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Vacinação lenta e rixa Bolsonaro-Doria afetam nota do país, diz agência

Alexi Agostini, economista-chefe da Austin Rating, agência de classificação de risco, diz que ambiente político pesa na nota do Brasil - Divulgação
Alexi Agostini, economista-chefe da Austin Rating, agência de classificação de risco, diz que ambiente político pesa na nota do Brasil Imagem: Divulgação
do UOL

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

24/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Economista-chefe da agência de classificação de risco, Alex Agostini, lista problemas que atrapalham melhora da nota de crédito do Brasil
  • Para Agostini, disputa entre governos federal e paulista atrasa retomada econômica e, por tabela, classificação do Brasil
  • Austin Rating diz que ritmo da imunização também é um obstáculo que o Brasil precisa superar para melhorar nota e atrair investidores

A nota do Brasil, dada por agências de avaliação, mostra aos investidores internacionais que há um certo risco em investir aqui. O país pode ter dificuldades de orçamento e de honrar seus compromissos financeiros. Essa avaliação está ruim desde 2014 e não tem perspectiva de melhorar por diferentes fatores.

Um deles é o atraso na vacinação contra a covid-19 e outro é a disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e governadores de oposição, como João Doria (PSDB-SP). A análise é do economista-chefe da agência de avaliação de riscos Austin Ratings, Alex Agostini.

A Austin, com 35 anos de mercado, é a maior agência classificadora de risco de crédito de origem brasileira, mas com atuação global. Agostini aponta que a crise econômica provocada pela covid-19 tem sido um obstáculo para que o país retome o crescimento com a volta dos investimentos e a recuperação dos empregos.

Ambiente político afeta nota do Brasil

Para Agostini, o ritmo da imunização da população brasileira é fundamental para que a economia volte a crescer, mas o processo de vacinação poderia ser mais forte se houvesse maior harmonia do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso e os governos estaduais.

A questão do ambiente político também deu seu peso igualmente negativo sobre a dinâmica de avaliação da nota do país. Seja pela queda de braço entre o Executivo Nacional e o Legislativo, seja por questões de interesses regionais que desviam o foco do Executivo Nacional, deixando de atender as demandas nacionais, como, por exemplo, investimentos em infraestrutura, para focar em questões que dão ênfase ao processo eleitoral de 2022, como, por exemplo, tem ocorrido com as discussões acerca da vacina desenvolvida pelo Estado de São Paulo.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating

Pela Austin, o Brasil tem nota BB+ (essa avaliação é mantida desde 2016). Isso significa um posto intermediário, mas abaixo do patamar considerado "grau de investimento" (um sinal verde para os estrangeiros virem para cá). A pior nota da Austin é C (classifica um país ou empresa em situação de calote). A mais elevada é AAA (país ou empresa de alta confiabilidade).

Na entrevista ao UOL, o economista-chefe da Austin Rating falou ainda sobre o impacto que declarações de Bolsonaro, como a recente "o Brasil está quebrado", têm no rating. Veja abaixo os principais trechos da entrevista com Alex Agostini.

UOL: Neste momento, o que é mais importante para que o Brasil possa melhorar sua classificação de risco?

Alex Agostini: A Austin analisa um conjunto de aproximadamente 70 indicadores sobre ambiente econômico, como PIB, renda nacional, contas públicas, contas externas, crédito, além de indicadores de ambiente social, como o IDH e do ambiente político, considerando questões como propostas e aprovações no Congresso Nacional.

Porém, o atual momento por que passa o Brasil requer maior atenção aos gastos públicos, visto que desde 2014 o país registra recorrentes déficits primários e, em 2020, devido à pandemia, os gastos públicos federais deverão ficar ao redor de R$ 670 bilhões.

Ou seja, estamos acompanhando como o governo federal deve conduzir a questão fiscal para estabilizar a trajetória ainda crescente de dívida pública e, principalmente, qual o plano concreto e consistente para que haja redução dessa dívida, com valores e prazos.

Desses fatores, quais são vistos pela agência como sendo de alguma forma encaminhados pelo governo?

Por enquanto, a Austin acompanha com certa preocupação a condição fiscal e sua condução. Pois o governo federal está aguardando a definição da eleição dos presidentes do Senado Federal e da Câmara de Deputados para definir melhor sua estratégia de negociação de suas pautas no Congresso.

Por um lado, há a necessidade de retomar a trajetória das reformas estruturantes, com destaque para a administrativa e a tributária.

Por outro lado, a questão fiscal em nível preocupante exige do governo colocar em prática seu plano de concessões e privatizações, mas isso depende da aprovação do Congresso, e há resistência em alas do próprio governo.

O orçamento federal está comprometido em 95% com gastos obrigatórios e apenas 5% para despesas discricionárias [livres], portanto, a pauta sobre o Novo Pacto Federativo deve ser retomada em breve para reformar a execução orçamentária de modo que dê mais autonomia a estados e municípios em troca de mais mobilidade ao governo federal.

Além de variáveis econômicas, há outros fatores que estão afetando a capacidade de o Brasil evoluir sua nota de crédito?

Não há dúvida que o momento atual com relação à pandemia tem sido um fator que tem atrapalhado, em parte, visto que um aspecto importante de melhora da nota é um crescimento econômico próximo ao potencial do PIB nacional, ao redor de 3,5%, e de forma sustentável por diversos anos seguidos.

Já a questão do ambiente político também deu seu peso igualmente negativo sobre a dinâmica de avaliação da nota do país. Seja pela queda de braço entre o Executivo e o Legislativo, seja por questões de interesses regionais que desviam o foco do Executivo, deixando de atender as demandas nacionais, como investimentos em infraestrutura, para focar em questões que dão ênfase ao processo eleitoral de 2022.

Por exemplo, o que tem ocorrido com as discussões acerca da vacina desenvolvida pelo Estado de São Paulo.

Atraso na imunização da população brasileira contra a covid-19 é um fator que a agência considera relevante para classificação de risco?

A Austin avalia tanto os fatores determinantes como os condicionantes. Nessa questão de liberação do uso das vacinas e o cronograma de imunização, vemos como um fato condicionante que preocupa sim, pois, de forma direta, afeta um importante indicador determinante que é o PIB.

Ou seja, na medida que o tempo passa e o Brasil não consegue melhorar a percepção de risco dos agentes econômicos, como consumidores, empresários, investidores e governos, fica ainda mais comprometida a capacidade do país em gerar crescimento econômico, Isso influencia o nível de geração de emprego, renda e arrecadação de impostos.

Essa condição atrasa a melhora de nota do país se considerarmos que o passivo (a dívida) está aumentando, e o ativo (o PIB) segue estagnado. Logo, a conta não fecha.

Uma declaração do presidente Bolsonaro de que "o Brasil está quebrado" tem algum peso na composição da nota do Brasil?

Primeiramente, os indicadores sobre a questão fiscal e econômica são acompanhados mensalmente por nossa equipe de economistas. Logo, temos um painel de acompanhamento constante e conseguimos filtrar com segurança os eventos subjetivos que ocorrem de forma recorrente no país.

Porém, toda e qualquer declaração realizada por integrantes do Executivo, como o presidente da República ou os ministros de Estado, são acompanhadas pela Austin para analisar seu impacto no contexto nacional, econômico e financeiro.

O peso das declarações somente será considerado na avaliação do rating [nota] se os efeitos dessas declarações interferirem negativa ou positivamente na dinâmica macroeconômica, seja por quaisquer de reações nos ativos financeiros domésticos, por exemplo, uma forte alta ou queda do real frente ao dólar, ou impacto no mercado de juros futuros, ou mesmo por efeitos políticos que possam interferir na relação com o Congresso e atrasar votações relevantes.

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