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Os primeiros vacinados? Alguns profissionais da saúde dos EUA dizem não

03/12/2020 10h34

Nova York, 3 dez 2020 (AFP) - Eles têm prioridade na vacinação contra a covid-19, mas preferem ceder o lugar: apesar de uma epidemia em ritmo acelerado nos Estados Unidos, parte dos profissionais de saúde, em geral um setor favorável às vacinas, desconfia das novas por considerar que não foram suficientemente testadas.

"Penso que vou tomar a vacina mais tarde, mas agora estou desconfiada", declarou à AFP Yolanda Dodson, de 55 anos, enfermeira em um hospital do Bronx que foi o centro da batalha contra o vírus na primavera (hemisfério norte, outono no Brasil).

"Os estudos (sobre as vacinas) são promissores, mas eu não acredito que haja dados suficientes", completou Dodson. "Temos que ser gratos àqueles que estão dispostos a correr o risco", acrescentou.

Diana Torres, enfermeira em um hospital de Manhattan onde vários colegas morreram vítimas do vírus, afirma que suspeita particularmente das vacinas que serão aprovadas em caráter de urgência em dezembro pela agência federal de medicamentos (FDA, na sigla em inglês), a pedido do governo de Donald Trump, que segundo ela tratou a pandemia como uma "espécie de piada".

Estas vacinas "foram desenvolvidas em menos de um ano e serão aprovadas pela mesma administração e agências governamentais que permitiram que o vírus se propagasse como um incêndio", disse Torres.

As primeiras vacinas serão como um "experimento em larga escala. Não tiveram tempo e pessoas suficientes para estudar a vacina... Desta vez vou deixar passar e ver o que acontece", resume.

- "Não sou cobaia" -Em sua página no Facebook, vários colegas enfermeiros expressam dúvidas similares.

"Eles falharam miseravelmente com o EPI (equipamento de proteção individual) e os testes, mas agora querem que vocês sejam cobaias para a vacina", escreveu uma amiga.

As dúvidas parecem muito constantes entre os profissionais de saúde, quase 20 milhões de pessoas nos Estados Unidos, país com mais mortes provocadas pela covid-19 no mundo, com mais 272.000 vítimas fatais, de acordo com o médico Marcus Plescia, diretor da ASTHO, a Associação dos Funcionários de Saúde.

"Muitas pessoas afirmam 'Vou tomar esta (vacina), mas vou esperar um pouco'", revela. "Eu também me sentiria um pouco mais confortável quando soubesse que mais pessoas tomaram e tudo ficou bem".

"Isto poderia virar um verdadeiro problema", admitiu, ainda mais porque as novas vacinas serão autorizadas em um procedimento de emergência que torna quase impossível, legalmente, a imposição da vacinação aos profissionais da saúde.

O governador de Nova York, Andrew Cuomo, destacou na quarta-feira o perigo de uma participação insuficiente nas campanhas de vacinação, inclusive entre os funcionários da saúde.

"Existe o movimento antivacina em geral e, além disso, se acrescenta o ceticismo sobre esta vacina", declarou Cuomo.

As pesquisas refletem a desconfiança: de acordo com o Instituto Gallup, 58% dos americanos afirmam que estão dispostos a tomar a vacina quando estiver disponível, um leve aumento em relação aos 50% de setembro.

Com o nível de desconfiança, o estado Nova York, assim como outros seis, criou sua própria comissão de avaliação de vacinas, destacou o governador.

- Uma questão de ética -O doutor Plescia espera, no entanto, que a consciência profissional das equipes médicas provoque reflexões.

"A maioria de nós sente que há uma obrigação ética de se vacinar", disse. "Estamos cuidando de pessoas vulneráveis, não queremos transmitir doenças".

Mohamed Sfaxi, radiologista de um hospital de Nova Jersey que observa há três semanas o aumento de casos de covid-19 entre os profissionais da saúde, tenta convencer os colegas.

"Temos pessoas que são cautelosas, temos que falar com elas e explicar os dados", disse Sfaxi, 57 anos, que não tem dúvidas e deseja tomar a vacina o mais rápido possível.

A desconfiança, aponta, deve-se à técnica inovadora das vacinas Pfizer/BioNTech e Moderna - que usam a tecnologia do "RNA mensageiro", que consiste em injetar instruções genéticas para fazer com que nossas células produzam "antígenos" específicos do vírus - e à velocidade com que a vacina foi concebida.

"Mas o fato de que seguimos tão rápido se deve simplesmente a que a ciência fez progressos e todo mundo se dedicou a isto", alegou.

Sfaxi, que observa diariamente pulmões comprometidos pelo vírus, pretende se submeter a um exame de anticorpos a cada três, ou quatro dias. "Isto permitirá que eu consiga ver quando começarei a ter uma reação imunológica e ficar um pouco menos angustiado", completou.

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