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"Vitória da resistência": longa brasileiro estreia na 71ª Berlinale encenando mitologia yanomami

03/03/2021 13h38

Único longa brasileiro na competição oficial da 71ª Berlinale, "A Última Floresta", de Luiz Bolognesi, estreou nesta quarta-feira (3) na Mostra Panorama do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que, em 2021, acontece em formato híbrido, com uma edição compacta em março fechada para o mercado, e um breve evento presencial em junho. O filme retraça a mitologia yanomami, configurando uma mistura inédita entre documentário e ficção encenada por atores indígenas, denunciando garimpos ilegais e o desmatamento da floresta, num roteiro coassinado pelo xamã e ativista Davi Kopenawa.

Único longa brasileiro na competição oficial da 71ª Berlinale, "A Última Floresta", de Luiz Bolognesi, estreou nesta quarta-feira (3) na Mostra Panorama do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que, em 2021, acontece em formato híbrido, com uma edição compacta em março fechada para o mercado, e um breve evento presencial em junho. O filme retraça a mitologia yanomami, configurando uma mistura inédita entre documentário e ficção encenada por atores indígenas, denunciando garimpos ilegais e o desmatamento da floresta, num roteiro coassinado pelo xamã e ativista Davi Kopenawa.

[Clique na imagem do artigo acima para assistir o vídeo da entrevista

"Decidi fazer esse filme quando estava filmando o "Ex-Pajé" com os pater surui em Rondônia", conta Luiz Bolognesi. "O filme [vencedor do Prêmio Especial do Júri, na Berlinale de 2018] contava a história de uma aldeia invadida pela Igreja Evangélica, que demoniza o xamã, dizendo que as flautas mágicas que ele faz, os cantos, seriam coisas do diabo. O xamã é desqualificado, e a cultura [indígena] entra num processo de degradação muito forte", lembra o diretor.

Ainda quando estava filmando, Bolognesi já pensava em fazer outro filme exatamente ao "contrário". "Há aldeias e povos que ainda possuem um xamã muito forte, que luta e resiste para manter o centro deles de política, saúde e saber. Quis então fazer um filme que retratasse também este outro lado, a vitória da resistência", explica.

"Decidi então filmar com os yanomami, porque sabia que o Davi Kopenawa era um xamã que lutava muito fortemente para manter a cultura yanomami, recusando a entrada da Igreja Evangélica e de armas de fogo  no meio de seu povo, que é proibido por ele de caçar com espingarda, ele prefere continuar com o arco e flecha. Ele recusa até o Bolsa Família, porque diz que sal e açúcar destroem seus hábitos alimentares, de caça e a própria saúde dos índios", relata o diretor de "A Última Floresta".

"Ao invés de apenas retratá-lo como personagem, eu radicalizei um pouco mais. Eu convidei o Kopenawa para ser coautor do filme comigo", diz Bolognesi. "Este filme também é escrito oralmente por ele, fizemos o roteiro juntos. Nesse sentido, esse documentário yanomami tem esse dispositivo durante alguns dias - filmávamos cenas que aconteciam realmente em alguns momentos, em outras encenávamos histórias contadas por Davi ou por outros moradores da aldeia que se entrelaçavam à história principal que estávamos contando", diz.

 

Sonhos e mitos yanomamis

"Filmamos até sonhos e mitos dos yanomamis", conta o diretor. "Para eles, e a maioria dos povos indígenas do Brasil, não há uma separação entre o que é mundo real e o que é sonho. A gente separa, o lugar das lendas é guardado numa caixa como se fosse algo falso. Para eles, o que acontece de noite, durante o sonho, é verdadeiro. O índio pode ter passado a noite voando como uma coruja ou ter acordado muito cansado por ter fugido de um jaguar", relata. "Na verdade, muitas das coisas que acontecem de dia, eles só compreendem à noite", diz.

"Decidimos então filmar de um modo indígena, filmando também sonhos e tratando num nível de realidade onde não se separa o que é realidade, o que é sonho, o que é magia, o que é mito, o que é documentário clássico, o que é documentário encenado, na verdade é tudo uma grande mistura, o que traduz a maneira com que eles lidam com isso", detalha Bolognesi.

A leitura do livro "A queda do céu", de autoria de Davi Kopenawa, num diálogo com o antropólogo francês Bruce Albert, publicado no Brasil pela Cia das Letras em 2015, foi definitivo para a decisão de Luiz Bolognesi convidar o xamã yanomami para juntos fazerem o longa-metragem "A Última Floresta". "Na minha opinião, além de tudo, como valor literário, esse é o grande livro que eu li no século 21. No século XX, o livro que mais me impressionou foi o Grande Sertão Veredas (de Guimarães Rosa, 1956); para mim 'A Queda do Céu' é o 'Grande Sertão' do século 21", avalia o diretor.

"A grande novidade é você ter um contador de histórias que traz o ponto de vista de quatro mil anos de cultura americana pré-cabralina, olhando o mundo com esse dispositivo mágico. A ciência também é algo mágico, a sabedoria mitológica também é científica, ela produz realidade", lembra.

"Em 2019, 15 mil garimpeiros entraram ilegalmente no território yanomami, uma terra legalmente demarcada, constituída com medida provisória do Executivo, aprovada pelo Congresso. Pela lei brasileira, nenhum branco pode entrar na terra indígena sem autorização", denuncia o diretor. " Nem as autoridades brasileiras, nem o Legislativo, nem o Executivo, curiosamente, não mandam esses invasores embora. O que eles estão fazendo é extremamente devastador. Eles derrubam a floresta para extrair ouro, a mata fica destruída, não há como se recuperar, eles trabalham com mercúrio que é um metal pesado, que mata os peixes e todos os animais que vão beber água, além das crianças e adultos yanomamis que se hidratam ali", diz Bolognesi.

A premiação das mostras competitivas desta primeira parte da 71ª edição da Berlinale será anunciada nesta sexta-feira (5), em Berlim. O filme A Última Floresta", de Luiz Bolognesi, deverá entrar em cartaz no Brasil no segundo semestre de 2021.

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