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Argentina venceu Brasil na disputa pela sede da Ford na América do Sul, diz economista

O fato da montadora deixar o Brasil no atual cenário econômico reforça a avaliação que há lacunas importantes na economia brasileira - Folhapress
O fato da montadora deixar o Brasil no atual cenário econômico reforça a avaliação que há lacunas importantes na economia brasileira Imagem: Folhapress

Raquel Miura

Correspondente da RFI em Brasília

13/01/2021 14h33

Em entrevista à RFI, a economista Cristina Helena Pinto de Mello, doutora em economia de empresas pela FGV e pró-reitora da ESPM, disse que o Brasil não tem um programa efetivo de desenvolvimento econômico que estimule a indústria e promova o crescimento.

A especialista diz ainda que país tem mais condições de abrigar um parque de montadoras do que os vizinhos na região, e que ainda não está claro porque empresa preferiu a Argentina, mas ressalta que Brasil não pensa no longo prazo.

"O Brasil carece de um plano de desenvolvimento de longo prazo. Há uma crença de que o equilíbrio das contas públicas é suficiente para fazer o país crescer, mas o passado já nos mostrou que isso não é verdade. Mercado e contas públicas precisam andar juntos", diz a economista Cristina Helena Pinto de Mello.

"É preciso diálogo, aliar a força política e produtiva. Não é fácil, mas é possível. Nós conseguimos fazer o '50 anos em cinco', na época de JK. Tivemos sim erros, como o financiamento monetário do crescimento. Nós também tivemos alto crescimento, em ritmo chinês, na década de 1970, também com muitos erros. Então podemos fazer, corrigindo os erros. É hora de haver menos verborragia, menos bravata e mais estratégia, agindo em conjunto", avalia.

A economista diz que a saída da Ford do Brasil parecer ter mais relação com o reposicionamento da montadora no mercado, diante da análise de um novo perfil consumidor das famílias, que projeta um consumo menor de veículos automotores e, aliado a isso, as tratativas avançaram mais na Argentina que no Brasil, onde a montadora contou com isenções fiscais para instalação de fábrica na Bahia.

"Nós temos mão de obra especializada, boa rede de malha viária, boa rede de fornecedores de autopeças, com amplo mercado consumidor, ou seja, o Brasil reúne condições para a produção automobilística. Mas também estamos vendo uma mudança no consumo das famílias. Então acho que a Ford levou em conta perspectivas de longo prazo, de que pode diminuir o consumo de automóvel, e ficar em dois países seria demais. Está claro que houve uma disputa pela sede da Ford na América do Sul e a Argentina ganhou."

Como detalhes da negociação com o governo de Alberto Fernandez não vieram a público, ela diz que "não dá para falar pela Ford e apontar o que foi negociado de fato. Mas chama a atenção que a Argentina também passa por um processo de desindustrialização, tem uma dívida externa alta e passa por um cenário político instável. E o Brasil, em todos esses indicadores, é um país melhor que seu vizinho. Então há algo que a gente não consegue enxergar, que ainda não está claro."

Incentivos fiscais

A analista diz que, no atual contexto, os incentivos fiscais são peça importante na negociação com o setor privado. "E dentro desse diálogo os incentivos são imprescindíveis poque estamos diante de um redesenho produtivo mundial, inclusive por causa da pandemia. Mas esse incentivo não pode significar um desequilíbrio das contas públicas, você não pode transferir o desequilíbrio do privado para o público", analisa. Não é isso que estamos tratando. Estamos tratando de incentivos para geração de emprego, de renda e, portanto, de arrecadação. É por isso que é preciso construir algo conjunto de forma que não seja o benefício de um em detrimento do outro", afirma.

O fato da montadora deixar o Brasil no atual cenário econômico reforça a avaliação que há lacunas importantes na economia brasileira, especialmente um projeto de crescimento para o futuro, com apoio à indústria.

"A Ford está saindo num dos piores momentos. Retirar investimento agora com esse câmbio, faz com que eles levem menos. Então me parece que a perspectiva de ganho fora do Brasil compensa essa taxa de câmbio atual. E também pode ser uma avaliação de que a taxa de câmbio deve continuar assim. Então a saída da Ford traz lições importantes, de que empresas podem sair daqui", lembra.

"Uma empresa não sai de um país de uma hora para outra. Poderíamos ter feito algo? Era interessante manter aqui a empresa? É algo para se pensar no futuro. O país não pode fechar o mercado para as nossas empresas. Isso não melhora as condições públicas, ao contrário", conclui Cristina Helena Pinto de Mello.

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