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Retomada acelerada leva a falta de mão de obra na Europa, inclusive estrangeira

Serviços, agricultura, indústria, lazer: sobram ofertas de emprego em diversos setores em países como França, Alemanha ou Reino Unido, em meio a uma retomada econômica vigorosa - Flavio Lo Scalzo/Reuters
Serviços, agricultura, indústria, lazer: sobram ofertas de emprego em diversos setores em países como França, Alemanha ou Reino Unido, em meio a uma retomada econômica vigorosa Imagem: Flavio Lo Scalzo/Reuters

Lúcia Müzell

15/09/2021 07h48Atualizada em 15/09/2021 07h48

Serviços, agricultura, indústria, lazer: sobram ofertas de emprego em diversos setores em países como França, Alemanha ou Reino Unido, em meio a uma retomada econômica vigorosa. A crise sanitária aprofunda a falta de mão de obra, inclusive estrangeira, para preenchimento de vagas como garçom, cozinheiro, babá, recepcionista ou pedreiro.

A pandemia de coronavírus abriu os horizontes para outras oportunidades e mudou a percepção sobre o trabalho - os cargos presenciais a 100% ou com horários difíceis têm tido menos candidatos. Thomas, gerente de um restaurante de Paris, vive uma situação inédita: nunca ficou tanto tempo com vagas abertas.

"Tivemos que passar todo o verão praticamente sem ninguém, porque não tínhamos candidatos, nada. Tivemos que nos virar. Vieram dois jovens para ajudar por um período que eles podiam. Foi o melhor que conseguimos", conta. "Não tem mais estudantes que assinam contratos por uma temporada, durante as férias. Não conseguimos encontrar até agora um verdadeiro chefe de fila para a sala."

Thomas garante que o problema atinge em cheio os seus colegas no setor da gastronomia. Da mesma forma, agências de empregos de serviços gerais têm dificuldades de atrair interessados nas grandes cidades. A brasileira Silvia trabalha como auxiliar de limpeza e babá na capital francesa desde 2016. Pela primeira vez, ela está tendo a oportunidade de recusar trabalho.

"No começo não foi fácil, mas agora está. Estou percebendo que agora tem muito mais opções do quando eu cheguei. Até então, para todos os trabalhos de babá que eu ficava sabendo, era preciso ter toda a documentação certa antes", relata a paulistana. "Mas agora está mais fácil nisso também. Acho que, como tem pouca gente disponível para essas áreas, eles fazem entrevista, gostam e já chamam."

Produção agrícola apodrecendo

No campo, é ainda pior. Uma das áreas que mais tem sofrido com a falta de mão de obra é a agrícola, fortemente dependente de trabalhadores sazonais. Ao impor restrições de deslocamentos nacionais como internacionais, a pandemia fez com que faltassem mãos para colher tomates na Itália ou uvas na França. Quem comenta é Jerôme Volle, presidente da comissão de empregadores da Federação Nacional dos Sindicatos de Produtores Agrícolas (FNSEA).

"Hoje, o setor agrícola não pode ficar sem os trabalhadores estrangeiros. Não conseguimos atender às necessidades da produção agrícola. Nós pedimos que eles sejam regularizados e que o lugar deles seja reconhecido na França", pleiteia Volle. "Talvez, se pudéssemos remunerar melhor, um maior público se interessasse por este setor, mas a questão que se coloca é a da concorrência desleal entre os países quanto ao custo do trabalho. Na Espanha e na Alemanha, os salários são muito menos elevados do que aqui", justifica.

Na Inglaterra, o problema é agravado pelo Brexit - as perdas nas colheitas de horticulturas já chegam a 5 milhões, a produção de aves teve de ser reduzida em 10% e a penúria de açougueiros pode levar ao abate e cremação de rebanhos de porcos nas próximas semanas.

Políticas para o emprego

O economista Yannick L'Horty, especialista em políticas para o emprego e professor da Universidade de Paris Est-Créteil, afirma que os países precisarão reorientar os trabalhadores desempregados para essas áreas com carência de candidatos. Na França, por exemplo, o desemprego chega a 8%, dos quais 2,9% estão há mais de um ano sem conseguir uma vaga, conforme o Insee (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos). Ao mesmo tempo, um estudo da Banque de France apontou que 51% das empresas do país estão com algum tipo de dificuldade de encontrar perfis para as vagas oferecidas, inclusive para postos qualificados.

"A solução é, evidentemente, a formação. É tornar mais fácil a transição profissional de um setor para outro, afinal ainda há setores com excesso de mão de obra. É preciso facilitar a mobilidade geográfica, profissional e de formação", destaca o pesquisador.

L'Horty ressalta, porém, que a tensão em algumas áreas do mercado sinalizam o quanto a retomada econômica está robusta - na França, depois de uma recessão de 8,3% em 2020, a expectativa de crescimento neste ano gira em torno de 6%.

"A atividade econômica está retomando em todo o lugar na Europa e nos Estados Unidos, e a cada retomada, as empresas são confrontadas a uma dificuldade de recrutamento. A adaptação das qualificações das pessoas ao que as empresas querem não é automática. Sempre há um período de adaptação e de formação", explica. "Essa falta de mão de obra nada mais é do que um sinal da intensidade da retomada."

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