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Por que a maioria dos franceses não quer se vacinar contra a Covid-19?

01/12/2020 06h44

De acordo com uma pesquisa recente realizada pelo instituto BVA em parceria com a rádio francesa Europe 1, apenas 20% da população estaria disposta a se vacinar assim que for possível. O fato de a imunização ter sido produzida em tempo recorde gera desconfiança.

De acordo com uma pesquisa recente realizada pelo instituto BVA em parceria com a rádio francesa Europe 1, apenas 20% da população estaria disposta a se vacinar assim que for possível. O fato de a imunização ter sido produzida em tempo recorde gera desconfiança.

Enquanto no Brasil a chegada da vacina é vista como a salvação para uma crise que parece sem fim e parte da população defende sua obrigatoriedade, na França a situação é bem diferente.

Cerca de 60% dos franceses dizem que pretendem se vacinar, mas não na primeira oportunidade. Além disso, 64% só aceitam a injeção se a imunização for produzida na Europa e, 72%, na França. Apenas 17% aceitariam a vacina chinesa. Como explicar esse comportamento depois de meses de lockdown, restrições, uso de máscaras e comprometimento da vida social para quem segue as regras à risca?

"Desde que a vacina foi inventada, no fim do século 18, existiu esse movimento contrário à vacinação", diz o historiador francês Laurent-Henri Vignaud, especialista em História da Ciência e co-autor do livro ANTIVAX, La résistance aux vaccins du XVIIIe siècle à nos jours (Antivacinas, a resistência às vacinas do século 18 aos dias atuais, em tradução livre), publicado no ano passado.

O pesquisador lembra que a primeira vacina foi descoberta pelo médico rural inglês Edward Jenner, em 1796, que descobriu como combater a Varíola. Os antivacinas, que surgiram em toda a Europa na época, eram médicos que consideravam a prática perigosa.

Oposição por princípio

De lá para cá muita coisa mudou, as vacinas se tornaram seguras, acabaram com epidemias e salvaram populações. Por que hoje, então, os franceses são reticentes à injeção contra a Covid-19? O historiador ressalta que existe uma diferença "entre o que os franceses dizem e o que os franceses fazem" e que o povo, rebelde por natureza, muitas vezes acaba cedendo às regras.

Ele cita como exemplo a obrigatoriedade de 11 vacinas, imposta em 2018, para que as crianças possam frequentar a escola pública no país. "Os médicos dizem que às vezes encontram pais que recusam a imunização, mas quase sempre com diálogo e um pouco de informação eles acabam aceitando", afirma o historiador. 

Em relação à vacina contra a Covid-19, diz Vignaud, o fenômeno é cultural. A população francesa, indicam os estudos, é hoje uma das menos propensas à imunização em todo o mundo. "Isso se deve ao fato de que os franceses, de maneira geral, desconfiam de todo tipo de discurso das autoridades políticas ou dos laboratórios. Há uma espécie de desconfiança generalizada que acaba surtindo efeito sobre a opinião pública em relação à vacina", analisa.

Quando 40% dos franceses dizem que a vacina não é segura, essas pessoas não são necessariamente contrárias à vacinação, mas reticentes em relação ao discurso oficial e político, reitera o historiador. "Na verdade, a confiança na vacina serve de medida para a confiança que o povo tem no governo", observa. A oposição, explica, deriva do ceticismo dos franceses em relação ao discurso das autoridades políticas do país.

É possível que uma parte da população mude de opinião quando as vacinas estiverem disponíveis, acredita. "Sim, isso é provável e tudo dependerá da maneira como os políticos comunicam. É importante que o façam com sinceridade, pedindo às pessoas que sejam responsáveis, e não as colocando em uma posição de submissão, vertical", declara.

"É um reflexo normal"

Segundo ele, questionar se as vacinas foram concebidas rápido demais é um reflexo comum a qualquer cidadão. "Não podemos negar que essa é uma doença nova, uma vacina nova, fabricada com uma nova tecnologia", diz o historiador, citando as vacinas do laboratório Pfizer e da empresa Moderna, que utilizam o chamado RNA mensageiro.

Esta será a primeira geração de vacinas a utilizar esse tipo de tecnologia em grande escala e os riscos não podem ser descartados, mesmo sendo extremamente baixos, reitera.

Ele lembra que a fase 3 dos testes clínicos serve justamente para comprovar que, nas semanas seguintes à injeção, a vacina não provocará reações colaterais graves, ou mesmo irrelevantes. Ninguém pode afirmar por enquanto, diz Vignaud, que o "antídoto" contra a Covid-19 não terá efeitos a longo prazo, contrariamente a imunizações centenárias, como é o caso da vacina contra a Difteria ou o Tétano.

Neste contexto, lembra, é normal que uma parte da população, já desgastada por meses de restrições, questione a eficácia anunciada pelos laboratórios. No decorrer das próximas semanas, entretanto, a opinião pública pode evoluir, acredita.  A expectativa é que a campanha no país comece aos poucos e disponibilize, nos próximos meses, doses para profissionais da saúde e pessoas do chamado grupo de risco, que podem desenvolver formas graves.

O historiador acredita que a vida dificilmente voltará ao normal antes do verão europeu, mas há sinais de que a doença esteja regredindo, independentemente das medidas de proteção. "É a hipótese de um ciclo natural. Não podemos nos esquecer de que os vírus seguem seu próprio ciclo e regridem, sem que saibamos exatamente o porquê."

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