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Mandetta diz que Bolsonaro tinha aconselhamento paralelo e que o alertou sobre pandemia

04/05/2021 14h40

Por Eduardo Simões e Maria Carolina Marcello

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira que o presidente Jair Bolsonaro tinha um grupo paralelo que o aconselhava e que o alertou "sistematicamente" sobre a gravidade da pandemia de Covid-19 e sobre as consequências de se ignorar recomendações da ciência.

"Alertei sistematicamente, inclusive fazendo as projeções", garantiu o ex-ministro durante depoimento à comissão.

Primeiro a depor à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, Mandetta afirmou que o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente, esteve presente em reuniões de Bolsonaro com ministros. Também relatou que em uma delas viu esboço de decreto para incluir na bula da cloroquina, medicamento para malária e doenças autoimunes, a indicação para tratamento contra Covid-19.

"Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que nunca eu havia conhecido", contou Mandetta à CPI.

"Quer dizer, ele tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus."

De acordo com Mandetta, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, também estava presente na reunião e disse que a mudança não poderia ser feita. Diante disso, de acordo com o relato do ex-ministro da Saúde, auxiliares de Bolsonaro afirmaram que se tratava apenas de uma "sugestão".

No depoimento, Mandetta disse ainda que explicava a situação da pandemia a Bolsonaro e apresentava projeções para o futuro. Uma delas estimava que a pandemia poderia resultar em 180 mil mortes ao final de 2020.

"O presidente, no mais das vezes, ele compreendia, ele falava: 'Então, vamos, vamos... Dê seguimento!'" disse.

"Mas passavam-se dois, três dias, e ele voltava para aquela situação de quem não havia, talvez, compreendido, acreditado, apostado naquela via."

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Exonerado do cargo por Bolsonaro em abril do ano passado, Mandetta disse ainda que sentia que o fato de levar informações negativas ao presidente fazia com que ele fosse visto como um mensageiro de notícias ruins, e creditou a esse fato parte do distanciamento entre os dois.

O ex-ministro também afirmou que jamais pediria demissão do cargo, por entender que médico não abandona um paciente doente. Disse, no entanto, que não negociaria seus valores para permanecer à frente da pasta.

Questionado se a situação da pandemia no Brasil, com mais de 408 mil mortes, poderia ter sido evitada, Mandetta disse que o Brasil poderia ter feito mais por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e poderia ter começado a vacinar contra a doença em novembro do ano passado, embora tenha lembrado que ainda não havia imunizantes no momento em que chefiava a pasta.

"Sim, o Brasil podia mais, o SUS podia mais, a gente poderia mais. Poderíamos estar vacinando já desde novembro do ano passado", afirmou ele em resposta a um dos questionamentos dos senadores.

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