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Bolsonaro diz que Ford não falou a 'verdade' sobre saída: 'quer subsídios'

do UOL

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

12/01/2021 11h28Atualizada em 12/01/2021 17h04

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou hoje, em conversa com apoiadores, que, de acordo com o seu entendimento, a Ford não "falou a verdade" sobre a decisão de fechar as fábricas no Brasil. Na avaliação do presidente, a empresa queria subsídios para continuar produzindo veículos no país.

Segundo a Ford, a decisão faz parte da reestruturação global e também no mercado sul-americano. Além disso, a montadora alegou que a pandemia de covid-19 "ampliou a persistente capacidade ociosa da indústria e a redução das vendas, resultando em anos de perdas significativas".

Bolsonaro, no entanto, alegou que a Ford queria subsídios para manter as suas atividades no país. Ele citou um valor de R$ 20 bilhões que teria sido concedido à empresa nos últimos anos a título de incentivos fiscais, mas não foi específico sobre o período dos subsídios.

Mas o que a Ford quer? Faltou a Ford dizer a verdade, né? Querem subsídios. Vocês querem que eu continue dando R$ 20 bilhões para eles como fizemos nos últimos anos? Dinheiro de vocês, impostos de vocês, para fabricar carro aqui? Não. Perdeu a concorrência. Lamento
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

Bolsonaro ainda disse encarar a decisão da Ford como consequência da concorrência de mercado. Ele disse lamentar a estimativa de ao menos 5 mil demissões de funcionários.

O presidente classificou a competição com outras montadoras, principalmente de origem chinesa, como "concorrência predatória", que aconteceria da mesma forma em todo o mundo.

"Há três anos, a Ford anunciou que não ia mais produzir carro de passeio nos Estados Unidos. A falta de ambiente de negócios, na verdade, eles tiveram subsídios nossos ao longo dos últimos anos de R$ 20 bilhões. Queriam renovar subsídio para fazer carro para vender. Agora, tem a concorrência também... Chinesa, entre outras. Saiu porque, em um ambiente de negócio, quando você não tem lucro, você fecha", disse o presidente.

Ontem, em entrevista à CNN Brasil, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) afirmou que se surpreendeu com a decisão. "Não é uma notícia boa. Acho que a Ford ganhou bastante dinheiro aqui, no Brasil, né? Me surpreende essa decisão [de deixar o Brasil] que foi tomada pela empresa, que está há mais de 100 anos no Brasil, desde 1921. Eu acho que a empresa poderia ter retardado isso mais, e aguardado, até porque o nosso mercado consumidor é muito maior do que outros por aí."

Procurada pelo UOL Carros, a Ford afirmou que não se manifestará sobre as declarações do presidente.

Ataque a Rui Costa

Na conversa, Bolsonaro também rebateu o governador da Bahia, Rui Costa (PT), dizendo que faltou "capacidade de se antecipar aos problemas". Uma das três fábricas que foram fechadas fica em Camaçari (BA).

Ontem, o petista disse que a decisão era reflexo de 'um país que não cuida da sua economia, não garante segurança institucional a seus investidores e não faz as reformas necessárias".

"E deixar bem claro. A Ford ficou, por exemplo, na Bahia, que o governador está me criticando lá... Ficou por uma decisão do então senador Antônio Carlos Magalhães, o tal do ACM, que podia ter todos os defeitos do mundo, mas era uma pessoa amada na Bahia. E ele lutou, a Ford ficou lá. Agora, o governador, que tem senadores com ele, não teve a capacidade de se antecipar ao problema e buscar possíveis soluções", disse Bolsonaro.

Além de Camaçari, a Ford anunciou ontem o fechamento das fábricas de Horizonte (CE) e Taubaté (SP), além do fim da produção de veículos no país.

A marca, que já foi uma das quatro maiores do país em volume de vendas, já tinha fechado a unidade de São Bernardo do Campo (SP) em meados de 2019, onde produzia sua linha de caminhões e o Fiesta, já descontinuados.

Custo Brasil

A decisão da Ford teve forte repercussão no meio político e empresarial. A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), por exemplo, disse que o fechamento de fábricas e fim da produção de veículos da montadora no Brasil apenas confirma alertas feitos pela entidade a respeito do setor automotivo e dos custos para a produção no país.

O custo Brasil, citado pela entidade, corresponde a uma medida do quanto é mais caro produzir aqui do que em outros países em função de ineficiências e outros custos da economia brasileira.

No ano passado, um estudo estimou que as empresas instaladas no Brasil têm um custo R$ 1,5 trilhão superior a uma média de países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Esse levantamento comparou os custos brasileiros aos do exterior em 12 dimensões, como infraestrutura, tributos, integração com cadeias produtivas globais, capital humano, entre outros.

Em novembro passado, o governo federal divulgou que esperava zerar o custo Brasil num prazo de cinco anos.

Insatisfação com ruralistas

Bolsonaro voltou hoje a cobrar parlamentares da bancada ruralista, que formam a sua base de apoio no Congresso, para que eles se mobilizem em favor da candidatura do líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL), à sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na chefia da Câmara.

Lira é o favorito do governo e disputa o cargo com Baleia Rossi (MDB-SP), que tem apoio de Maia e das bancadas de oposição ao governo.

"Nós temos uma eleição da Mesa dia 1º agora. Alguns parlamentares da bancada ruralista que estão apoiando a outra chapa, e a outra chapa está coligada com PT, PCdoB e PSOL. Esses parlamentares, junto com Rodrigo Maia, travaram um montão de pautas nossas para fazer a reforma agrária, a regularização fundiária. E eles querem continuar. Esses que lucram muito conosco, e tem que que lucrar, porque tem paz no campo agora... Você não vê mais o MST invadindo terra de ninguém. Acabou com a grana deles, dinheiro de ONGs."

"Agora, quando peço para votar em uma pessoa que vai fazer a reforma agrária, que vai fazer a regularização fundiária para acabar com aquela história de que Amazônia só pega fogo no meu governo... Porque, se fizer a regularização fundiária, nós vamos saber que aquela terra que desmatou ou pegou fogo, nós vamos saber de quem é o CPF daquela pessoa. E o atual presidente da Câmara não permitiu que isso fosse votado lá."

Em tom de cobrança, Bolsonaro pediu que os parlamantares levem em consideração o fato de que, na versão do governo, o agronegócio "nunca esteve tão bem" e nunca "lucrou tanto" como no atual governo.

"O que eu peço agora para a bancada ruralista, é uma minoria, mas pode decidir. Veja o que fizemos ao longo de dois anos e o que vocês lucraram, o que o Brasil lucrou com vocês também. Agora, a gente não aguenta dois anos com uma pauta trancada. Voltada para interesse de PT, PCdoB e PSOL. O PT resolveu apoiar quem eu tenho simpatia no Senado. Eu nunca conversei com deputados do PT, do PCdoB e do PSOL. Nem eles procuraram falar comigo. Eu já sei qual é a proposta deles."

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