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Suécia: mulheres são maioria no sacerdócio da Igreja Luterana mas ainda lutam por igualdade de salário

14/01/2021 06h47

Liderada por uma arcebispa e primeira do mundo a ordenar uma bispa assumidamente lésbica, a Igreja Luterana da Suécia atingiu um novo marco histórico em 2020: tornou-se também a primeira do mundo a alcançar uma maioria de mulheres no sacerdócio. Mas as mulheres da principal igreja do país querem mais - maior igualdade, melhores salários e a adoção de uma linguagem religiosa mais inclusiva.

Liderada por uma arcebispa e primeira do mundo a ordenar uma bispa assumidamente lésbica, a Igreja Luterana da Suécia atingiu um novo marco histórico em 2020: tornou-se também a primeira do mundo a alcançar uma maioria de mulheres no sacerdócio. Mas as mulheres da principal igreja do país querem mais - maior igualdade, melhores salários e a adoção de uma linguagem religiosa mais inclusiva.

Claudia Wallin, correspondentes da RFI em Estocolmo

"A luta pela igualdade de gênero na Igreja sueca continua, em várias frentes. E se não lutarmos, haverá retrocesso", diz à RFI Bulle Davidsson, presidente da associação nacional Mulheres da Igreja Sueca (Kvinnor i Svenska kyrkan).

"A igualdade salarial é uma questão de direitos humanos e democracia. Não deveríamos sequer precisar discutir isso", acrescenta.

A média salarial dos homens na igreja é de 41,4 mil coroas suecas (aproximadamente R$ 26,4 mil), contra 39,5 mil em relação às mulheres - segundo os números oficiais da Agência Central de Estatísticas da Suécia (SCB).

Hoje, de um total de 3.060 sacerdotes da Igreja Luterana sueca, 1.533 - ou 50,1% - são mulheres, contra 49,9% de homens. Os dados são do Conselho Mundial de Igrejas, organização que reúne diferentes denominações protestantes de todo o mundo. As mulheres representam ainda 89% do número de diáconos na Igreja sueca, e 37% do total de vigários. E aparecem também em maior número nos seminários do país.

As mulheres tornaram-se maioria no clero sueco 62 anos depois de conquistarem o direito de serem pastoras na igreja: a ordenação de mulheres começou em 1958, depois de quatro décadas de debates internos.

O processo de inclusão feminina foi mais rápido do que se previa. Em 1990, um relatório avaliou que demoraria um século para que metade do clero fosse formada por mulheres. Mas 30 anos depois, o marco foi atingido.

"Quanto mais igualdade alcançarmos, maior será a nossa representatividade como igreja", disse ao jornal religioso Kyrkans Tidning um dos integrantes do Conselho Eclesiástico da igreja sueca, Erik Gyll.

Para muitos, a maioria de mulheres no sacerdócio é um espelho da evolução da sociedade sueca, considerada uma das mais igualitárias do mundo. No mais recente relatório do Instituto Europeu para a Igualdade de Gênero, a Suécia aparece no topo do ranking dos países da Europa com maior índice de igualdade entre homens e mulheres - o país nórdico obteve uma pontuação de 83.6, contra uma média de 67.4 dos demais integrantes da União Européia.

Desafios

Desde 2014, a Suécia é liderada por uma arcebispa, Antje Jackelén. E em 2009, a Igreja sueca foi a primeira do mundo a ordenar como bispa uma mulher abertamente lésbica, Eva Brunne.

Apesar dos avanços para tornar a igreja mais igualitária, ainda são nítidos os desafios: na diocese de Gotemburgo, por exemplo, a ordenação da primeira bispa, Susanne Rappmann, foi recebida com reservas por parte de alguns, há apenas dois anos. Na cerimônia de ordenação, o pastor Rune Imberg afirmou que poderia reconhecer a liderança de Rappmann "em termos administrativos", mas nunca como líder espiritual.

Também são poucas as mulheres que alcançam posições mais graduadas na hierarquia da igreja: das 13 dioceses, apenas quatro são lideradas por mulheres.

A luta pela equiparação salarial é sindical: pastores, diáconos e demais funcionários religiosos estão agrupados no sindicato da classe, Kyrkans Akademikerförbund, que reúne mais de cinco mil membros.

Outra questão relevante para as mulheres, segundo Bulle Davidsson, é mudar os paradigmas da linguagem da igreja - que, para elas, é discriminatória em favor dos homens.

Em sua tese de doutorado, a especialista Agneta Lejdhamre, integrante da associação Mulheres da Igreja, destaca que na linguagem religiosa oficial, Deus representa o homem e o divino masculino, enquanto as mulheres são em geral representadas como pessoas subordinadas.

"Por que usar o termo 'Senhor', e não simplesmente Deus? Sabemos que Jesus foi um homem, mas por que também se referir ao filho de Deus como 'Ele', e não simplesmente como Jesus?", pergunta em entrevista à RFI a pedagoga Gunilla Åkesson, ex-presidente da associação Mulheres da Suécia.

A bíblia é, segundo ela, dominada por referências masculinas como exemplos de conduta, em detrimento das mulheres.

"E por que não falar em 'irmãos e irmãs' em vez de apenas 'irmãos', como se lê em tantos textos da igreja? Em muitos casos, a linguagem oficial é excludente em relação às mulheres. Mas as mulheres representam metade da população mundial", destaca Gunilla.

"Estamos muito à frente de outros países, mas precisamos de maior igualdade", acrescenta ela.

Resistências

A Igreja Luterana sueca separou-se da Igreja Católica em 1536, durante a Reforma Protestante. E só quatro séculos depois, viria a ordenar sua primeira pastora.

Durante o Sínodo de 1957, a proposta para autorizar a ordenação de mulheres foi rejeitada. No ano seguinte, estimulada pelo governo sueco, a questão foi levada de volta à mesa de debates, e terminou por obter maioria. Para os críticos, o direito das mulheres à ordenação foi aprovado sob pressão política.

Em 1960, foram ordenadas as primeiras três pastoras da Igreja Luterana sueca. Inicialmente, sacerdotes tinham direito de se recusar a trabalhar com colegas mulheres, mas a regra foi abolida no começo dos anos 80.

A principal resistência ao sacerdócio feminino sempre foi identificada no interior da própria igreja, ao passo que a maioria dos fiéis se mostrou favorável à inclusão das mulheres desde o início das discussões sobre o tema. No auge da era do movimento de libertação feminina, no princípio dos anos 70, uma pesquisa mostrou que 95 por cento da congregação era a favor da ordenação de pastoras, contra apenas 50 por cento dos integrantes do clero.

"Felizmente, conquistamos na Suécia um número expressivo de mulheres no sacedócio. Mas a Igreja é muito mais do que seus sacerdotes. Ela envolve os fiéis, seus representantes eleitos para os conselhos eclesiásticos e seus voluntários não-remunerados, assim como aqueles para os quais a igreja não é considerada tão relevante", diz Bulle Davisson.

Fundada em 1947, a associação Mulheres da Igreja busca por isso estimular e educar mulheres que são ou podem ser escolhidas para cargos eletivos na igreja, além de promover o desenvolvimento do pensamento feminino acerca da fé. Assim como cursos, conferências e workshops, a associação tem um grupo especial que trabalha especificamente com a questão da igualdade de gênero na igreja.

A Igreja Luterana da Suécia tem 5,9 milhões de fiéis, o que representa cerca de 60% da população do país. Isso não quer dizer, porém, que os suecos são particularmente religiosos - pelo contrário.

Até 1996, todos os suecos se tornavam automaticamente membros da Igreja sueca ao nascer. Mas nos últimos anos, o número de fiéis tem sofrido um forte declínio, especialmente entre a população mais jovem.

Mesmo entre os que ainda mantêm sua filiação como membros da igreja, poucos se consideram cristãos devotos. Apenas um em cada cinco suecos se diz religioso, e somente cerca de 2% dos fiéis comparece às missas dominicais com regularidade.

Segundo pesquisa do instituto Gallup International, os suecos estão entre os povos menos religiosos do mundo.

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