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Conteúdo publicado há
1 mês

Sem leitos, pessoas estão morrendo nas ambulâncias, afirma médico na Bahia

do UOL

Alexandre Santos

Colaboração para o UOL, em Salvador

04/03/2021 17h52Atualizada em 04/03/2021 23h02

"Não duvide que hoje não temos vagas para as pessoas nos hospitais, e muitas delas (as pessoas) estão falecendo dentro das ambulâncias e na porta das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento)". O alerta feito pelo médico Pedro Julião, que atua no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), mostra a dimensão do drama de quem necessita de um leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) voltada para o tratamento de covid-19 na Bahia.

Em meio ao colapso nas redes pública e privada de saúde, um paciente que hoje busca atendimento em Salvador tem aguardado de 36 a 48 horas por uma vaga. Antes do cenário crítico da pandemia, o tempo de espera era, em média, de até oito horas. "As vagas surgem quando o paciente recebe alta ou morre", diz o prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM).

Até o início da tarde, 337 pessoas aguardavam na fila por um leito de UTI em todo o estado, onde 84% dos leitos já estão ocupados, segundo dados da Sesab (Secretaria de Saúde da Bahia). Na capital, que passou absorver uma demanda crescente de doentes residentes no interior, 117 pacientes estão à espera de uma vaga. O número é o mais alto desde o início da pandemia.

"Temos um novo recorde (117). Ontem eram 107. Anteontem eram 96. Os números não cedem. Por mais que estejamos com medidas mais restritivas, os números continuam crescendo em nossa cidade. Se os números não cederem, precisaremos adotar medidas ainda mais restritivas. Estamos com limite de respiradores, equipes e locais disponíveis na cidade", afirmou Bruno Reis em uma coletiva virtual.

No vídeo que divulgou nas redes sociais, o médico Pedro Julião relata a agonia de quem precisa ser transferido de outros municípios para Salvador.

Estamos desde as 15h com um paciente dentro da ambulância com desconforto respiratório, fazendo uso de oxigênio suplementar e máscara não reinalante. Salvador não tem vagas para a gente levar os pacientes. O que eu estou querendo dizer com isso? Por favor, entendam: a situação é gravíssima. Nós chegamos ao limite da ocupação dos leitos, Nós chegamos no limite da ocupação dos leitos
Pedro Julião

Diante do momento dramático, Julião faz um apelo à população a favor das medidas restritivas que vigoram para conter o avanço da covid-19 e suas novas cepas. "Sabemos que hoje a necessidade do isolamento social é muito importante. Eu entendo que os comerciantes, as pessoas que precisam do trabalho informal, precisam levar comida pra casa, mas a gente tem que pensar que a vida humana é muito mais importante do que isso", avalia.

Em seguida, ele pede que as pessoas atendam ao toque de recolher. "As decisões do governo do Estado e da prefeitura em ter esse perfil de isolamento social, lockdown, toque de recolher, a intenção é o isolamento social. Faça a sua parte, gente. A situação é real e precária", pede o médico.

Salvador vazia - Jefferson Peixoto/Futura Press/Estadão Conteúdo - Jefferson Peixoto/Futura Press/Estadão Conteúdo
Salvador com ruas vazias após medidas de restrição impostas pelo governo da Bahia
Imagem: Jefferson Peixoto/Futura Press/Estadão Conteúdo

Médico fala em pior momento da pandemia

Pedro Julião afirmou que, desde o início da pandemia, não houve fase tão delicada quanto a que os profissionais da linha de frente de Salvador, onde ele trabalha, estão vivenciando. Este aumento do número de pessoas internadas faz com que o problema da falta de vagas em hospitais seja grave.

"Essa falta de ventilador não é à toa, é porque nos estamos precisando entubar e transportando pessoas entubadas, e a quantidade aumentou significativamente. Infelizmente nem todo mundo consegue as vagas", explicou ele em entrevista nesta noite à CNN Brasil.

De acordo com o médico, existem casos de pacientes que aguardam em UPAs, Unidades de Pronto Atendimento, por muitos dias e até uma pessoa que precisou ficar 24h dentro de uma ambulância aguardando transferência.

Pedro acredita que a população precisa se conscientizar do momento delicado em que vivemos e diz que, durante o caminho para as ocorrências, é muito comum que os profissionais vejam pessoas caminhando sem máscara e se aglomerando.

"Para mim o mais importante é trazer a população, fazer com que acredite que as situação é real, a quantidade das pessoas entubadas que estamos transportando é muito maior do que no início da pandemia, isso é fato", concluiu ele.

Estamos no limite, diz secretaria de Saúde

A secretária estadual de Saúde em exercício, Tereza Paim, diz que, mesmo com a ampliação de leitos, a fila só aumenta. "Hoje, amanhecemos com 337 pessoas de novo aguardando leitos covid. A gente tem que contabilizar, ir para hospital, sensibilizar a todos, fazendo gestão da alta responsável, da possibilidade de realocar pacientes que estão retirando oxigênio, já em leitos clínico (...) A gente clama para a população", diz Tereza.

Ela admite que a situação está perto do colapso. "Nós estamos no limite dos leitos. A gente segue abrindo leitos, mas todos têm que entender que precisamos de profissionais para esses leitos, precisamos de equipamentos", admite.

As cidades com maior alta de taxa de ocupação de leitos estão nas regiões sul (81%) e sudoeste (87%) da Bahia, de acordo com a secretária. Ela diz que, apesar de a pasta estar conseguindo mobilizar leitos, a taxa de contaminação em ambas as regiões continua alta.

"Leito desocupado é paciente na ambulância a caminho do leito, senão não teríamos essa fila. Hoje, à espera de leitos clínicos são 224 pessoas. (...) O espalhamento está muito alto e as pessoas estão se contaminando e, progressivamente, contaminando outras pessoas", explica a secretária. Ao todo, a Bahia registrou 12.212 mortes por coronavírus e 400.802 casos da doença.

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