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Jacarezinho: Polícia cita 'feridos', mas remove mortos de cena do crime

06.05.2021 - Policiais carregam baleado durante operação contra o tráfico na comunidade do Jacarezinho, no Rio, deixa dezenas de mortos - REUTERS / Ricardo Moraes
06.05.2021 - Policiais carregam baleado durante operação contra o tráfico na comunidade do Jacarezinho, no Rio, deixa dezenas de mortos Imagem: REUTERS / Ricardo Moraes
do UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

13/05/2021 04h00

Os registros de ocorrência da operação policial mais letal do estado do Rio de Janeiro seguiram um mesmo padrão, de acordo com relatos feitos à Delegacia de Homicídios da Capital pelos agentes que participaram da ação com ao menos 28 mortos na favela do Jacarezinho.

Em dez dos 12 boletins de ocorrência, policiais disseram ter encontrado feridos após revidarem tiros de criminosos ligados ao tráfico —os baleados foram então levados a hospitais. No entanto, o UOL constatou que em ao menos quatro casos as pessoas morreram na favela, diferentemente do que disse a polícia.

A Ouvidoria da Defensoria Pública investiga se houve tentativa de desfazer a cena do crime para atrapalhar a investigação do caso. Hospitais relataram que 26 dos 28 mortos na operação chegaram sem vida às unidades de saúde —a despeito dos registros de que estavam feridos no momento da remoção, a polícia disse ao UOL que eles não resistiram e morreram antes de receber socorro médico.

Um dos casos envolveu a morte de um homem no quarto de uma menina de 9 anos em uma localidade conhecida como Beco da Síria. Segundo agentes da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), unidade de elite da Polícia Civil, o suspeito identificado como Omar Pereira da Silva, 21, foi atingido em uma troca de tiros e levado ao hospital.

Mas a família que presenciou a cena contradiz a versão da polícia —segundo o casal relatou ao UOL, o jovem com um ferimento de tiro no pé estava desarmado e morreu no quarto da criança após ser alvejado por policiais. Apenas duas das 12 ocorrências da operação no Jacarezinho citam que foi solicitada a perícia para a remoção de cadáver.

Um vídeo gravado por moradores após a operação mostra dois homens mortos no chão. Em outro, uma moradora registra a cena de um jovem em óbito em uma laje. Ambos os casos também foram registrados como baleados socorridos ainda com vida.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que 26 dos mortos na operação já chegaram sem vida nos hospitais Souza Aguiar, Evandro Freire e Salgado Filho.

O crime de desfazimento de cena é muito grave porque inviabiliza a elucidação dos fatos e joga contra a perícia, que é a prova técnica. Isso dificulta a possibilidade de esclarecimento do que realmente aconteceu. Se isso for comprovado, é preciso identificar os responsáveis, fazê-los responder por esse crime e reforçar os protocolos da polícia

Guilherme Pimentel, ouvidor-geral da Defensoria Pública

Segundo ele, denúncias do tipo na operação do Jacarezinho não são casos isolados. "Recebemos com alguma frequência denúncia de moradores falando da retirada de corpos que já estariam mortos em operações policiais. Esse tipo de situação que se repete reforça a necessidade de uma investigação séria em relação a esse tipo de denúncia", completa.

O que diz a Polícia Civil

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil diz que o fato de os baleados terem chegados mortos aos hospitais não descarta a hipótese de que tenham sido socorridos.

"Criminosos terem chegado mortos à unidade hospitalar não quer dizer que não foram resgatados com vida. As mortes podem ter acontecido no caminho ou na entrada ao hospital", diz.

A corporação também encaminhou um vídeo à reportagem "de um dos socorros prestados pelos policiais civis". As imagens mostram um jovem sendo colocado com vida na caçamba de um veículo com um ferimento estancado.

A Polícia Civil diz que os casos serão esclarecidos durante a investigação, acompanhada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio).

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'Corpo pode ter sido transportado', diz especialista

Ocorrência no Jacarezinho, no Rio, envolveu "um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira". Foto que viralizou mostra o rapaz já morto, identificado como Matheus Gomes dos Santos, 21 anos - Reprodução - Reprodução
Ocorrência no Jacarezinho, no Rio, envolveu "um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira". Foto que viralizou mostra o rapaz já morto, identificado como Matheus Gomes dos Santos, 21 anos
Imagem: Reprodução

Outra ocorrência também na localidade conhecida como Beco da Síria envolveu "um elemento com ferimentos de arma de fogo sentado em uma cadeira" —uma foto que viralizou na internet mostra o rapaz já morto, identificado posteriormente como Matheus Gomes dos Santos, 21.

A pedido do UOL, o perito criminal aposentado Cássio Thyone Almeida de Rosa, integrante do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, contesta a versão da polícia. Segundo ele, a imagem sugere que o corpo do jovem já morto foi posicionado na cadeira.

"O corpo está em uma posição extremamente incomum, com o tronco ereto. Chama a atenção as manchas de sangue. Provavelmente estava de pé quando as manchas de sangue se formaram", explica.

"São várias manchas de contato nas pernas, cotovelo, braços e pés, dando a ideia de que esse corpo pode ter sido transportado até a cadeira", completa.

06.05.2021 - Policiais durante operação contra o tráfico na comunidade do Jacarezinho, no Rio, que deixou dezenas de mortos - JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO - JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO
06.05.2021 - Policiais durante operação contra o tráfico na comunidade do Jacarezinho, no Rio, que deixou dezenas de mortos
Imagem: JOSE LUCENA/THENEWS2/ESTADÃO CONTEÚDO

'Depoimentos parecem ter sido orquestrados'

O perito criminal aposentado vê indícios de desfazimento da cena do crime com base na repetição das versões contadas pelos agentes que participaram da operação no Jacarezinho.

"O alinhamento das versões nos boletins de ocorrência sugere um padrão construído para que as ações policiais sejam menos questionadas. Os depoimentos são parecidos. Parecem ter sido orquestrados e só favorecem quem estava na ação. A ação é no mínimo suspeita", analisa Cássio Thyone Almeida de Rosa.

'O que vi lá foi estarrecedor', diz ouvidor

O ouvidor-geral da Defensoria Pública vem monitorando as mortes no Jacarezinho desde quando a operação ainda ocorria no interior da favela. O órgão foi ao local acompanhado por comissões de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio).

"Decidi ir até lá [Jacarezinho] para ver a situação com os meus próprios olhos. E foi estarrecedor", disse Pimentel, que está promovendo desde então o acolhimento da família dos mortos, de pessoas que ficaram em meio ao fogo cruzado e de suspeitos presos na operação.

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