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1 mês

'É uma corrida contra o tempo, e agora meu maior medo é a covid-19', diz caçador de nazistas

Em entrevista à BBC News Brasil, Efraim Zuroff, o mais famoso caçador de nazistas da atualidade, fala sobre a atividade que desenvolve há mais de 40 anos - Getty Images
Em entrevista à BBC News Brasil, Efraim Zuroff, o mais famoso caçador de nazistas da atualidade, fala sobre a atividade que desenvolve há mais de 40 anos Imagem: Getty Images

Luis Barrucho

Da BBC News Brasil, em Londres

26/01/2021 20h26

Há mais de 40 anos, o americano-israelense Efraim Zuroff dedica-se a uma missão: caçar nazistas.

Seu objetivo é levar à Justiça aqueles que foram responsáveis pelo Holocausto — o assassinato em massa de milhões de judeus, bem como homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová e outras minorias, durante a 2ª Guerra Mundial, a partir de um programa de extermínio sistemático patrocinado pelo partido nazista de Adolf Hitler — mas conseguiram escapar, escondendo-se em diferentes partes do mundo, inclusive na América do Sul, como no Brasil.

Mas esse não é um trabalho fácil. "Nem sempre os governos querem processar e julgar esses criminosos", diz ele à BBC News Brasil.

"Digo que sou um terço investigador, um terço historiador e um terço lobista. Tenho que criar vontade política onde não há vontade política (para processá-los e julgá-los)", acrescenta.

Agora, ele enfrenta um novo desafio em sua corrida contra o tempo, uma vez que a grande maioria dos responsáveis por essas atrocidades já morreram ou estão muito velhos.

"Meu maior medo agora é a covid-19", diz.

"Brinco que sou o único judeu do mundo que reza pela boa saúde dos nazistas para que eles possam sobreviver e serem julgados pelos crimes que cometeram", acrescenta.

Historiador do Holocausto, Efraim Zuroff é caçador-chefe de nazistas no Centro Simon Wiesenthal Center e fundador e diretor do escritório em Israel.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil — O Sr. teve um papel fundamental em levar criminosos nazistas à Justiça. O Sr. descobriu algum vivendo na América do Sul e, mais especificamente, no Brasil?

Efraim Zuroff — Eu nasci depois do fim da 2ª Guerra Mundial, então não pude levar nenhum dos grandes 'tubarões' nazistas a julgamento. Mas já identifiquei mais de 3 mil nazistas e rastreei seus destinos de imigração.

Em 40 casos, alguma ação legal foi tomada ou essas pessoas foram publicamente expostas, e tenho muito orgulho disso. O mais importante que eu levei à Justiça foi um homem chamado Dinko Sakic (croata, comandante do campo de concentração Jasenovac, conhecido como 'Auschwitz dos Balcãs'). Eu o encontrei em Santa Teresita, ao sul de Buenos Aires.

Não achei nenhum caso no Brasil, mas houve importantes criminosos nazistas que foram pegos ou morreram ali antes de eu começar minhas atividades, como Joseph Mengele (médico nazista apelidado de o 'Anjo da Morte' por experimentos científicos em judeus; morreu afogado após um derrame em Bertioga, em São Paulo), Franz Stangl e Gustav Wagner (ambos austríacos; o primeiro foi comandante dos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka e o segundo, vice-comandante do campo de extermínio de Sobibor; ambos trabalharam na Volskwagen em São Paulo) e Herberts Cukurs (letão, membro do Comando Arajs, unidade de extermínio de judeus durante o Holocausto na Letônia; tinha uma pequena empresa de táxi aéreo em São Paulo; foi atraído pela Mossad, o serviço secreto de Israel, e assassinado em Montevidéu, no Uruguai).

Na América do Sul, a Argentina se tornou um destino popular entre nazistas devido ao clima político. Hoje, sabemos que o governo argentino da época criou um comitê especial para buscar essas pessoas e oferecer-lhes abrigo. Péron (Juan Perón, presidente da Argentina) tinha essa ideia louca de que trazer esses europeus para a Argentina elevaria os níveis científico e cultural do país.

BBC News Brasil — Quais são os principais desafios com os quais o Sr. se depara em sua profissão?

Zuroff — Em primeiro lugar, eu não posso processar e levar ninguém a julgamento. Tenho que contar com a boa vontade dos países onde esses criminosos decidiram se esconder.

Digo que sou um terço investigador, um terço historiador e um terço lobista. Tenho que rastrear o paradeiro desses criminosos. Ninguém está atrás deles, mas eu estou. Tenho que construir o caso a partir de muita pesquisa histórica. E, por fim, convencer o país a julgar essa pessoa.

Mas muitos países não querem fazer isso porque têm medo da publicidade ruim, dos custos e porque sabem que essas pessoas vão morrer em breve porque estão muito velhas. Então, preciso fazer lobby, me tornar um lobista, para criar vontade política onde não há vontade política.

BBC News Brasil — Como o Sr. consegue rastrear o paradeiro dos nazistas?

Zuroff — Oferecemos dinheiro por informações que nos ajudam a levá-los à Justiça. Temos um projeto chamado 'Operation Last Chance' (Operação Última Chance, em português). Inicialmente, oferecemos US$ 10 mil mas esse valor pode chegar a até US$ 25 mil ou 25 mil euros.

Como resultado, tivemos muita publicidade e recebemos denúncias ao redor do mundo. Mas confesso que muitas dessas informações são inúteis.

Por exemplo, uma vez recebi uma denúncia por e-mail de uma pessoa que dizia que, 40 anos antes, soubera de uma história de um alemão que vivia numa comunidade na Floresta Amazônica. O denunciante não se lembrava da localização exata dessa comunidade, só de que todos conheciam o homem como 'alemão'. Ou seja, na visão dele, esse homem era um nazista.

O que ele esperava de mim? Que eu entrasse em um avião e fosse até a Amazônia para achar essa pessoa? É um absurdo.

Mas houve casos em que recebemos informações que nos possibilitaram descobrir o paradeiro de nazistas - que foram, então, expostos ou até processados e julgados.

Enfrentamos uma corrida contra o tempo. Agora, contra a covid-19. Meu maior medo é que algumas dessas pessoas vão morrer por coronavírus.

Brinco que sou o único judeu do mundo que reza pela boa saúde dos nazistas para que eles possam sobreviver e serem julgados pelos crimes que cometeram.

Às pessoas que olham para esses criminosos e dizem: "ah, mas eles estão muito velhos, por que você ainda se incomoda com eles?", sempre digo que sofrem da 'síndrome da compaixão equivocada'.

Esses criminosos não devem ter a nossa compaixão, porque eles não tiveram compaixão por suas vítimas, algumas das quais eram até mais velhas do que eles são hoje.

BBC News Brasil — O Sr. mencionou que muitos desses criminosos já morreram ou estão muito velhos. Como o Sr. vê o seu trabalho no futuro próximo, daqui a cinco ou dez anos?

Zuroff — Tenho estado muito envolvido nos últimos tempos com o que chamo de 'distorção do Holocausto' - pessoas que dizem que a Shoá (como é chamado o Holocausto) não aconteceu ou que foi muito menor do que de fato foi.

Na minha visão, o problema maior é a mudança da narrativa do que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial.

Muitos países do leste europeu que se tornaram democracias nos últimos 30 anos não questionam, mas negam seu envolvimento com o Holocausto.

Esses governos não querem contar a verdade, pois é difícil para eles enfrentá-la. Novas democracias precisam de heróis. E quem são eles? Aqueles que lutaram contra os soviéticos.

Mas e se essas pessoas que lutaram contra os soviéticos mataram judeus durante a 2ª Guerra Mundial? Isso deveria desqualificá-los.

Como você pode transformar um assassino em série em herói nacional?

BBC News Brasil — O Sr. já pensa na possibilidade de caçar neonazistas? Como o Sr. vê esse movimento em ascensão ao redor do mundo?

Zuroff — Meus colegas dos escritórios de Los Angeles (EUA) e de Buenos Aires (Argentina) estão trabalhando nisso. Deixo essa tarefa com eles. Não posso fazer tudo. Minha missão envolve os nazistas da 2ª Guerra Mundial e lutar pela verdade.

Como disse, nem sempre consigo levá-los a julgamento e essa é uma dimensão muito triste do meu trabalho. É muito frustrante.

Mas o que quer que eu esteja passando, quaisquer frustrações que eu sinta, nada se compara ao sofrimento dos sobreviventes. Eles passaram pelo inferno. O que eu passei é difícil, mas nada perto do que eles passaram. Eu sou o mensageiro deles, trabalho em nome deles.

BBC News Brasil — Ao passo que muitos criminosos nazistas já morreram ou estão no fim da vida, o mesmo se aplica aos sobreviventes do Holocausto. Como será possível preservar essa memória quando todos já tiverem morrido?

Zuroff — Nos últimos 75 anos, temos nos preparado para o momento quando não haverá mais sobreviventes. Temos centenas de milhares de depoimentos, muitos em vídeo, outros no papel.

Há várias iniciativas em andamento para usar Inteligência Artificial (IA) para ter a imagem do sobrevivente respondendo a perguntas mesmo que ele já não esteja mais vivo.

BBC News Brasil — Há um sem número de filmes e séries de TV sobre o seu trabalho de caçar nazistas. Qual é a sua opinião sobre esse tipo de entretenimento? Gosta de assistir?

Zuroff — Depende de como é retratado. Vi todos os episódios de Hunters com Al Pacino no Amazon Prime. Não é como a gente caça nazistas (risos). Aquilo é pura besteira, com todo o perdão da palavra.

Mas há produções muito mais precisas. Neste momento, estou negociando com quatro produtoras diferentes que estão pensando em fazer uma série documental sobre o verdadeiro caçador de nazistas.

Cerimônia virtual em memória das vítimas

Zuroff é um dos participantes de uma cerimônia virtual em homenagem aos 6 milhões de judeus assassinados que acontece às 19h (horário de Brasília) desta quarta-feira (27/1), organizada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) com o apoio institucional da Embaixada de Israel no Brasil e do Consulado Geral de Israel em São Paulo.

Nessa data é comemorado o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, por ocasião da libertação do campo de concentração de Auschwitz pelo Exército vermelho.

No evento, seis sobreviventes do Holocausto de diferentes comunidades judaicas do Brasil foram convidados para acender uma vela em memória das vítimas.

A cerimônia será transmitida no Facebook e no YouTube.

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