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Presidente da Eletrobras vê falta de tração para privatização e renuncia; deve assumir BR

25/01/2021 08h24

Por Luciano Costa e Marta Nogueira

SÃO PAULO (Reuters) - Wilson Ferreira Junior decidiu renunciar à presidência da Eletrobras após avaliar que o processo de privatização da elétrica não tem a tração que deveria para ser concluído, segundo explicou o executivo a analistas e jornalistas nesta segunda-feira. Ele deverá assumir a liderança da BR Distribuidora.

Ferreira, que fez carreira no setor privado e foi indicado para assumir o comando da elétrica em junho de 2016, ainda no governo do ex-presidente Michel Temer, permanecerá na função até 5 de março, visando ajudar na transição para um sucessor ainda a ser indicado, segundo informou a elétrica.

Ele foi mantido no cargo na transição para a administração de Jair Bolsonaro, sob expectativas de que liderasse a continuidade de planos para a privatização da companhia.

O executivo, que antes da Eletrobras presidiu por 18 anos a CPFL Energia , destacou que houve empenho e compromisso do Ministério de Minas e Energia para realizar a privatização da Eletrobras, mas que o processo foi adiado durante a pandemia e encontra resistência no Congresso.

"Nós não conseguimos ver a tração que esse processo... deveria ter. É uma percepção pessoal. E em cima dela foi que eu tomei essa decisão anunciada ontem", disse Ferreira.

O projeto de lei para a desestatização da Eletrobras foi encaminhado pelo Ministério de Minas e Energia do atual governo ao Congresso no final de 2019 e sequer teve relator definido até o momento.

Com o anúncio de sua renúncia, as ações da Eletrobras negociadas nos Estados Unidos caíam cerca de 11% por volta das 17h30.

A corretora XP Investimentos disse em nota clientes que a permanência de Ferreira na Eletrobras estava atrelada ao andamento da desestatização e destacou que sua saída "ocorre em meio à sinalização dos principais candidatos à presidência da Câmara e do Senado de que a privatização da estatal não é prioridade".

O candidato da gestão Bolsonaro à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na semana passada que a privatização da Eletrobras não seria uma prioridade.

Também na semana passada, a candidata do MDB à chefia do Senado, Simone Tebet, disse que seria difícil saber neste momento se o projeto de desestatização seria aprovado em 2021.

As declarações dos políticos derrubaram as ações da Eletrobras, que acumulam desvalorização de cerca de 15% neste ano.

Em comunicado, o Ministério de Minas e Energia ressaltou que Ferreira liderou um processo de melhoria da eficiência operacional e frisou que será dado prosseguimento às ações de redução de custos e de aprimoramento da estratégia de sustentabilidade da Eletrobras.

A pasta informou ainda que Ferreira permanecerá membro do conselho da Eletrobras e reiterou que o governo federal entende que "a capitalização da Eletrobras é essencial e necessária para a recuperação de sua capacidade de investimento".

Ferreira foi convidado a assumir na BR a posição ocupada hoje por Rafael Grisolia, que deixará a maior distribuidora de combustíveis do Brasil no fim deste mês. Grisolia ingressou na BR em 2017 como diretor executivo Financeiro e de Relações com Investidores para a condução de seu IPO e, desde 2019, ocupava o posto de presidente.

Conforme dispõe a legislação, compete à Comissão de Ética Pública (CEP) da Presidência da República analisar eventual necessidade de cumprimento de quarentena por parte do executivo, antes de assumir o cargo na BR Distribuidora. A consulta já foi formulada e a BR disse que aguardará deliberação da CEP.

Entre 1º de fevereiro e o início das atividades de Ferreira como presidente da BR, a distribuidora será liderada interinamente pelo diretor executivo de Operações e Logística, Marcelo Bragança, que será apoiado por um comitê de transição.

LEGADO

No comunicado sobre a mudança na administração, a Eletrobras destacou que "atingiu lucros históricos" sob a gestão Ferreira, que apostou inicialmente em cortes de investimentos e vendas de ativos para reduzir a alavancagem da estatal e recuperar os resultados.

Ele assumiu a empresa depois que medidas do governo federal para reduzir as tarifas de energia a partir de 2012 haviam levado a Eletrobras a acumular mais de 30 bilhões de prejuízos até 2015.

A companhia voltou ao positivo ainda em 2016 e registrou em 2018 o maior lucro em duas décadas, de 13,3 bilhões de reais, após ter se livrado ao longo daquele ano de uma série de distribuidoras de energia deficitárias nas regiões Norte e Nordeste, que foram privatizadas.

Ferreira também promoveu programas de demissão voluntária que reduziram significativamente o quadro da estatal, responsável por cerca de um terço da capacidade de geração e metade das redes de transmissão do país, visando reduzir custos e gerar ganhos de eficiência.

A Eletrobras destacou que ele também padronizou estatutos sociais das companhias do grupo e simplificou sua estrutura, com a venda, incorporação e encerramento de participações em empresas, além de ter atuado por um acordo nos Estados Unidos que encerrou ações contra a estatal relacionadas a achados da Operação Lava Jato.

Antes de deixar o posto, Ferreira também ensaiou um retorno da Eletrobras a novos investimentos-- subsidiárias da empresa chegaram a fazer propostas para arrematar projetos em um leilão de concessões para novos empreendimentos de transmissão de energia realizado pelo governo em dezembro, embora sem sucesso.

Citando um futuro agora ainda mais incerto, o analista Joao Pimentel, do BTG Pactual, afirmou preferir as ações preferenciais da companhia, uma vez que fornecem mais proteção aos dividendos se os resultados começarem a se deteriorar.

Para ele, a companhia praticamente se transformou em um negócio de geração e transmissão, o que ajuda a previsibilidade do fluxo de caixa e reduz as chances de as alterações de Ferreira serem desfeitas, conforme nota a clientes.

"Embora ainda vejamos um 'upside' significativo mesmo em um cenário de não privatização, existe o risco de a Eletrobras se tornar uma ação de 'peso morto'", acrescentou.

(Com reportagem adicional de Paula Arend Laier e Sabrina Valle)

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