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"Com a covid, deviam autorizar", diz enfermeira brasileira impedida de trabalhar na França

A enfermeira brasileira Julia Loyola teve de recomeçar a graduação de enfermagem do zero para poder trabalhar na França. A foto da direita foi tirada em 2018, quando ela começou o curso na França - Arquivo Pessoal
A enfermeira brasileira Julia Loyola teve de recomeçar a graduação de enfermagem do zero para poder trabalhar na França. A foto da direita foi tirada em 2018, quando ela começou o curso na França Imagem: Arquivo Pessoal

20/11/2020 14h03

"Durante o primeiro lockdown foi muito duro ver tanta gente doente. Eu queria ter podido fazer uma coisa, porque sou enfermeira. Sinto como se me negassem o direito de salvar uma pessoa. Foi extremamente difícil ver o apelo dos profissionais de saúde, precisando de ajuda, e eu louca para ir e não poder. Em tempos de pandemia, eles deviam autorizar o nosso trabalho", desabafa Diana Micucci, enfermeira brasileira que mora em Versailles e não conseguiu validar seu diploma na França.

A validação do diploma de pessoas de fora da União Europeia para alguns trabalhos, notadamente os da área de saúde, não só não é automática como é necessário refazer toda a graduação a partir do zero.

A naturopata e enfermeira brasileira Rafaela Tillier relata uma via crucis para tentar validar seu diploma de enfermeira na França.

"Quando cheguei aqui, em 2010, não havia nenhuma informação disponível sobre como validar o diploma. Nem na internet, nem no Pôle Emploi (a agência de empregos pública da França). Então eu fui fuçando e consegui um encontro com o diretor da Agência Regional de Saúde. Eu levei meu currículo, minha carta de motivação, ele olhou e disse que eram excelentes, mas que infelizmente ele não sabia o que fazer comigo", conta Rafaela.

"Ele me sugeriu fazer um teste para poder trabalhar como uma técnica de enfermagem, mas que só faz a parte da refeição e de limpeza dos pacientes", diz.

"Eu fui passar um teste prático num hospital em Paris, e foi traumático. Meu paciente tinha mais de 120 quilos, ele entendia pouco francês. Eu tenho 53 quilos e tive dificuldade de movimentar este paciente sozinha, sendo que ele não escutava bem, enquanto duas enfermeiras ficaram me analisando, elas foram extremamente desagradáveis, ficavam me questionando e me julgando durante todo o teste", relata.

"Depois deste teste, eu fiquei mal, elas me fizeram sentir que eu não servia para nada", confessa.

Mudança de área

A outra possibilidade para Rafaela e para qualquer enfermeiro diplomado fora da União Europeia seria de se submeter a um teste para um concurso que dá acesso às Escolas de Enfermagem, como um vestibular específico para a área. Para isso, seria necessário um curso de preparação que pode durar um ano, e tem muito poucas vagas nestas escolas. Na faculdade, são três anos de estudos em tempo integral.

"O conselheiro do Estado me disse: veja se vale a pena para você, pois você tem de voltar para a faculdade por três anos, em tempo integral e depois ter de trabalhar por cinco anos em hospital público", explica.

"Eu não queria fazer três anos de formação para aprender a retirar ar da seringa. Foi ali que eu decidi estudar para fazer outra coisa. Mas, se eu tivesse tido a oportunidade de trabalhar na minha área, claro que eu teria feito", conta Rafaela, que hoje é naturopata, mas já trabalhou em hospitais no Brasil e se especializou em instrumentação cirúrgica.

Além disso, disse ela, dependeria do diretor da escola se ele iria ou não isentá-la de fazer uma ou outra disciplina. "Mas fui informada de que, como o diploma brasileiro não tem equivalência, eu devia me preparar para fazer o curso completo."

Assim como Rafaela, a enfermeira e coach Ligia Paraíso também mudou de área. Ela trabalhou no SAMU e em hospitais em São Paulo, mas tampouco pôde usar sua experiência adquirida no Brasil para atender pacientes na França. Além da faculdade, Ligia fez um MBA Executivo em Saúde na Fundação Getúlio Vargas trabalhou com gestão hospitalar.

"Eu nunca tive problemas para achar emprego no Brasil. Quando eu vim morar aqui, em 2015, fui falar com a diretora de uma Escola de Enfermagem para tentar validar o diploma. Ela viu meu currículo e a grade curricular dos meus cursos. Ela ficou surpresa com o meu nível de estudos, mas ficou muito consternada de dizer que não poderia fazer nada por mim: eu ia ter de começar do zero", conta Ligia.

"Depois eu fui em outra escola que trabalha só com especialização em enfermagem e não consegui também. Eu poderia até fazer a especialização, mas não poderia atuar na França. E se eu quisesse chegar ao nível em que estava, teria que fazer o curso de enfermagem inteiro e trabalhar quatro anos em hospital para então poder fazer minha especialização em gestão", diz Ligia, que tentou ver como validar o diploma em Portugal, mas também não seria simples por lá.

"No Samu, eu fazia parto, pequenas cirurgias, auxiliava os médicos em cirurgias. Também trabalhei como chefe de setor em hospitais e aqui eu só poderia ser técnica. Eu cheguei a fazer uma entrevista num hospital em Paris para um cargo de gestão, para o qual eu tinha todas as qualificações e o apoio da equipe, mas o RH não aprovou. Então eu mudei de área", diz Ligia, que hoje é coach especializada em neurociência.

Concurso de admissão suspenso

Para deixar as coisas mais difíceis, o concurso para entrar na Escola de Enfermagem de Versailles não foi aberto este ano, por causa da pandemia, relata Diana.

"Este concurso só abre uma vez por ano. Desde fevereiro, eu ligava a cada 15 dias para a Escola de Formação de Enfermeiros de Versailles para saber quando abririam o concurso para a validação do meu diploma, mas tudo ficou parado por causa da pandemia. Até que me pediram para parar de ligar, que me informariam quando reabrissem", diz Diana, que trabalha como assistente de educação enquanto espera a abertura de um concurso.

"Eu amo a enfermagem e quero muito trabalhar aqui, mas tem sido frustrante, todas as pessoas me desencorajam a validar o diploma aqui, porque o processo é longo e muito difícil", lamenta.

Legião estrangeira

"Eu acho que, assim como os soldados estrangeiros que se alistam para lutar pela França na Legião Estrangeira e depois podem requerer a cidadania, o Estado francês poderia nos permitir trabalhar na guerra contra a Covid-19. Eles nos dariam o direito de trabalhar e nós os ajudaríamos a lidar com a crise da falta de profissionais especializados com a nossa força de trabalho", argumenta.

Diana acha que uma atualização e mesmo uma formação específica para lidar com os doentes de Covid é necessária, mas não gostaria de ter de refazer todo o curso.

Em algumas cidades francesas, como Estrasburgo, hospitais organizam quatro sessões de meia jornada para formar enfermeiros e enfermeiros voluntários para lidar com casos graves de Covid-19. Mas isso não se aplica aos estrangeiros.

Começar de novo

Julia Loyola nasceu na França, mas tem nacionalidade brasileira e viveu a maior parte da sua vida no Brasil. Em 2011, voltou a morar na França. Formada em educação física no Brasil, se apaixonou pela área de Enfermagem quando morou em Londres e trabalhou em um asilo de idosos. Voltou para o Brasil e cursou enfermagem. "Eu sempre tive este lado social muito aguçado", diz.

Quando chegou na França, Julia já sabia que não seria fácil validar o diploma. Prestou o concurso para a admissão no curso de enfermagem e não passou, pois seu nível de francês não era bom. "Em 2012, eu peguei uma autorização do Estado francês - que não existe mais - e comecei a trabalhar como técnica de enfermagem num asilo, onde fiquei por seis anos".

"Em 2017, tentei de novo o concurso. Fui superbem na prova, mas mais uma vez não passei, faltava um ponto para passar. Achei estranho, pedi uma audiência com o diretor, que me atendeu e disse não entender por que eu não passei. Me disse para pedir um recurso na Justiça. Era tão complicado que eu deixei pra lá. Já tinha até desistido de fazer este concurso e ia mudar de área, mas meus pais me incentivaram e eu tentei pela terceira vez em 2018 e finalmente passei", conta Julia.

"Não tem muitos estrangeiros que fazem este concurso. Brasileiro eu não conheço nenhum", diz Julia, que está no último ano do curso de enfermagem e não teve isenção em nenhuma matéria. Em algumas, ficou isenta das provas, mas tinha de assistir às aulas e fazer todos os estágios. "Eu comecei do zero, foi minha escolha", relata Julia, que pede ajuda da filha de 15 anos para corrigir seu francês nos trabalhos escritos.

"Eu entendo que, para quem já tem um diploma e alguma experiência, é frustrante começar tudo de novo", diz Julia, que trabalhou no SUS e, apesar dos percalços, está muito feliz por ter esta oportunidade de se formar na França na área que ama.

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