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15 dias

Como produtos químicos tóxicos ameaçam espermatozóides e reprodução

Beatriz Díez (@bbc_diez) - BBC News Mundo

07/04/2021 09h09

Especialista em fertilidade alerta para ligação entre substâncias químicas em nosso meio ambiente e a deterioração dos sistemas reprodutivos de homens e mulheres.

A taxa de fertilidade mundial está em declínio há décadas e o chamado 'relógio biológico' das mulheres é frequentemente apontado como um dos principais obstáculos para reverter essa queda.

Mais educação, maior participação no mercado de trabalho, a decisão de casar e de ter filhos mais tarde, maior acesso a métodos contraceptivos, entre outros fatores, estão entre as explicações comuns para o fato de as mulheres engravidarem menos vezes hoje em dia.

Mas a epidemiologista americana Shanna Swan sugere que os homens são também fonte de preocupação.

Ela diz em seu novo livro, Countdown (Contagem Regressiva, em tradução literal), que a situação atual da saúde reprodutiva não poderá se manter por muito tempo sem ameaçar a sobrevivência humana.

"É uma crise existencial global", ressalta Swan, uma cientista especializada em fertilidade que trabalha na Escola de Medicina Icahn no Hospital Mount Sinai, em Nova York.

No livro, Swan aponta que, em média, uma mulher hoje com 20 anos é menos fértil do que sua avó era aos 35.

E ela acrescenta que, também em média, um homem atual tem metade da quantidade de esperma que seu avô tinha na mesma idade.

A pesquisadora atribui grande parte dessa deterioração a produtos químicos tóxicos, especificamente os ftalatos, substâncias sintéticas usadas para tornar os plásticos mais flexíveis e difíceis de quebrar.

Esses componentes estão em objetos comuns: recipientes, xampus, cosméticos, móveis, agrotóxicos ou alimentos enlatados, entre outros produtos.

Vários estudos nos últimos 20 anos mostraram que eles alteram os hormônios masculinos, como a testosterona, e causam problemas congênitos genitais em bebês do sexo masculino.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão ligado ao Departamento de Saúde dos Estados Unidos (equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil), declaram em seu site que os efeitos da exposição moderada a ftalatos são desconhecidos, mas reconhecem que alguns tipos dessas substâncias afetaram o sistema reprodutivo de animais em laboratório.

Swan concedeu a entrevista a seguir à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

BBC News Mundo: Em seu livro, a senhora diz que a fertilidade caiu mais de 50% nos últimos 50 anos e que a contagem de espermatozóides pode cair para zero até 2045, ou seja, em pouco menos de 25 anos. De onde vêm esses dados?

Swan: Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que os dados de fertilidade não vêm da minha própria pesquisa, mas do Banco Mundial.

Na instituição, pode-se pesquisar a taxa de fertilidade - isto é, o número médio de filhos que uma mulher tem - para cada ano e país desde 1960.

Dito isso, de 1960 até agora, essa taxa caiu para mais da metade, de cinco filhos por mulher ou casal para 2,4 filhos por mulher ou casal, uma queda de mais de 50%.

Já o declínio na contagem e concentração de espermatozóides é muito mais difícil de estabelecer. Para isso, fizemos uma grande meta-análise de estudos já publicados, e revisamos todos aqueles publicados nos últimos 40 anos para ver os dados sobre espermatozoides relatados por pesquisadores em seus respectivos países ou estudos.

O que descobrimos foi que a concentração caiu de 99 milhões de espermatozoides por mililitro - quase 100, o que é muito - em 1973 para 47 milhões em 2011.

É uma queda preocupante por vários motivos, sendo o principal deles o fato de ser muito íngreme.

Isso em países ocidentais, na Europa, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, porque países não ocidentais têm poucos estudos publicados e pesquisamos em inglês, portanto, trabalhos em outros idiomas não estão incluídos no livro.

Se você olhar os dados dos últimos 30, 20, 10 anos, perceberá que o declínio não se tornou mais lento, portanto não há indicação de que esteja diminuindo.

Já 47 milhões é um número baixo e continuará diminuindo. Abaixo dos 40 milhões, entramos no ponto em que é cada vez mais difícil ter um filho, digamos, da forma tradicional, o que traz a necessidade de reprodução assistida.

BBC News Mundo: A senhora fala de uma crise existencial global. Como a situação ficou tão ruim e por que isso não é tão discutido?

Swan: Sim, o que estávamos fazendo quando isso estava acontecendo? Estávamos mais preocupados com outras crises. Não podemos esquecer a mudança climática, que está ofuscando outras crises, e, mais recentemente, a pandemia da covid-19.

Mas isso é muito anterior à pandemia e, na verdade, remonta ao fim da 2ª Guerra Mundial, quando a produção de derivados de petróleo aumentou.

O plástico e muitos dos produtos químicos que nos preocupam, e que penso estarem relacionados a este declínio, começaram a ser produzidos em grandes quantidades em todo o mundo. Eles são produtos químicos feitos com petróleo e derivados de petróleo.

A crise climática global e a crise da saúde reprodutiva cresceram juntas porque estão ligadas a produtos semelhantes.

Outra razão pela qual não estamos tão cientes da crise de fertilidade é que as pessoas não falam sobre saúde reprodutiva.

Em primeiro lugar, as mulheres são frequentemente responsabilizadas por falhas na saúde reprodutiva. Presume-se que, se um casal não consegue conceber, a mulher é a responsável.

As pessoas não querem falar sobre coisas pelas quais se sentem mal ou culpadas, e os homens definitivamente não querem considerar a possibilidade de serem inférteis ou ter pouco esperma, porque sentem que isso ataca sua masculinidade.

Portanto, é uma espécie de zona secreta que se tenta evitar.

Mesmo muitos dos casais que têm problemas para conceber e vão aos programas de reprodução assistida não contam aos amigos, é algo escondido.

Problemas relacionados à menstruação ou sexo, como falta de libido ou disfunção erétil, também não são discutidos. Todos são assuntos constrangedores.

Acredito que há um fator aí que não vemos, por exemplo, quando falamos sobre problemas cardíacos ou diabetes.

As pessoas não têm vergonha de falar sobre sua diabetes da mesma forma que falam sobre infertilidade.

Acho que essa é outra razão pela qual não temos prestado tanta atenção: estamos ocupados com outras coisas e não queremos falar sobre isso.

BBC News Mundo: Lembro de um caso próximo a mim, uma mulher que deu à luz um filho natimorto. Tudo estava indo bem, mas de repente os médicos constataram que o bebê não tinha batimentos cardíacos. Muitas pessoas ficaram surpresas que algo assim pudesse acontecer nos Estados Unidos, como se fosse algo que só acontece em países em desenvolvimento...

Swan: Exatamente, não se trata, portanto, de um problema de primeiro mundo. É mais um motivo pelo qual as pessoas não querem abordar esse assunto; "é algo que acontece com os outros", são "eles" que têm um problema. Ou mesmo dentro dos Estados Unidos, "algo que acontece com não brancos".

De fato, aqui (EUA) há uma questão de justiça, que os não-brancos têm mais problemas reprodutivos.

Isso está relacionado, acredito, a uma maior exposição a produtos químicos que podem causar esses danos e também há outros fatores de saúde, como estresse, dieta pobre e outras coisas que se cruzam e agravam seus problemas de fertilidade.

Não estamos expostos a esses problemas da mesma maneira.

BBC News Mundo: Quando pensamos em produtos químicos, tendemos a achar que a ameaça está na comida e na água, mas, de acordo com suas pesquisas, ela é mais ampla.

Swan: É maior, sim, embora eu diria que é muito bom pensarmos em comida, água e ar, porque os produtos químicos que mais investiguei são os que estão no plástico e são chamados de ftalatos.

Nossa principal exposição a esses produtos químicos acontece por meio dos alimentos.

Quando os alimentos entram em contato com o plástico, os ftalatos presentes no plástico macio penetram nos alimentos e de lá chegam até nós. Isso pode acontecer quando o alimento é processado ou mesmo antes, na embalagem, ao armazenar alimentos em recipientes ou ao comê-los.

Quando as pessoas me perguntam o que fazer, eu digo: "Tente tirar o plástico da sua cozinha". Tento usar recipientes de vidro, cerâmica e metal.

Há também o bisfenol A (geralmente abreviado como BPA), que endurece o plástico e entra em nossa comida por contato com latas ou garrafas de plástico.

Qualquer plástico rígido que você possa imaginar tem BPA, ou bisfenol S ou bisfenol F, que são usados como alternativa porque as pessoas querem comprar produtos sem BPA.

Ao falar sobre comida, devo mencionar que os recipientes também são uma preocupação para que os alimentos não grudem em panelas ou embalagens que dizem ser resistentes à água e contêm produtos químicos perigosos.

Se formos além da comida, devemos falar sobre poliéster nas roupas, retardadores de chama em móveis, PVC (cloreto de polivinila), que é usado especialmente na Europa para pisos e revestimentos de parede etc.

São produtos químicos que podem afetar nossos hormônios e são os mais preocupantes por causa de seus efeitos sobre a testosterona, o estrogênio. São produtos químicos conhecidos como desreguladores endócrinos ou hormonais.

O que acontece é que, quando entram no corpo, podem afetar nossos próprios hormônios e o momento mais perigoso para que isso aconteça é nos primeiros meses de gravidez.

O embrião está se desenvolvendo muito rapidamente, muitas células estão se dividindo e girando, e seu desenvolvimento foi programado para usar hormônios como indicadores dos processos que devem ocorrer.

Se esses hormônios são alterados de uma maneira que, por assim dizer, eles não entendem a mensagem, então esse desenvolvimento é alterado e isso é algo que medimos em nossos estudos.

Observamos casos de crianças do sexo masculino que são, como dizemos, "sub-masculinizadas" pela falta de testosterona durante o desenvolvimento no útero e pelo efeito em seu sistema reprodutivo.

Lá podemos ver que esses produtos químicos podem afetar o número de espermatozoides por meio de alterações hormonais, seja durante a gravidez ou na vida adulta.

O fumante tem baixo número de espermatozoides, sabemos disso, e a diferença é que um adulto que fuma pode tomar a decisão de parar e sua contagem de espermatozoides se recupera, mas não podemos fazer nada com a alteração que ocorreu quando ele estava no útero materno.

Isso é permanente, é uma alteração para toda a vida.

BBC News Mundo: A senhora também fala de "produtos químicos eternos". Quais são eles, especificamente?

Swan: São produtos químicos como o DDT (dicloro difenil tricloroetano), dioxinas ou PCDs e são chamados de eternos porque não se dissolvem na água e não saem do corpo rapidamente.

Os ftalatos são o oposto, são solúveis em água, como o BPA, chegam à urina e o corpo os expele, então em cerca de quatro horas metade deles sai, muito rapidamente.

Mas os produtos químicos eternos permanecem por anos e às vezes décadas, e eles não estão apenas em nós, armazenados na gordura, mas também no meio ambiente, na gordura dos animais como os peixes que comemos, e no solo que chega até a nossa água e este é como os recebemos.

O perigo dos produtos químicos eternos é literalmente eterno.

O bom dos produtos químicos não persistentes, como ftalatos e BPA, é que, uma vez que os expulsamos do corpo, eles não permanecem por perto. O problema é que eles sempre chegam até nós.

Neste momento, temos em nosso corpo, com 90% de certeza, ftalatos e bisfenóis.

E a propósito, não temos consciência disso, não sabemos quais são os níveis, não sabemos de onde os estamos tirando, a maioria das pessoas não sabe o que procurar e é por isso que digo que somos cobaias.

As empresas nos Estados Unidos não precisam provar que os produtos químicos são seguros antes de colocá-los no mercado. Na Europa, é diferente. Existe uma norma melhor na União Europeia que estabelece que um produto químico deve ser testado para ser seguro antes de ser colocado no mercado.

É uma legislação chamada "Reach" e que realmente mudou a forma como esses produtos químicos são encarados pelo público.

Mas nos Estados Unidos, e eu diria que na maioria dos países do mundo, não é esse o caso.

Precisamos mudar o sistema para que os produtos químicos sejam comprovadamente seguros antes de serem colocados no mercado. Isso pode ser feito por meio de testes e tentativas.

E precisamos explicar que mesmo uma pequena dose é importante.

É muito surpreendente ver que a maioria das pessoas pensa "ah, é tão pequeno que não pode me machucar". Isso não é verdade.

Quando se trata do sistema endócrino, os humanos foram projetados para serem sensíveis a mudanças hormonais muito pequenas.

Até mesmo o sexo de um gêmeo afeta o desenvolvimento dos hormônios e do sistema reprodutivo do outro gêmeo.

Estamos falando de exposições de menos de uma gota em uma piscina. Essa leve exposição é suficiente para alterar o desenvolvimento e isso porque nosso corpo é extremamente sensível a pequenas mudanças hormonais.

BBC News Mundo: Houve casos notórios de escândalos com produtos químicos, como os da Monsanto, Dupont, Johnson & Johnson, mas não parecem ser tantos diante da gravidade do problema que a senhora apresenta. Por quê?

Swan: São casos jurídicos e no campo do direito é extremamente difícil comprovar os malefícios que pequenas doses e efeitos brandos causam, pois não afetam ninguém de forma dramática, exceto em casos de exposição no ambiente de trabalho.

Assim, os casos de alta exposição no trabalho podem estar relacionados a certos defeitos congênitos ou problemas de saúde específicos, mas não quando as pessoas experimentam pequenas mudanças.

Tome-se como exemplo o chumbo. A exposição de crianças ao chumbo reduz seu QI (Quociente de Inteligência), mas em pequena quantidade. Por isso, se você tem uma criança com um QI levemente inferior, não pode comprovar que o chumbo da tinta usada na pintura da casa quando sua mãe estava grávida é responsável por isso.

É a mesma situação com esses produtos químicos. Pequenas doses afetam milhões de pessoas em pequenos números e têm um grande impacto econômico e de saúde em nossas populações, mas estabelecer a ligação entre causa e efeito é muito difícil.

Acho que temos que fazer da maneira que eu faço: investigando minuciosamente um determinado produto químico e uma consequência específica.

Concentro-me em ftalatos e saúde reprodutiva e tenho sido capaz de relacioná-los de forma bastante convincente, especialmente porque demonstro sua correspondência com estudos em animais e sua correspondência com estudos de laboratório que mostram a ação desses produtos químicos sobre os hormônios.

Quando você junta tudo isso, você tem o que é chamado de ônus da prova que leva a uma decisão.

Foi o que aconteceu em 2008 com a Lei de Proteção ao Consumidor, que fez o recall de alguns brinquedos infantis nos Estados Unidos.

A ação exige um trabalho longo e caro de cientistas, reguladores e ativistas.

Se os fabricantes fizessem seus testes mais cedo, não precisaríamos disso.

Essa é a situação em que estamos.


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