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Em livro, papa descreve vezes em que se sentiu como pacientes com Covid-19

23/11/2020 17h33

Cristina Cabrejas.

Cidade do Vaticano, 23 de nov (EFE).- No livro "Vamos Sonhar Juntos: O Caminho Para Um Futuro Melhor", que será lançado no Brasil pela editora Intrínseca no dia 1º de dezembro, além de trazer uma análise da crise causada pela pandemia de Covid-19, o papa Francisco também relata três momentos de sua vida em que se sentiu como pacientes contagiados pelo novo coronavírus.

"Sei, por experiência própria, como os pacientes com coronavírus se sentem quando lutam para respirar", explica o pontífice na obra de 144 páginas, já disponível para pré-venda nos formatos físico e digital.

Escrito em forma de conversa com o jornalista católico e biógrafo do papa, o britânico Austen Ivereigh, o livro descreve três momentos em que o argentino Jorge Mario Bergoglio, muito antes de ser o líder máximo da Igreja Católica, teve que enfrentar situações de extrema solidão, como forma de aproximar a narrativa dos leitores que já superaram ou que ainda estão lutando contra o coronavírus Sars-CoV-2.

PRIMEIRA EXPERIÊNCIA NO LIMITE DA DOR E DA SOLIDÃO.

"Quando contraí uma doença grave, aos 21 anos, tive minha primeira experiência no limite da dor e da solidão, que mudou minhas coordenadas. Durante meses, não sabia quem eu era, se morreria ou se viveria. Nem mesmo os médicos sabiam se eu conseguiria sobreviver. Lembro que um dia pedi à minha mãe, enquanto a abraçava, que ela me dissesse se eu ia morrer. Nessa época, eu estava no segundo ano do seminário diocesano de Buenos Aires", conta Francisco que, pela primeira vez, descreveu esses momentos de forma muito pessoal.

"A data era 13 de agosto de 1957. Um dos responsáveis do seminário me levou ao hospital, ao perceber que eu não tinha um tipo de gripe que podia ser tratada com aspirina. Primeiro, tiraram um litro e meio de água do meu pulmão, depois fiquei entre a vida e a morte. Em novembro, fiz uma cirurgia para remover o lobo superior direito do pulmão. Sei, por experiência própria, como os pacientes com coronavírus se sentem quando lutam para respirar", acrescentou o papa eleito em 2013.

O pontífice, de 83 anos, também disse que, desse período, se lembra, principalmente, de duas enfermeiras. Uma delas, a irmã Cornelia Caraglio, salvou sua vida porque "sabia melhor do que o médico o que os doentes necessitavam e teve a coragem de aproveitar essa experiência". Já a outra, lhe dava, sem que ninguém mais soubesse, doses extras de tranquilizantes após o fim de seu expediente.

"Sempre estarei em dívida com elas, que lutaram por mim até o fim, até eu me recuperar. Elas me ensinaram o que significa usar a ciência e saber ir além para atender a necessidades específicas", lembrou o papa, que depois dessa experiência tomou a decisão de falar o mínimo possível ao visitar doentes e passou a simplesmente segurar suas mãos.

EXÍLIO NA ALEMANHA.

O papa Francisco definiu o período que passou na Alemanha, em 1986, como a "Covid do exílio".

"Foi um exílio voluntário porque fui lá estudar o idioma e buscar material para concluir minha tese (de doutorado), mas me senti um peixe fora d'água", explicou, ao recordar também que sentia muitas saudades da terra natal.

"Eu me lembro do dia em que a Argentina ganhou a Copa do Mundo. Eu não quis ver o jogo e soube que tínhamos ganhado apenas no dia seguinte, quando li no jornal. Ninguém na minha aula de alemão comentou nada, mas quando uma menina japonesa escreveu 'Viva a Argentina' no quadro, os outros riram. A professora entrou na sala, disse para ela apagar a frase e encerrou o assunto", contou.

"Foi a solidão de uma vitória solitária, porque não havia ninguém com quem compartilhá-la; a solidão de não pertencer, que te torna um estranho. Eles tiram você de onde você está e te colocam em um lugar que você não conhece e, enquanto você aprende, o que realmente importa é onde você parou", afirmou o pontífice no livro.

ISOLAMENTO EM CÓRDOBA.

A terceira experiência que o pontífice comparou a um caso de Covid-19 foram os quase dois anos em que morou em Córdoba, entre 1990 e 1992, como representante dos jesuítas na província argentina e depois como reitor.

"Passei um ano, dez meses e 13 dias naquela residência jesuíta. Celebrei missas, confessei e ofereci conselhos espirituais, mas nunca saí, exceto quando tinha que ir ao correio", contou o pontífice, que nasceu em Buenos Aires em 17 de dezembro de 1936.

"Foi uma espécie de quarentena, de isolamento, como o que aconteceu com tantas pessoas nos últimos meses, e me fez bem, me levou a amadurecer as ideias: escrevia e orava muito", ressaltou o papa Francisco, que considera este período como "uma verdadeira purificação".

Segundo o pontífice, o isolamento o tornou mais tolerante, compreensivo, e capaz de perdoar mais.

"Também me deu uma nova empatia com os fracos e indefesos. E paciência, muita paciência, ou seja, o dom de compreender que coisas importantes demoram", acrescentou.

Para o líder religioso, as três experiências que viveu: a doença, a Alemanha e Córdoba, ao final, foram muito enriquecedoras.

"Aprendi que você sofre muito, mas se conseguir mudar, você vai sair melhor. Se, em vez disso, você levantar barricadas, sairá pior", concluiu o papa. EFE

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