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Visita de Giscard d'Estaing ao Brasil lustrou política "tolerante com ditaduras latino-americanas"

03/12/2020 13h57

Qual era a relação entre o Brasil e a França na época do governo do ex-presidente francês Valérie Giscard d'Estaing (1974-1981), que morreu na quarta-feira (2), vítima da Covid-19, aos 94 anos? O chefe de Estado esteve no país para uma visita oficial em 1978, onde se encontrou com o general Ernesto Geisel. A passagem dele pelo Brasil, lembra o professor emérito de História da Sorbonne e de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Luiz Felipe de Alencastro, "integrava a política que sempre foi tolerante com as ditaduras da América Latina. "

Qual era a relação entre o Brasil e a França na época do governo do ex-presidente francês Valérie Giscard d'Estaing (1974-1981), que morreu na quarta-feira (2), vítima da Covid-19, aos 94 anos? O chefe de Estado esteve no país para uma visita oficial em 1978, onde se encontrou com o general Ernesto Geisel. A passagem dele pelo Brasil, lembra o professor emérito de História da Sorbonne e de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Luiz Felipe de Alencastro, "integrava a política que sempre foi tolerante com as ditaduras da América Latina. "

"Essa visita não teve um impacto particular. Foram assinados acordos comerciais e, além disso, a vinda de um presidente mais moderno, chegando de Concorde, mudou bastante essa ideia da França exportadora de vinhos, queijo e produtos de moda, que era a visão que se tinha no começo do século 20", explica Alencastro, que veio para a França como refugiado em 1966.

"O que ficou patente para nós, exilados, é que ele não mudou a política mais tolerante em relação aos exilados brasileiros que, na realidade começou a ser modificada antes de ele assumir a Presidência", explica. A situação dos exilados evoluiu no governo de Georges Pompidou (1969-1974), lembra Alencastro. Ele cita como exemplo o caso do economista Miguel Arraes, líder da oposição brasileira na época e governador de Pernambuco.

Até por volta de 1973, Arraes esteve exilado em Argel, na Argélia e não podia vir à França visitar a família. "Havia um pedido da ditadura brasileira feito ao presidente Pompidou para que não permitisse acesso dele à França", conta.

Pinochet

A mudança em relação à aceitação dos exilados no país ocorreu em grande parte por conta do golpe do ex-ditador chileno, Augusto Pinochet, em 1973, que marcou um verdadeiro êxodo da oposição chilena à França, e também de brasileiros, argentinos e peruanos, explica Alencastro.

"Havia um clima bastante favorável porque Salvador Allende (ex-presidente do Chile), era muito popular na França", explica. Ele fazia parte de uma coligação entre o Partido Comunista e o Partido Socialista, similar à coligação que sustentava a candidatura do ex-presidente François Miterrand, que se elegeria em 1981. "O fato de Allende pertencer à maçonaria garantia também uma certa solidariedade dos setores mais conservadores", acrescenta.

Ditadura em declínio

O professor emérito da Sorbonne também lembra que, na época da visita de Valérie Giscard d'Estaing, a ditadura brasileira começou a entrar em declínio. "Isso já estava patente para os diplomatas e assessores internacionais da presidência Giscard d'Estaing. Não era a hora de hostilizar a oposição brasileira eventualmente exilada em Paris, porque a queda da ditadura era uma questão de tempo, embora ainda tenha durado 11 anos", diz.

Alencastro lembra que a França e o Brasil sempre tiveram relações diplomáticas cordiais, mas o momento mais crítico é o atual. "Faz mais de 50 anos que sigo a relação entre os dois países e o momento mais crítico é agora, com o governo Bolsonaro e o presidente Macron".

 

 

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