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Venezuela 2020: ricos do governo Maduro são uma ilha em um mar de pobres

26/11/2020 07h24

Em uma Venezuela com mais de 96% da população empobrecida, surge uma classe beneficiada por políticas estatais que vêm fortalecendo o mercado de luxo no país socialista. São os ricos que apareceram durante a gestão de Nicolás Maduro. Eles parecem ignorar as mazelas sociais, evidenciadas por pessoas que reviram lixo em busca de comida, enquanto circulam pelas vias esburacadas em veículos importados blindados que podem custar mais de US$ 85.000.

Em uma Venezuela com mais de 96% da população empobrecida, surge uma classe beneficiada por políticas estatais que vêm fortalecendo o mercado de luxo no país socialista. São os ricos que apareceram durante a gestão de Nicolás Maduro. Eles parecem ignorar as mazelas sociais, evidenciadas por pessoas que reviram lixo em busca de comida, enquanto circulam pelas vias esburacadas em veículos importados blindados que podem custar mais de US$ 85.000.

Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

Entrar no "bodegón" Cine Citta é se transportar a outro mundo. Importadoras deste tipo se proliferaram no país desde que o presidente Maduro flexibilizou as importações a empresários locais. A nova política deu fim a anos de escassez de produtos industrializados. No entanto, fortaleceu a dolarização de fato do país cuja moeda nacional vale, até o momento, 917.739,52 menos que a moeda norte-americana, de acordo com a cotação do Banco Central da Venezuela.

Este armazém, que ocupa cerca de 70%de um centro comercial na capital venezuelana, oferece aos mais abastados produtos importados de primeira qualidade. Desde chocolates Lindt a diversas marcas de whisky, queijos finos que podem custar US$ 1.400 a peça, ou mesmo uma árvore de natal artificial tabelada em US$ 600.

Uma realidade que mais parece ficção, se for levado em conta que o salário mínimo, de 800 mil bolívares, vale menos que US$ 1 (isso mesmo: 1 dólar).

De acordo com a Encovi - Pesquisa Nacional de Condições de Vida, feita pela Universidade Católica Andrés Bello, cerca de 79% dos venezuelanos não têm como adquirir a cesta básica. Outro dado alarmante é a pobreza, que afeta 96% da população.

Roupas caras e uniformes estatais

Os clientes do Cine Citta variam entre pessoas que passariam despercebidas, outras bem cuidadas e com roupas caras, modelos e até mesmo funcionários usando uniformes estatais.   

Víctor Álvarez, economista e ex-ministro de Indústrias Básicas e Minas do governo de Hugo Chávez, classifica a aparição deste mercado de luxo na Venezuela como "um dos fenômenos mais contraditórios e chocantes em um país castigado por uma crise humanitária e que obrigou a mais de 5 milhões de venezuelanos a fugir do desemprego, da fome e da pobreza".

Álvarez lança a hipótese de que este seja "o surgimento do capitalismo de clientes, onde aparece uma nova e vigorosa classe empresarial muito conectada com o governo e que recebe o favor dos incentivos de políticas econômicas".

Ele enumera os benefícios que seriam recebidos por estes empresários: exoneração de impostos para a importação de quaisquer tipos de produtos, exoneração do imposto sobre valor agregado, empréstimos sob condições favoráveis em bancos públicos, flexibilização e desregulamentação de autorizações e de obrigações e um conjunto de incentivos".

Ostentação e cirurgias plásticas

Similares aos brasileiros, os venezuelanos gostam de mostrar, ostentar os bens materiais.  

"Ao contrário dos setores tradicionais do empresariado venezuelano, esta nova classe empresarial não costuma ter a discrição da burguesia tradicional. Eles gostam de ostentar e alardear sua riqueza e isso faz com que o fenômeno seja muito mais notório", explica Álvarez.

Conhecidos pela vaidade, os venezuelanos, sobretudo os mais abastados, costumam investir não apenas em roupas e acessórios mas também em cirurgias plásticas.

Uma das mais procurada é a rinoplastia. "Custa cerca de US$1.500 a US$ 3.000 remodelar o nariz", conta uma enfermeira que preferiu não se identificar. Questionada sobre os frequentadores da clínica de estética onde trabalha, ela conta que "os clientes são basicamente os "enchufados" (pessoas ligadas ao governo), que são os que têm dinheiro agora".    

Lavagem de dinheiro?

Víctor Álvarez não descarta que "o aparecimento deste mercado de luxo tenha a ver com a lavagem de dinheiro proveniente da corrupção, do tráfico de drogas e de outros crimes que seriam a fonte de recursos para o desenvolvimento destes negócios".

De acordo com a ONG Transparência Internacional, em 2019 a Venezuela ocupou o posto 176 na lista de 180 países mais corruptos do mundo. 

Álvarez cita como exemplo "o desenvolvimento, em importantes cidades do país, de obras imobiliárias, shoppings e conjuntos residenciais de luxo que são difíceis de explicar com fontes de financiamento convencionais em meio a uma enorme crise econômica que afeta o país".

Luxo e glamour em Los Roques

Em Los Roques, arquipélago que abriga um parque nacional encravado no Caribe venezuelano, está sendo construído um condomínio de casas de alto padrão em áreas teoricamente protegidas. Pelas águas cristalinas do lugar também circulam gigantescos iates, verdadeiras mansões flutuantes. São imagens que remetem ao rico Principado de Mônaco e não a um país empobrecido onde falta gás doméstico, gasolina e água encanada.

Para ir a este paraíso venezuelano, caso a pessoa não tenha embarcação ou avião privado, é preciso desembolsar cerca de US$ 600 por um pacote turístico de três dias e duas noites em uma pousada regular.

No entanto, segundo o economista Angel Alvarado, "em termos gerais a Venezuela é um país que tem muito dinheiro privado economizado no exterior". Ele cita que algumas dessas antigas fortunas foram feitas durante os cem anos de exportação de petróleo.

Ele também explica que "isso gerou uma economia dupla e desigual, entre os que economizam ou têm renda em dólares e quem não economiza. Uma parte dessa poupança é corrupção, mas não é algo que se possa estabelecer a priori, há também um dinheiro bem ganho, honesto".

Ilhas Cayman

É do Caribe venezuelano que saem as lagostas vendidas nos restaurantes de Caracas. O quilo do crustáceo varia entre US$ 38 e US$ 60, dependendo do estabelecimento.

Há poucos dias, em um restaurante no Centro da capital venezuelana, um discreto casal consumia uma lagosta de tamanho médio para grande. Ao lado da mesa, o suporte refrigerava duas garrafas de vinho branco. Para encerrar a refeição, a dupla pediu doses de licor. De acordo com o garçom do local, a conta foi de cerca de US$ 120, sem a gorjeta.

Além do bom gosto à mesa, a indumentária do homem chamava a atenção: tênis, calça cargo e uma camiseta do Hard Rock Café das Ilhas Cayman - lugar conhecido por ser um paraíso fiscal.           

Um relatório divulgado em abril deste ano e apoiado pela Organização das Nações Unidas apontou que a Venezuela está em quarto lugar no índice de países com a pior crise alimentar do mundo. A situação venezuelana é mais crítica que a da Etiópia, que ficou em quinto lugar na lista.

O documento aponta que 9,3 milhões de pessoas - quase um terço da população da Venezuela - não consome alimentos suficientes. Cerca de 13% das crianças venezuelanas com menos de 5 anos estão raquíticas e 30%, anêmicas.

Nos últimos sete anos a economia venezuelana foi reduzida em mais de 80%. O Produto Interno Bruto entrou no sétimo ano de contração consecutiva. Sem contar que a maioria das empresas fecham o ano fiscal com perdas.

A situação foi agravada pela pandemia, que "deu um golpe a esta economia moribunda. No entanto, em meio à ruptura com a economia tradicional surge este novo setor que se concentrou no mercado de luxo evidenciando um dos fenômenos mais contraditórios, paradoxos e chocantes da Venezuela atual", resume Víctor Álvarez.

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