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Família de ativista LGBT morto quer novo inquérito contra restaurante da BA

Vida Bruno, coordenador de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT da Prefeitura Municipal de Salvador, morto após passar dois meses na UTI de hospital na Bahia - Divulgação
Vida Bruno, coordenador de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT da Prefeitura Municipal de Salvador, morto após passar dois meses na UTI de hospital na Bahia Imagem: Divulgação
do UOL

Aurelio Nunes

Colaboração para o UOL, de Salvador

08/04/2021 04h00

Familiares do coordenador de Políticas e Promoção da Cidadania LGBT da Prefeitura Municipal de Salvador, Vida Bruno, vão acionar o Ministério Público para reabrir o inquérito contra os proprietários do restaurante Cervantes, na capital baiana, por conta de um episódio de agressão relatado por ele antes de sua morte.

Vida Bruno faleceu aos 44 anos na terça-feira (6), após dois meses internado no Hospital Teresa de Lisieux. Segundo o administrador Elton Bruno Vida, 39, seu irmão foi vítima de complicações de um trauma craniano sofrido no interior do restaurante. "Ele foi agredido lá dentro. O motivo da morte dele foi a transfobia e o racismo", acusou Elton, referindo-se ao fato de o irmão ser negro e homem trans.

Ainda segundo o irmão, Vida Bruno teve de ser submetido a cirurgia para retirada de um coágulo do cérebro diagnosticado nos exames de imagens que ele fez logo após o episódio, mas que escondeu da família por quase dois meses. "Só soubemos quando foi internado, depois de desmaiar e reclamar de dores de cabeça", relata Elton.

A agressão a que Elton se refere ocorreu em 29 de novembro de 2020, quando Vida Bruno esteve sozinho no restaurante Cervantes. Pediu uma garrafa d'água e uma entrada de mexilhões, passou mal e solicitou a ajuda a uma garçonete. A partir daí, a história ganha versões completamente distintas.

Bruno alegou que a dona do restaurante disse que ele não poderia passar mal ali e ordenou a sua retirada. Como não conseguia andar, ele teria sido agredido com golpes na cabeça e arrastado até a porta com a ajuda de "dois homens fortes". Já do lado de fora do estabelecimento, as agressões continuaram — inclusive com repetidas batidas de sua cabeça contra o chão.

À época, Bruno relatou ao G1 que chegou a ficar desacordado por alguns segundos após receber um mata-leão. "Quando voltei a mim, pedia para me soltarem, dizia que eu era trabalhador, que trabalhava na prefeitura, mas, mesmo assim veio o outro homem, me pegou pelas pernas e me jogou na rua", disse.

Quando o proprietário percebeu que se tratava de um homem trans, ele ainda abriu a minha camisa e expôs os meus seios dizendo: 'Não se trata de homem! Isso aqui é uma puta negra."
Vida Bruno

Advogado do restaurante, Vitor Viana afirma que Vida Bruno teve uma convulsão com sangramento pelo nariz e foi imediatamente socorrido por funcionários do Cervantes e por dois médicos que estavam no local. Desorientado, deixou o estabelecimento chutando o mobiliário e se recusou a ser atendido pelo Samu.

A família, porém, afirma que ele não tinha histórico de convulsão. "O que aconteceu foi uma intoxicação alimentar, e isso não provoca convulsão, estado de desorientação mental. Muito menos o quadro de agressividade relatada pelo advogado deles", rebate Elton.

Arquivamento

A versão dos donos do Cervantes foi corroborada por sete testemunhas ouvidas pela delegada Rogéria da Silva Araújo, da 1ª delegacia Territorial (Barris). Entre elas, funcionários do restaurante e pessoas que se encontravam no local e fora dele na ocasião.

"Da análise dos autos, percebe-se que não restaram evidenciadas as condutas típicas apontadas na peça exordial, ressaltando-se a investigação cuidadosa na busca da materialidade delitiva, a qual não foi encontrada, e por, este motivo, conclui-se o presente sugerindo pelo arquivamento", diz, na conclusão do inquérito.

Ao procurá-la, o UOL recebeu da assessoria de comunicação da Polícia Civil a explicação que Araújo não foi localizada porque assumiu a direção do departamento de polícia do interior e não estava disponível para entrevistas.

Em nota, a polícia informou que "o conjunto de elementos probatórios colhidos nos autos não evidencia o fato alegado na ocorrência policial".

Elton, contesta, ainda, outro aspecto da investigação: imagens obtidas em câmera do estabelecimento vizinho da hora dos fatos e remetidas para o Departamento de Polícia Técnica.

"Só acredito nesses vídeos depois de ver. Essas imagens não foram apresentadas para a gente, não foi chamada a outra parte em momento algum para apresentar essas evidências. Então, eu vejo que há necessidade de uma apuração", indaga.

"Para que a polícia chegasse ao ponto de arquivar, precisaria descrever o conteúdo dessas imagens, e não tem nada disso narrado no termo de ocorrência", questiona.

A reportagem tentou, sem sucesso, contato com os médicos do Hospital Tereza de Lisieux que cuidaram de Vida Bruno. Até a publicação desta reportagem, o corpo de Vida Bruno encontrava-se no IML, de onde só seria liberado após a conclusão do procedimento de autópsia. A família aguardava a liberação do corpo para providenciar o enterro no Cemitério Bosque da Paz.

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