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SC: Um dia após ataque, Saudades chora crianças mortas e autor segue sedado

05 mai. 2021 - Enterro de menina morta em ataque a escola em Saudades, no interior de Santa Catarina - Jessica Edel
05 mai. 2021 - Enterro de menina morta em ataque a escola em Saudades, no interior de Santa Catarina Imagem: Jessica Edel
do UOL

Carolina Marins e Hygino Vasconcellos

Do UOL, em São Paulo e Colaboração para o UOL, em Saudades (SC)

05/05/2021 23h52

Um dia depois da tragédia do ataque à escola Aquarela, a cidade de Saudades (SC) chorava as vítimas do atentado que deixou cinco mortos e um ferido. Cerca de 1.500 pessoas velaram as vítimas segundo estimou o Corpo de Bombeiros. A despedida começou ainda na noite de ontem em um ginásio do Parque de Exposições Theobaldo Hermes e terminou hoje por volta das 11h.

"Se fosse à tarde [o ataque] meu neto não estaria mais vivo", refletia a agricultora Araci W. Schmitz, de 55 anos, enquanto lamentava a morte das vítimas nas mãos de um homem de 18 anos que entrou na escola armado de um facão.

Seu neto, de apenas 1 ano e 4 meses iria para a creche no período da tarde, mas a avó conta que ele parecia pressentir a tragédia que aconteceria pela manhã na escola. "Na hora do almoço eu queria tratar e ele não queria. Ele ficou muito nervoso, fora de si, parecia que estava notando uma coisa", conta.

Araci cuida do neto pela manhã e à tarde o leva para a CEI (Centro de Educação Infantil) Pró-Infância Aquarela. Mas na manhã de ontem, um homem de 18 anos entrou na escola com um facão, deixando três crianças e duas professoras mortas.

A agricultora Araci W. Schmitz, de 55 anos - Hygino Vasconcellos/UOL - Hygino Vasconcellos/UOL
A agricultora Araci W. Schmitz, de 55 anos
Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL

A filha de Araci chegou em casa por volta das 11h15 contando o que havia acontecido. "Ela disse: 'mãe, aconteceu uma tragédia. Meu filho está salvo, mas pensa nos coleguinhas dele.'"

Não entendo o que naquela hora entrou na cabeça dele [o agressor]. Ele foi lá nos anjinhos, escolheu esses anjinhos. Não dá para acreditar."

Crianças sepultadas lado a lado

O sentimento no local era uma mistura de consternação e indignação. Ao lado dos pequenos caixões brancos das crianças estavam os pais delas. Choravam aos pés dos filhos, segurando suas mãos — uma das mães soluçava alto, inconformada com a partida precoce da filha.

As crianças foram sepultadas lado a lado enquanto as professoras foram enterradas em outros pontos do cemitério. A mãe de uma das crianças assassinadas desmaiou no final da cerimônia.

Já tinham achado minha filha, só não me contaram. Eu vi o cabelinho dela e duas xuxinhas que foram feitas de manhã no cabelo dela, caiu meu mundo".
Evandro Sehn, pai de uma das vítimas

A tragédia teria sido ainda pior se não fosse a coragem de funcionários e professoras do local em proteger as crianças. As duas professoras que acabaram morrendo no ataque foram Keli Adriane Aniecevski, 30, e Mirla Renner, 20.

Uma criança que sobreviveu ao ataque deixou a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e foi transferida para um leito clínico no Hospital da Criança. O estado de saúde dela é considerado estável.

Testemunhas contaram que o esfaqueador se trancou no banheiro da creche e usou rojões durante o ataque. Devido ao barulho, testemunhas que estavam próximas acreditaram tratar-se de tiros ou mesmo de uma explosão.

Suspeito tem prisão preventiva decretada

O juiz Caio Lemgruber Taborda, da Comarca de Pinhalzinho (SC), acatou hoje o pedido do MP-SC (Ministério Público de Santa Catarina) e decretou a prisão preventiva do suspeito.

O homem tentou se matar após o episódio, mas foi impedido por populares. Ele está sedado na UTI do Hospital Regional do Oeste, em Chapecó (SC), e seu estado é grave, de acordo com o boletim médico divulgado na tarde de hoje.

O delegado Jerônimo Marçal, responsável pela investigação, solicitou o indiciamento do suspeito por cinco homicídios triplamente qualificados (motivo torpe, por meio cruel e sem possibilidade de defesa às vítimas) e uma tentativa de homicídio, pois uma criança sobreviveu e segue internada em um hospital de Saudades (SC).

Na mesma sentença que ordenou a prisão preventiva, Taborda determinou a quebra de sigilo dos dados do computador, do videogame e do pen drive que estavam em posse do suspeito. A defesa do homem, que será feita pelo defensor Kleber dos Passos Jardim, solicitou exames para averiguar suaa sanidade mental, mas o juiz negou o pedido.

Segundo o delegado, o crime foi premeditado e o suspeito teria analisado a instituição de ensino e inclusive teria rondado o local na última segunda-feira (3).

A gente já tem alguns elementos concretos que indicam que ele vinha planejando. Há muitos meses ele já vinha planejando praticar algum crime semelhante que ele praticou, segundo relato das testemunhas. Não exatamente nesse local, mas algum atentado nesse sentido".
Delegado Jerônimo Marçal.

Perfil reservado

Ontem a Polícia Civil descreveu o suspeito como um homem reservado e que vinha sofrendo bullying na escola. A apuração inicial dos policiais apontou que ele vinha maltratando animais e não queria mais ir à escola, onde cursava o ensino médio.

Uma vizinha do esfaqueador que trabalha em frente à escola contou ao UOL que ele era conhecido por passar o dia todo jogando em frente ao computador. "O guri não tinha nem celular. Dezoito anos e não tinha celular. Ficava só no computador", conta a jovem de 20 que pediu para não ser identificada.

"O pai dele é um homem muito trabalhador, muito calmo e tranquilo. A irmã e a mãe dele vão todas as noites caminhar com o cachorro. Eu até então nem lembrava que esse piá existia".

O suspeito não tinha antecedentes criminais ou passagens registradas pela polícia e, até agora, não se sabe qual foi a motivação do crime no CEI (Centro de Educação Infantil) Pró-Infância Aquarela.

Após atentado, o prefeito de Chapecó (SC), João Rodrigues (PSD), anunciou que vai acelerar as medidas de incremento de segurança nas escolas da cidade que fica a cerca de 43 km de onde ocorreu a tragédia.

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