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França tem 'grande responsabilidade' no genocídio de Ruanda, diz relatório ruandês

Roupas de mortos em genocídio em Ruanda;  relatório estabelece que França foi "colaborador indispensável no estabelecimento de instituições que se tornariam instrumentos do genocídio" - Flavio Florido/UOL
Roupas de mortos em genocídio em Ruanda; relatório estabelece que França foi "colaborador indispensável no estabelecimento de instituições que se tornariam instrumentos do genocídio" Imagem: Flavio Florido/UOL

Em Kigali

19/04/2021 13h43

A França "possui uma grande responsabilidade" no genocídio de 1994 em Ruanda e continua se recusando a reconhecer seu papel nessa tragédia, afirma um relatório encomendado pelo governo ruandês e publicado hoje.

"A nossa conclusão é que o Estado francês possui uma grande responsabilidade por ter possibilitado um genocídio previsível", conclui a investigação sobre o papel da França no massacre, que deixou mais de 800 mil mortos, a maioria membros da etnia tutsi.

O estudo, encomendado por Ruanda em 2017 ao escritório de advocacia americano Levy Firestone Muse, considera também que a França sabia que um genocídio estava sendo planejado, mas continuou fornecendo "um apoio inabalável" aos seus aliados, ou seja, ao governo do presidente hutu Juvenal Habyarimana.

O apoio foi mantido inclusive quando "suas intenções genocidas ficaram claras".

O relatório, de quase 600 páginas, não fornece provas da participação de autoridades ou de trabalhadores franceses nas mortes, entre abril e julho de 1994.

No entanto, rejeita a ideia de que Paris estava "cega" sobre o genocídio que estava sendo promovido, assim como considerou há pouco tempo o relatório Duclert, entregue no final de março ao presidente francês Emmanuel Macron, que o encomendou.

A comissão Duclert concluiu que mesmo que "nada comprove" que a França tenha sido cúmplice, o país tem "responsabilidades pesadas e esmagadoras" na tragédia, principalmente por "permanecer cego diante da preparação" do genocídio.

Já o relatório encomendado por Ruanda estabelece que a França foi um "colaborador indispensável no estabelecimento de instituições que se tornariam instrumentos do genocídio".

"Nenhum outro Estado estrangeiro tinha ciência do perigo representado pelos extremistas ruandeses apoiando esses mesmos extremistas [...]. O papel do poder francês foi singular. No entanto, o Estado francês ainda não reconheceu seu papel e ainda não se desculpou oficialmente", diz o documento.

Os autores do relatório também acusam a França de ter prejudicado sua investigação ao ignorar seus pedidos de documentos.

O papel da França no genocídio dificulta há anos as relações entre Paris e Kigali.

O presidente ruandês, Paul Kagem, que assumiu as rédeas do país depois do genocídio, elogiou a publicação do relatório encomendado pelo Executivo francês e considerou que constitui um "passo importante".

O genocídio começou em 7 de abril de 1994, um dia após o atentado contra o avião do presidente Habyarimana, abatido enquanto sobrevoava Kigali. Em algumas horas, as milícias hutu começaram a matar os tutsis e hutus moderados, com uma violência extrema.

De acordo com o relatório Muse, nenhum Estado trabalhava estreitamente com o governo hutu como a França, presidida na época por François Mitterrand, designado como o principal "responsável do apoio irreverente" de seu país a um governo que preparava um genocídio.

A França forneceu um apoio militar e político para proteger seus próprios interesses e ignorou os alertas internos, enquanto os discursos de ódio proliferavam e a violência contra os tutsi aumentava, segundo o texto.

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