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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que carros estão tão caros no Brasil e devem ficar ainda mais

Shutterstock
Imagem: Shutterstock
do UOL

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/06/2021 04h00

Desde o início da pandemia do coronavírus, no ano passado, os preços de veículos ao consumidor não param de subir no Brasil.

Os reajustes sucessivos chegaram a tal ponto que hoje um carro compacto zero-quilômetro pode chegar a custar mais de R$ 100 mil.

A situação não tem sido diferente quando se trata de veículos usados e seminovos - dependendo do modelo, os valores praticados por concessionárias e lojas multimarcas chegam a ser maiores do que os cobrados pelo mesmo carro, porém novo.

Isso se o veículo zero pretendido estiver disponível, já que muitos modelos tiveram ou ainda têm a produção paralisada por causa da falta de componentes - em especial, semicondutores.

Também tem havido menor oferta de automóveis de segunda mão.

Enquanto a covid-19 não for controlada, por meio da vacinação em massa dos brasileiros, a expectativa é de que seus efeitos negativos na economia persistam, mantendo a tendência de alta nos preços.

Confira em detalhes cinco motivos para essa disparada nos valores cobrados - a maioria deles é global, diretamente conectada com a pandemia, mas há fatores exclusivos de nosso mercado.

1 - Paralisação de fábricas por falta de semicondutores

Fábrica de carro - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

A escassez mundial de microprocessadores, cuja produção é concentrada na Ásia, levou à interrupção na produção de veículos de variadas marcas no Brasil ao longo deste ano.

Carro mais vendido dos últimos seis anos, o Chevrolet Onix é um exemplo: deixou de ser fabricado em 5 de abril e a respectiva produção deverá ser retomada somente em 16 de agosto.

Por causa do problema, a disponibilidade de carros zero-quilômetro nas concessionárias foi comprometida, ficando insuficiente para atender a demanda. Esse desequilíbrio entre oferta e procura tradicionalmente "puxa" para cima os preços de determinado produto.

A falta de veículos novos, muitos dos quais hoje têm fila de espera, acaba inflacionando o mercado de usados e, especialmente, de seminovos. Já noticiamos que há modelos de segunda mão sendo vendidos por valores mais altos do que se fossem zerados.

2 - Baixo estoque de usados e seminovos

venda carros usados - Juca Varella/Folha Imagem - Juca Varella/Folha Imagem
Imagem: Juca Varella/Folha Imagem

Segundo Matías Fernández Barrio, CEO da Karvi, plataforma online de compra e venda de carros no Brasil e na Argentina, os estoques de seminovos e usados em concessionárias e lojas independentes também estão baixos e isso é outro fator a pressionar para cima os respectivos preços.

De acordo com Barrio, o "giro" dos veículos de segunda mão, que é o tempo entre a compra e a sua respectiva revenda, era superior a dois meses há cerca de um ano. Hoje, caiu para aproximadamente 30 dias.

"É um sinal de que há demanda. Quem tem estoque, vende. Contudo, o problema é que está muito difícil repor o veículo comercializado para efetuar novo negócio, pois faltam carros".

É o motivo, afirma o executivo, de concessionárias e lojistas independentes elevaram os preços para compensar a expressiva queda no volume de veículos comercializados - e, com isso, bancar os custos de operação e manter o negócio sustentável.

"A margem bruta na revenda hoje continua em torno de 10%, porém um veículo que há um ano era vendido por cerca de R$ 45 mil hoje sai por mais de R$ 60 mil ao consumidor", pontua.

3 - Retomada gradual da economia

Financiamento de carro - iStock - iStock
Imagem: iStock

Conforme explicamos nos itens anteriores, durante os últimos meses a economia tem dado sinais de recuperação, com elevação no consumo e na demanda por variados produtos e serviços - e isso se aplica a automóveis.

Aí voltamos à tradicional regra da oferta e da procura: quando há demanda e falta oferta, a alta nos preços é uma consequência esperada.

"Dentre aqueles que mantiveram a renda durante a pandemia, há uma parcela que planeja a compra de um carro próprio, ou a troca do atual, a fim de evitar o transporte público", opina o executivo da Karvi.

4 - Aumento do ICMS em SP

Showroom concessionária - Shutterstock - Shutterstock
Imagem: Shutterstock

Dono da maior frota circulante do Brasil, em torno de 30 milhões de veículos, o governo paulista elevou no começo deste ano as alíquotas de ICMS tanto para carros zero-quilômetro quanto para usados.

Dessa forma, os preços praticados no Estado ficaram mais altos na comparação com outras unidades da Federação.

Devido à relevância do mercado de São Paulo, que também é responsável por boa parte da produção nacional de veículos, os preços médios, considerando todo o território do País, inevitavelmente subiram.

Em janeiro passado, Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, a associação nacional das montadoras, já alertava a respeito do impacto nacional do aumento na carga tributária no mercado paulista.

"São Paulo é responsável por mais de 40% da produção da indústria automotiva no País e a gente está considerando um volume de crescimento menor do mercado automotivo em 2021, por causa desse impacto do ICMS", avaliou na época, em entrevista para UOL Carros.

5 - Pressão de insumos e logística

Bobinas de aço - Umit Bektas/Reuters - Umit Bektas/Reuters
Imagem: Umit Bektas/Reuters

Além da escassez de semicondutores, que também encareceram, outros insumos e serviços essenciais para a produção de automóveis ficaram mais caros ao longo dos últimos dois anos - e elevaram o preço de automóveis ao consumidor.

Conforme apresentação da Anfavea para a imprensa realizada em março, de janeiro de 2020 a janeiro deste ano o valor do aço (foto acima) no Brasil teve elevação de 61%; resinas e elastômeros saltaram 68% de dezembro de 2019 a dezembro de 2020; o frete aéreo, por sua vez, teve alta de 105% entre janeiro do ano passado e o primeiro mês deste ano; e o frete marítimo apresentou acréscimo de 339% no mesmo período.

Isso sem contar o valor da eletricidade, que está subindo neste ano devido à escassez de chuvas, que afeta a geração de energia hidrelétrica e faz com que se recorra a usinas térmicas, mais caras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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