um sinal para a reconciliação do povo colombiano e uma história maravilhosa para contar", diz Santos sobre a origem de um livro que nasceu há alguns anos em um encontro entre os dois em um pub em Oxford, cidade onde o ex-presidente dava aulas e onde Betancourt estudava teologia.

DE IVÁN DUQUE À "VASO CHINÊS".

Durante a entrevista, Santos se declara um seguidor da conhecida metáfora do "vaso chinês" que o ex-presidente do governo espanhol Felipe González introduziu há anos para se referir ao seu papel fora do circuito político. Segundo González, um ex-presidente é comum um vaso chinês em um apartamento pequeno: "é um objeto de grande valor, mas ninguém sabe aonde colocá-lo".

Na prática, porém, o colombiano fala sobre a administração de seu sucessor, Iván Duque, alvo de protestos em abril e maio. O gatilho foi uma polêmica reforma tributária, que caiu, mas depois parte da população abordou demandas sociais, criticou a gestão da crise provocada pela pandemia da Covid-19 e reclamou da violência com a qual a polícia reprimiu as manifestações.

"Estas manifestações não poderiam ser controladas com repressão. Houve uma falta de diálogo e empatia quando seus líderes foram processados e acusados de serem infiltrados pela guerrilha", comenta Santos sobre as manifestações, que, segundo algumas ONGs, poderiam ter terminado com um saldo de até 50 pessoas mortas nas mãos do exército ou da polícia colombiana.

Da mesma forma, ele também se pronuncia sobre os Acordos de Paz que ele mesmo liderou para desmobilizar e desarmar a guerrilha das Farc e acredita que Duque não tem ido além do protocolar nesse tema.

"Embora ele esteja constitucionalmente obrigado a agir em algumas questões, ele poderia ter feito muito mais para continuar implementando o acordo. As garantias de segurança dos ex-membros das Farc, que foram assassinados nos últimos três anos, não foram cumpridas", aponta o ex-presidente, depois de afirmar que os ex-guerrilheiros "estão respeitando seu compromisso".

HUGO CHÁVEZ E OUTRAS CONVERSAS PENDENTES.

Avô de dois netos e concentrado em seu trabalho como professor, escritor e defensor da paz, Santos demonstra tranquilidade. Especialmente depois que a Comissão de Acusações e o Conselho Nacional Eleitoral da Colômbia encerraram, há um mês, a investigação sobre uma suposta ligação de sua campanha eleitoral com casos de corrupção da construtora Odebrecht.

"Eles me acusaram de me financiar com a Odebrecht, mas aquela empresa no meu governo foi como cães em uma missa. Eles participaram de um contrato em 250 licitações", defende o ex-presidente.

Nessa linha de reconciliação com seu país, há apenas três meses Santos pediu desculpas às vítimas de "falsos positivos" (civis mortos pelos militares que foram apresentados como guerrilheiros) durante uma aparição na Comissão da Verdade, uma entidade pública fundada em 2017 que procura esclarecer o conflito.

Agora, ele mostra uma imagem mais liberada de seu passado e até brinca com o fato de escrever um livro sobre sua relação com Hugo Chávez, que chegou a dizer em 2010 que haveria "uma guerra" entre Venezuela e Colômbia se Santos se tornasse presidente.

Entretanto, ele se lembra de Chávez como uma figura importante no Acordo de Paz, alguém que "cumpriu seu papel como aliado" e a quem convenceu usando como exemplo "a relação entre Gorbachev e Reagan".

"Quando ele morreu, acabei ficando de guarda em seu caixão ao lado do presidente do Irã e de outros amigos de Chávez", recorda, com um toque de humor.

A entrevista termina, a câmera é desligada, e o ex-presidente colombiano opta por continuar falando, ainda sobre conversas pendentes: "Estive pensando sobre isso durante todos esses minutos, a conversa pendente que o povo colombiano tem hoje é com as instituições... Para conseguir um novo contrato social", encerra. EFE

gac/dr

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