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Após licença, Câmara de SP vê mudança em relações e pautas conservadoras

1º.jan.2021 - O prefeito eleito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), toma posse do cargo na Câmara de Vereadores ao lado do vice, Ricardo Nunes (MDB) - RONALDO SILVA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
1º.jan.2021 - O prefeito eleito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), toma posse do cargo na Câmara de Vereadores ao lado do vice, Ricardo Nunes (MDB) Imagem: RONALDO SILVA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
do UOL

Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

04/05/2021 04h00Atualizada em 04/05/2021 14h56

A licença de 30 dias do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), está sendo acompanhada com atenção de um lado e preocupação do outro na Câmara Municipal. O vice, Ricardo Nunes (MDB), é tido como uma figura que deverá estreitar as relações com o parlamento e avançar em pautas conservadoras.

Com piora no quadro de saúde, o prefeito, que luta contra o câncer, foi transferido para a UTI (unidade de terapia intensiva) nesta segunda (3). Ele já havia pedido licença no domingo (2). No Diário Oficial do Município desta terça (4), Nunes já apareceu como ""vice-prefeito, em exercício no cargo de prefeito".

Na situação, apoiadores de Covas divergem sobre mudança durante o afastamento. Na oposição, há um receio de que Nunes adentre nas "pautas de costumes".

"Vai mudar tudo", afirmou um parlamentar da base de Covas. "O Ricardinho [apelido de Nunes na Casa] tem boa relação com todos, sabe conversar, mas ele é de outro partido, de um outro grupo, e vai impor as pautas dele."

Xexéu Tripoli, líder do PSDB na Casa, diz não ver mudanças. "Eu não vejo nenhum problema de ir tocando as pautas da Câmara e o executivo. Inclusive, até pelo prefeito, nós não devemos parar em nada. O Ricardo é competente para isso", afirma.

O ponto entre os vereadores é que, por 30 dias, nenhuma mudança deverá ser feita —e este tem sido o posicionamento oficial. Em entrevista, o próprio Nunes já afirmou que seguirá consultando Covas. Para eles, a figura muda, no entanto, se a licença de Covas se estender por mais tempo e Nunes passe a ficar "confortável na cadeira".

O PSDB tem a maior bancada da Casa, junto ao PT, com oito vereadores cada. O MDB tem três e, como partido, não tem grandes lideranças municipais. Com oito anos na Câmara —em dois mandatos consecutivos—, Nunes passou a se destacar ao ser alçado como vice.

"Não vejo que vai ter uma mudança [de pauta] muito grande com o Ricardo. O que aumenta é a relação [com os vereadores], um pouco mais pessoal. A gente já tem uma relação boa com o Covas, mas fica ainda mais fácil com o Ricardo", avalia o vereador Gilberto Nascimento Jr. (PSC-SP), que se identifica como "independente" e tem boa relação com Nunes.

Se o tempo de Casa é tido como uma vantagem para alguns, para parte da base de Covas as relações serão alteradas. Mais do que emedebista, Nunes é também ligado à Bancada Cristã, da qual Nascimento também faz parte.

"Que vai mudar, vai. O que nos resta é saber para que lado. As pautas principais, como revisão do Plano Diretor, serão mantidas, mas as perspectivas mudam. É outra pessoa, com outros contatos", afirmou outro parlamentar da situação.

"Ele é um homem muito bom com os números, me ensinou muita coisa. Creio que 70% da prefeitura deve ser gestão de números mesmo. É uma pessoa equilibrada, entendo que não vai fazer nenhuma guinada", defende Nascimento.

Preocupação com conservadorismo

A oposição tem uma visão diferente. Para parlamentares de esquerda, a mudança pode significar um recálculo de rota em relação às chamadas "pautas de costumes" rumo ao conservadorismo.

"A gente vê com bastante preocupação essa mudança, mesmo que temporária, como esperamos. Ele é de outro partido e tem posicionamentos muito complicados em relação a alguns temas importantes, como gênero e a questão LGBTQIA+", afirmou Silvia Ferraro (PSOL-SP), covereadora da Bancada Feminista.

Ela cita como exemplo as suspeitas de corrupção envolvendo Nunes e a liderança do vereador ao lutar, ainda na Câmara Municipal, pela retirada do termo "gênero" no PME (Plano Municipal de Educação).

"Essa legislatura está com um pé mais conservador. Pautas como escola sem partido e identidade de gênero, que estavam quietas até agora, acho que vão avançar, já que ele [Nunes] tem esse posicionamento conservador", declarou um vereador de oposição. "É aquilo: se com Covas está ruim, com o Nunes fica pior", completa.

Eduardo Suplicy, líder da bancada do PT na Casa, vê a mudança com mais reserva. "Vamos debater cada pauta, cada assunto, e ficar atentos para que não sejam colocados para frente propostas que privilegiem apenas um grupo ou setor", afirma o vereador.

Muitos deles veem, além do tempo relativamente curto da licença, o presidente da Casa, Milton Leite (DEM-SP), como lastro para maiores mudanças. Leite foi um dos grandes apoiadores de Covas na reeleição e também tem boas relações com Nunes.

"O Milton é prático, não vai querer entrar nessas questões polêmicas, há prioridades neste momento", afirmou um vereador da base.

"Nessa hora não tem política"

Muitos vereadores também defenderam que, em um momento delicado como este, grandes projetos ficam temporariamente em segundo plano e as pautas devem ser tocadas da mesma maneira que Covas faz.

"Não entendo que essa mudança temporária seja uma recondução de rumos da cidade. Estamos torcendo pela sua pronta recuperação, focando nossas energias para a melhora do prefeito", afirma a vereadora Janaína Lima (Novo-SP).

"Apesar de diferenças políticas, desejamos pronta recuperação do prefeito, que ele volte o quanto antes e bem. Também esperamos que não haja mudanças nessas pautas que não são apoiadas por ele", afirma Ferraro.

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